segunda-feira, 8 de julho de 2013

Todo dia é dia de São Benedito

Nome de estádio de futebol, inspiração para arte, igreja, mirante a beira do principal rio da cidade, estátua às margens da rodovia PA-242. A devoção por São Benedito é nítida nos quatros cantos do município de Bragança, nordeste do Pará. “Apesar do ápice da devoção por São Benedito ocorrer no mês de dezembro, mais especificamente durante o período da festividade do santo, a consagração pelo padroeiro da cidade acontece durante 365 dias do ano. E está presente em cada parte do município”, afirma o historiador Dário Benedito Rodrigues, bragantino e pesquisador da Festividade de São Benedito.

Segundo ele, o santo é uma espécie de estandarte da cidade. E traduz, através das mais diferentes manifestações culturais, o cotidiano de um município com 400 anos de história. “Seja na arquitetura, nas composições musicais, nas artes plásticas, em testemunhos de graças recebidas ou até mesmo nos inúmeros registros de nascimentos da cidade, a devoção pelo santo preto faz parte da essência do bragantino. É um costume comum. Não podemos falar em Bragança sem falar na identificação dos moradores com São Benedito”, ressalta o pesquisador, que como muitos moradores da cidade, também possui no nome de batismo a homenagem ao santo.



Mirante de São Benedito (Foto: Alex Ribeiro)


“Assim como em Belém tem muita gente chamada Maria de Nazaré por conta da devoção a Nossa Senhora de Nazaré, em Bragança ocorre a mesma coisa. Mas aqui, o homenageado é o santinho preto”, explica a dona de casa Benedita Cruz, 40 anos, devota do santo e maruja há mais de duas décadas. “Eu costumo dizer que a minha devoção por São Benedito acontece desde quando eu estava na barriga da minha da mãe, pois como ela tinha muita dificuldade em engravidar, ela e o meu pai fizeram uma promessa ao santo. Disseram que se ocorresse tudo bem na gravidez e eu nascesse com saúde, o meu nome seria o mesmo do santo. E não deu outra. Eu nasci, conforme o planejamento deles, e na mesma hora fui registrada como o nome do santinho”, revelou Benedita.

A identificação da cidade com o santo começou no final do século 18, a partir de uma Irmandade religiosa fundada por escravos. De lá para cá, as manifestações de louvor a São Benedito foram crescendo e se tornando cada vez mais presente no cotidiano dos moradores de Bragança. “A devoção pelo santo nasceu através de uma classe oprimida, e ainda hoje está presente nessa origem. Por isso houve uma identificação tão forte com os moradores. São Benedito é um santo do povo, que representa os anseios do povo e por isso ele se tornou tão popular”, esclarece o historiador.


Zélia revela que a devoção pelo santo sempre fez parte de sua vida (Foto: Clemente Schwartz)


Apesar de não ter o nome do santo no documento de identificação, a artesã Zélia Clemente revela que a devoção pelo padroeiro de Bragança sempre esteve presente em sua vida. “Assim como muitos bragantinos, eu também tenho uma história de promessa com o santo. Quando era eu criança, eu tinha muita dificuldade em me locomover e praticamente não conseguia andar. Por isso, minha mãe fez uma promessa ao santinho e disse que se eu voltasse a andar, eu iria sair todos os anos de maruja. E graças a Deus e a São Benedito, a promessa dela foi atendida e desde então, todos os anos eu saio de maruja. Coloco brinco, colar, pulseira, chapéu e caminho com a roupa que eu mesmo faço”, conta emocionada.

Maruja há 30 anos, a artesã também traduz a identificação com o santo através da arte. Ela é uma das dezenas de artistas que durante os finais de semana trabalha em uma feirinha próximo a orla da cidade vendendo artesanatos com a temática da Marujada de São Benedito. Um ritual de dança, louvor e devoção ao santo padroeiro dos escravos, que ocorre no município desde o ano de 1798 e se apresenta com uma das maiores manifestações culturais de resistência na Amazônia.

Na casa de Zélia, a devoção pelo santo já atravessa gerações. Além dela, filha e neta também saem em cortejo, religiosamente, todo o dia 26 de dezembro, vestidas a caráter com saia vermelha, blusa branca rendada e chapéu coberto por plumagem e enfeitado por longas fitas coloridas na parte de trás. “O dia de São Benedito também é dia de louvar o santo através da dança da marujada e agradecer por mais um ano de graças recebidas”, declara a artesã. 

Marujada de São Benedito em traje oficial (Foto: Tarso Sarraf)


Maruja de São Benedito há dez anos, a professora Socorro Souza só sai de casa após segui um ritual. Fazer uma oração e beijar uma fita vermelha amarrada na imagem do santo, guardada dentro de um oratório de madeira. “É uma forma de respeito à memória do santo”, justifica. Para ela, a tradição ao padroeiro de Bragança só permanece viva porque se renova a cada ano. “Principalmente durante o período em que as comitivas de esmolação que levam o santo de casa em casa peregrina pelas ruas da cidade. É nessa época, que a gente ver o auge da devoção pelo Benedito. Famílias inteiras se mobilizando para receber o santo em casa como se fosse uma pessoa, com direito a festa e um grande banquete”, relata a professora, que todos os anos faz questão de receber uma comitiva em casa.


Comitiva de São Benedito das praias (Foto: Adison Ferrera)


As comitivas de esmolação de São Benedito são três grupos de devotos do santo que saem todos os anos entre final de abril e inicio de maio da cidade de Bragança para peregrinarem por toda a região bragantina até o inicio da festividade, em dezembro. É durante o serviço de esmolação, intensificado nos bairros a partir de setembro, que o laço dos devotos com o santo preto passa do campo espiritual para o real. “As pessoas não recebem em casa apenas uma imagem de São Benedito. Elas recebem o próprio santo como se fosse gente. Um ente querido. E isso faz parte do imaginário coletivo, que a cada ano renova a fé dos devotos e prova o quanto essa manifestação está inserida no cotidiano dos bragantinos durante todos os dias do ano”, explica o historiador Dário Benedito. 


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