terça-feira, 14 de maio de 2013

Com a ajuda de Deus


A espiritualidade como principal meio de combate as drogas


Jailson Vinagre, diretor do Manassés (Foto: Mauro Angelo)
 Desde que começou a fazer tratamento contra a dependência das drogas, há dois anos, em uma casa de apoio a ex-dependentes químicos no distrito de Icoaraci, em Belém, Felipe Bastos, 23, segue uma rotina diária. Passa o dia todo circulando nos coletivos da Grande Belém vendendo materiais de divulgação da entidade e compartilhando sua história de vida. “Esse trabalho é uma forma de recompensar a graça recebida por Deus por ter me retirado do mundo das drogas e ter me feito um novo homem”, afirma o jovem, natural do estado do Ceará.

A primeira experiência dele com as drogas foi aos 16 anos. “Eu comecei por conta de amizades, já que todos os meus amigos mais próximos usavam, eu também queria saber como era. Só que com o tempo eu fui aumentando a quantidade de entorpecentes, e o que era para ser apenas curtição se tornou um vício. Chegando ao ponto de muitas vezes, eu ter que roubar para poder consumir”, revelou.

Apesar de ter consciência que era dependente químico, Felipe acreditava que poderia vencer a luta contra as drogas sem a ajuda de ninguém. Por isso, evitava falar do problema com a família. “Mesmo eu me fechando no meu mundo, a minha família foi percebendo o meu estado de sofrimento. Por mais que eu tentasse esconder, não dava mais. Eu já não tinha mais controle sobre o vício e isso ficou visível para todo mundo”, conta o jovem, que decidiu buscar tratamento contra a doença a partir de uma conversa franca com os pais.

Foi nessa época, ainda em Fortaleza, que ele conheceu a instituição Manassés, uma casa de apoio a ex-dependentes químicos que tem a espiritualidade como principal método de combate ao vício. “Dentro da instituição eu fui perceber que sem Deus eu não sou nada e que sem a oração, como aliada nessa luta, eu jamais conseguiria vencer a minha doença. Por isso que hoje eu me sinto responsável pela casa também, e faço questão de ir para os coletivos para arrecadar dinheiro para a entidade e principalmente compartilhar com os outros a minha experiência vivida aqui”, conta Felipe.
 

A instituição tem a espiritualidade com o principal método de combate ao vício  (Foto: Mauro Angelo)


Foi através desse trabalho de divulgação da entidade dentro dos ônibus que Roberval da Silva Pinheiro, 40 anos, conheceu a instituição e resolveu procurar ajuda. “Eu já tinha procurado outras formas de tratamento contra o meu vício, mas o resultado era sempre o mesmo. Assim que começava a me tratar, tinha recaída e voltava para as drogas. Com isso, aos poucos eu fui perdendo casa, família, emprego e tudo que eu havia conquistado. Mas mesmo assim, resolvi dar ouvido para aqueles jovens que entraram no coletivo em que eu estava e fui atrás da entidade”, revelou o ex-dependente químico que chegou a morar na rua, em João Pessoa, na Paraíba.

Após conseguir auxílio na instituição em João Pessoa, Roberval foi transferido para uma filial em Belém, onde atualmente ajuda cerca de 30 jovens a se livrar do vício das drogas. “Eu costumo dizer que casa nenhuma recupera um dependente químico se ele não quiser. O primeiro passo é dado por ele. O segundo é a entrega espiritual, pois acreditamos que somente com a ajuda da força superior é possível se libertar das drogas definitivamente”, afirma.

"O que a gente faz aqui é mostrar o caminho que leva a Deus, explica o diretor da instituição Manassés (Foto: Mauro Angelo)


Para o diretor da filial do Manassés em Belém, Jailson Vinagre, 34 anos, apesar das diferentes histórias de vida, todos os pacientes que chegam à instituição possuem um perfil em comum. “São pessoas que estão sem direção espiritual e aqui o nosso trabalho é resgatar esse direcionamento e provar que a mudança é possível”, garante o diretor da entidade. Segundo ele, apesar da casa trabalhar de forma intensa no combate ao vício, eles não obrigam nenhum interno a participar das atividades.

“Somos uma instituição livre e por isso o nosso trabalho vem dando certo. A partir do momento que alguém não se sentir bem dentro da casa, ele pode abandonar o tratamento a hora que quiser. Pois não obrigamos ninguém a nada. O que a gente faz aqui é mostrar o caminho que leva a Deus. E somente Ele pode ajudar a gente a sair do mundo do vício. Mas se o paciente não quer, não podemos fazer nada”, explica Jailson.

Segundo o psiquiatra Benedito Paulo Bezerra, apesar de a ciência reconhecer o efeito da espiritualidade no combate ao vício das drogas, esta não pode ser substituída pelas medicações. “A ciência aceita a espiritualidade como uma forma de reforço, mas devido as alterações orgânicas cerebrais, os medicamentos são indispensáveis. Tem-se observado que só a parte espiritual, quando procurada, não tem efeito duradouro permanecendo uma possível melhora durante a prática religiosa, mas que não se mantém após as atividades espirituais”, explica o especialista, que defende que o tratamento espiritual deve ser acompanhado do tratamento médico.

Ex-traficante e usuário de drogas por cerca de 15 anos, Jailson é um defensor da espiritualidade no tratamento contra o vício.  “Aqui nós respeitamos todas as formas de tratamento no combate às drogas, mas acreditamos que o lado espiritual é fundamental nessa batalha. E eu sou um exemplo disso. Pois se não fosse o poder de Deus, eu dificilmente teria sobrevivido ao mal que os entorpecentes causaram na minha vida”, afirma.

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