sábado, 6 de julho de 2013

A cidade natal como inspiração para arte

Morar longe da terra natal nunca foi motivo para o cantor e compositor Junior Soares perder suas referências da cidade de Bragança. Ao contrário. A distância inversamente acabou o aproximando ainda mais do lugar onde viveu toda a infância. “Estar longe de Bragança serviu para aumentar ainda mais o meu amor pela cidade. Pois, quanto mais tempo eu ficava afastado, mais eu sentia necessidade daquele ambiente e isso acabava influenciando no resgate das minhas raízes. E, consequentemente, me inspirava a traduzir essas memórias em canções”, afirma.


Mesmo morando em Belém desde os 16 anos, o compositor garante que a cidade natal sempre foi o seu principal norte de inspiração. E isso se deve especialmente a relação dele com a Marujada de São Benedito. Uma manifestação de louvor e agradecimento ao santo que ocorre há 215 anos em Bragança. “Eu costumo dizer que a chave mestra de inspiração de todas as minhas canções está na Marujada. Eu cresci no meio desse ritual. Como eu morava bem próximo do barracão onde os marujos se reúnem para dançar, o som das rabecas, o ritmo das danças e todo esse clima de devoção sempre estiveram muito presente na minha vida. Tão presentes, ao ponto de serem absorvidos não só pela minha memória, mas também pelo meu DNA”, revela o músico.

músico afirma que Bragança é uma eterna fonte de inspiração (Foto: Elcimar Neves)


Entre o repertório de canções que descrevem o ritual da Marujada, a música “Marujada de São Benedito” feita em parceria com o compositor Edu Filho já é considerado um hino de louvor ao santo em Bragança. Durante o principal dia da festividade de São Benedito no município, o refrão “Vou fazer uma canção em louvor ao santo preto. Canta povo bragantino: bendito, oh! Bendito” é cantado e um só coro por dezenas de marujos e marujas que caminham descalços pelas ruas da cidade levando a imagem do santo em um andor.

Além das canções, o amor do compositor pela cidade também se reflete na preocupação em preservar as raízes da Marujada. Idealizador de um projeto de resgate e preservação da rabeca, feito através do Instituto de Artes do Pará (IAP), em 2003, Junior comemora o fato de ter contribuído para um dos principais instrumentos da manifestação não ficar esquecido com o tempo. “Como a maioria dos tocadores de rabeca da Marujada estavam envelhecendo e não havia renovação de músicos que tocassem o instrumento, a nossa preocupação era que a rabeca pudesse se extinguir da manifestação. Mas com o projeto houve um resgate desse quadro. E hoje, além de vários rabequeiros jovens, há também artesãos na cidade produzindo o instrumento”.

Defensor da cultura popular, o músico afirma que Bragança é uma eterna fonte de inspiração. E se depender da poesia exalada na cidade, ele afirma que nunca vai parar de compor. “Religiosidade, arquitetura, belezas naturais, a cidade tem uma poética tão intensa, que eu não preciso fazer muito esforço para compor. A casa da minha família fica bem em frente ao rio Caeté, só de ficar em casa olhando pela janela eu tenho um universo de inspiração. Se eu olho para o céu eu vejo a lua tentando beijar rio, se eu olho para a rua eu vejo as palmeiras imperiais dançando com a brisa do Caeté. E assim, as canções vão surgindo”, conta o artista bragantino.

O amor pela terra natal também é nítido no traço do cartunista Luciano Meskyta. Natural da comunidade de Caratateua, em Bragança, o desenhista que se autointitula o “Show-Man das Caricaturas”, afirma que sempre fez questão de divulgar a cultura da cidade em seus trabalhos. Criador do Salão Nacional do Humor de Bragança e autor de livros exclusivos de charges e cartuns como “Bragunças e mais Bragunças” e ”Rir para não chorar”, Meskyta traduz em seus desenhos um humor universal a partir de uma particularidade regional, definida por ele como “bragantinidade”.


Meskyta sempre fez questão de divulgar a cultura da cidade em seus trabalhos (Foto: Elcimar Neves)


A bragantinidade é um sentimento de pertencimento e amor pela cidade de Bragança, independente se você é bragantino ou não. Em outras palavras, é a valorização dos costumes locais e da cultura da cidade de uma forma muita intensa. E é isso é visível no meu trabalho, na identidade que eu dou para os desenhos”, explica o cartunista, que já mora a seis na capital do estado.

Com 18 anos de carreira, Meskyta acumula vários trabalhos de projeção nacional. Participante de diversas exposições de cartunistas no Brasil e fora do país, ele sempre levou na bagagem, além de lápis e pranchetas, as inspirações de uma cidade que transcende cultura popular. “Bragança tem traços, cores, cenários e sonoridade muito peculiares e que a gente não encontra em outro lugar. Por isso, ela inspira tanto”, ressalta o artista que também é marujo de São Benedito.


A temática da Marujada é um dos elementos mais presentes nas obras do cartunista (Arquivo pessoal)


Entre os seus trabalhos de maior repercussão estão cartuns postais, mistura de cartão-postal com cartuns, com a temática da Marujada de São Benedito. Nos cartões, cartuns de personagens típicos da cultura bragantina como marujos, padres e devotos do santo interagem com fotos de monumentos e paisagens naturais da cidade. “A ideia é mostrar de forma irreverente as belezas da cidade. Ao mesmo tempo em que se tem uma foto de um cartão postal normal, se tem no mesmo cartão, a imagem de forma bem humorada dos personagens que compõe a cultura de Bragança”, afirma Meskyta.

O sentimento de saudosismo pela cidade onde viveu a infância também é muito presente nas obras do jornalista e escritor bragantino Alfredo Garcia. Em livros como “Memórias do Quintal”, “Aqueles Meninos que Fomos” e “Contos do Amor em Flor”, o escritor, que deixou a terra natal com pouco mais de cinco anos, revela toda a inspiração de uma Bragança preservada pelas lembranças.


O saudosismo da terra onde viveu a infância faz parte das obras do escritor (Foto: Bruno Cecim)


“A minha Bragança literária é a cidade da memória, aquela que eu vi com olhos de menino. As ruas da cidade, as pessoas, o rio, tudo de Bragança me inspira de alguma forma”, conta o escritor, que no próximo dia 19 de julho volta à cidade para lançar o seu mais novo livro. Benquerenças (Poesia & prosa), uma obra inspirada exclusivamente no município com quatro séculos de história. “Benquerenças é para quitar um pouco da minha dívida eterna com a bragantinidade”, ressalta o poeta apaixonado pela terra em que nasceu.




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