domingo, 12 de maio de 2013

Só por hoje

A experiência dos Narcóticos Anônimos no combate  às drogas  

 N.A é uma entidade mundial que tem como finalidade ajudar adictos em recuperação (Foto: Mauro Angelo)


A experiência coletiva usada como combate ao uso das drogas foi a única forma que João Paulo (nome fictício), 45 anos, encontrou para se afastar do vício. Desde o primeiro contato com os entorpecentes, aos seis anos de idade, até o dia em que conseguiu parar de usar, foram 26 anos de luta. “Nesse período eu tive altos e baixos, mas nunca conseguia parar. Fui internado em clínica de reabilitação, comecei a usar medicamentos, mas nada disso adiantava. Eu sempre tinha recaída e dizia para mim mesmo que nunca iria conseguir largar o vício”, conta o ex-dependente químico, que encontrou no grupo de Narcóticos Anônimos (N.A), a saída para abandonar o vício  definitivamente.

“A primeira vez que eu ouvi falar no N.A foi através de um amigo que também era viciado. No início, eu não acreditei muito que isso poderia dar certo. Mas mesmo assim, comecei a frequentar. Afinal, eu já não tinha mais o que fazer. Porque todas as vezes que procurava ajuda, sempre acabava voltando para o mundo das drogas”, disse João, que há oito anos participa de reuniões de um grupo de Narcóticos Anônimos em Belém, dividindo sua experiência com centenas de pessoas que circulam pela entidade.

“A primeira coisa que você aprende dentro do grupo é que o uso de droga não é uma deficiência moral e sim uma doença. Quando você passa a aceitar isso e se enxergar como um adicto, ou seja, uma pessoa cuja vida é controlada pelas drogas, você começa a compreender melhor essa luta. E com isso, descobre que a recuperação é possível, sim. E que ela depende de você”, explica Marcio A, coordenador do subcomitê de informação ao público dos Narcóticos Anônimos  da Região Metropolitana de Belém.


Segundo a entidade, atualmente existe 17 grupos de N.A na Grande Belém  (Foto: Mauro Angelo)



Segundo ele, a entidade existe no Pará desde 1985 e atualmente conta com 17 grupos na Grande Belém, onde semanalmente centenas de pessoas se reúnem para compartilhar a luta diária contra o vício. “O  Narcóticos Anônimos é uma entidade mundial que tem como finalidade ajudar adictos em recuperação. Para nós não importa há quanto tempo a pessoa é usuário, que tipo de entorpecentes usou, quais são suas deficiências morais. O objetivo do grupo é um só: ajudar quem quer sair do vício das drogas”, afirma o coordenador do N.A.

Longe do vício há um ano e nove meses, desde que começou a frequentar as reuniões do grupo, Mariana (nome fictício) afirma que a experiência coletiva é o que mais lhe ajuda na abstinência diária das drogas. “Dentro do grupo eu aprendi que cada dia é um dia diferente e que não existe essa história de eu estou curada e ponto final. A adicção é uma doença que ainda não tem cura e por isso é fundamental essa ajuda coletiva vivenciada nas reuniões”, garante a jovem de 27 anos.

Assim como João Paulo, Mariana também afirma que já havia procurado outras formas de combater o vício, mas foi somente nas reuniões de N.A que encontrou resultado. “Apesar de contar com o apoio da minha família, eu me sentia todo tempo desamparada. Já tinha procurado ajuda médica, mas nada dava jeito. Continuava no fundo do poço e não via mais saída para esse mal. Foi só com as reuniões em grupo que eu passei a conhecer de fato os meus limites e saber até onde eu consigo ir”, revelou.



 A adicção é uma doença que ainda não tem cura (Foto: Mauro Angelo)



“A experiência do N.A me fez rever a minha limitação. Depois de 26 anos consumindo drogas diariamente, eu achava que eu não tinha mais jeito e que tratamento nenhum iria me afastar dessa vida. Mas o programa me provou o contrário. E hoje, voltei a ter sentimentos que há muito tempo eu não tinha como dignidade e autoestima”, afirma João Paulo, que atualmente integra o Comitê de Serviço de Área dos Narcóticos Anônimos do Pará.

Para o psiquiatra e professor da Universidade Federal do Pará, Benedito Paulo Bezerra, o sucesso no tratamento dos Narcóticos Anônimos se deve a interação social entre os pacientes ao compartilharem histórias semelhantes em razão de um bem comum. “Esse tipo de tratamento faz com que o paciente encontre apoio amigo. Outro fator positivo é o conhecimento da vida que o companheiro leva com os problemas análogos aos dele, o que faz com que a experiência do outro possa abrir novas perspectivas na reação contra a doença e um novo modo de enfrentá-la”, explica o médico.

“Dentro do grupo costumamos dizer que a melhor maneira do tratamento dar certo é o adicto participar regularmente das nossas reuniões. Quanto mais se compartilha a experiência coletiva maiores são as chances de ser livrar do vício, que é uma luta permanente. Por isso precisamos ser honestos com nós mesmos, termos a mente aberta e principalmente, boa vontade. Princípios fundamentais no caminho da nossa recuperação”, afirma Márcio.


SERVIÇO:
No Pará existem 23 grupos de Narcóticos Anônimos espalhados em diversos municípios. Para saber mais informações sobre o tratamento, você pode ligar para o Comitê de Serviço de Área dos Narcóticos Anônimos do Pará através dos telefones (91) 3283-0800 e 9632-3163.

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