sábado, 28 de setembro de 2013

A batalha dos Gatos Pingados

Movimento grevista durou uma semana (Foto: Tarso Sarraf)


Foi a semana mais longa da minha vida. A voz rouca, o cansaço, os pés ainda doloridos, os dois quilos a menos, são resultados direto desses sete dias que deixamos de cobrir as notícias para nos tornar notícias. Abandonamos o medo e a zona de conforto para construir a nossa própria história. Uma história escrita com mérito plural, diga-se de passagem. Somos todos vencedores.

Na primeira reunião na casa do Elias, realizada a cerca de duas semanas antes da greve, o brilho nos olhos de cada um já anunciava. A gente queria mais. Queria dar um basta na opressão vivida diariamente no jornal de um milhão de leitores. Queria provar que assim como nos relatos bíblicos, poderíamos sim vencer um gigante. Encarar o desafio, ir para a luta, ocupar as ruas, exigir os nossos direitos.


Jornalistas do Diário do Pará e Dol em greve (Foto: Tarso Sarraf)



Éramos todos Leonardo Fernandes. Éramos todos Rafaela Colin. Éramos muito mais que “meia dúzia de gatos pingados”, como ironizou o diretor comercial do Diário do Pará, nas redes sociais, horas antes de a greve ser deflagrada.  Aliás, o comentário do diretor foi um grande exemplo da máxima que o feitiço pode virar contra o feiticeiro. E virou. A ironia do pobre homem se tornou o hino do nosso movimento. “Nós gatos já nascemos pobres. Porém, já nascemos livres...”.

Fechamos rua, brincamos de ciranda, choramos, gritamos aos quatro cantos do mundo que queríamos respeito. Erramos, aprendemos uns com os outros, fizemos da rua uma grande sala de aula, declamamos poesias. Mostramos que é possível sim fazer um novo jornalismo. Provamos que os nossos sonhos ainda não morreram. Ainda não vencemos a guerra, isso é verdade. Mas  quem se atreve a dizer que não ganhamos essa batalha?


Ciranda dos gatos pingados (Foto: Tarso Sarraf)


Obtivemos 50% de aumento em seis meses, ganhamos estabilidade, conseguimos equipamentos de segurança para equipes que cobrem a editoria de policia e, principalmente, não abaixamos a cabeça para o patrão. Ainda falta muita coisa para ser conquistada, claro. Mas isso é apenas o início, apenas a primeira batalha dos gatos pingados. Ou como diria o poeta e jornalista de formação Renato Russo, “Temos muito ainda por fazer /Não olhe pra trás / Apenas começamos”.