terça-feira, 13 de agosto de 2013

Deadline



Ainda não era nem seis e meia da manhã quando ele abriu os olhos, levantou da cama, ligou a luz e percebeu um cheiro forte de café com maconha vindo da direção da cozinha. O pau ainda duro era sinal de que a noite tinha sido intensa. Foi ao banheiro, levantou a tampa do vaso, mijou, lavou o rosto e seguiu para o outro cômodo do pequeno apartamento. Na cozinha, ela, ainda nua, coava o café, sussurrando uma música dos “Beatles”, quando foi interrompida por ele. O que aconteceu? “A história é um pouco longa. Mas posso dizer que tudo começou com um debate sobre política”, disse ela. 


Ele sorriu. Lembrou do inicio da discussão, ainda no trabalho. Ela falando que odiava partidos de esquerda e ele a chamando de burguesinha alienada. Tudo por conta de uma pauta sobre a política cultural do Pará. Como não havia mais ninguém da editoria de cidades disponível para cobrir uma manifestação de artistas locais contra o governo, ela foi chamada para fazer a matéria. Foi ao local indicado mesmo contra sua vontade, ouviu várias pessoas, voltou para a redação e na hora de entregar o texto ao editor, disse que tinha gostado do evento. Era a primeira vez que fazia uma reportagem fora da editoria de esporte. Na verdade, só não gostou das bandeiras vermelhas dos partidos durante a manifestação.


“Mas o ativismo dos partidos de esquerda é fundamental nesses eventos”, afirmou ele, que durante a juventude foi militante de movimento popular. O debate foi longo. Ela dizendo que o socialismo era uma utopia. Ele afirmando que utopia é achar que existe progresso no capitalismo. A discussão só terminou quando ela disse que Leonardo Boff era o único teórico de esquerda que ela respeitava. Os ânimos se acalmaram. Ele confessou que sonha em fazer um documentário sobre o teólogo. E inclusive, já tem o roteiro do filme guardado em casa.

“E foi assim. Eu vim até a sua casa para ver o roteiro do documentário sobre o Leonardo Boff. A gente conversou até tarde, de maneira bastante civilizada, claro. E durante esse tempo, bebemos cerveja, falamos mal do jornal, fumamos um baseado que você guardava há semanas na geladeira e por fim, acabamos na cama”, revelou a repórter, com um largo sorriso no rosto. O cheiro de café com maconha ainda exalava por toda a cozinha.

“Você é maluca, sabia? Eu tenho idade para ser o teu pai. Estou recém separado de um casamento de 12 anos, não sou um homem ideal para uma jovem tão linda como...”. Ele foi interrompido com um beijo aromatizado de café. Ela disse que não ligava para diferença de idade e nenhum outro tipo de convenção social. Os dois se abraçaram, assistiram a reportagem feita por ela sobre a manifestação dos artistas locais, exibida na primeira edição do telejornal, tomaram café, fumaram novamente o mesmo cigarro de maconha que tinha sido apagado na noite anterior, trocaram caricias e fuderam em cima da mesa de jantar pela segunda vez.