segunda-feira, 25 de março de 2013

A máquina de criar sonhos


Estava na Inglaterra porque precisava concluir o mestrado 

Dentro de uma caixa de papelão com cerca de um metro de altura, o presente mais esperado dos últimos tempos. No meio da sala de um pequeno apartamento no subúrbio de Londres, o improvável que agora se tornava real. Uma máquina de criar sonhos. Exatamente isso. Um aparelho que possibilitaria o direito de qualquer uma pessoa escolher o que sonhar. Era o inicio de uma experiência que nem os cientistas acreditavam que fosse dar certo. Mas ela acreditou e, por isso, estava ali, pronta para ser a primeira cobaia.


Lembrou de todas as provas e entrevistas que fez para conseguir o direito de  ser a primeira mulher a testar o aparelho, que a primeira vista, parecia um liquidificador gigante. Solteira, 26 anos, formada em Ciências Políticas, independente financeiramente, era a voluntaria mais indicada para começar a experimentar a máquina. No inicio, pensou que o fato de ser brasileira iria ser um obstáculo para ser a escolhida, mas depois refletiu direito e chegou à conclusão de que era mais uma estrangeira no país responsável pela invenção. Era melhor para os pesquisadores verem uma latina americana ao invés de uma inglesa se dar mal, no caso de erro nos primeiros experimentos do aparelho.

Mas tudo bem. No fundo, até já tinha se acostumado com a xenofobia dos ingleses. Estava na Inglaterra porque precisava concluir o mestrado. E contava os dias, no caso os longos meses, para voltar ao Brasil. E como o fim de sua estadia em Londres ainda estava longe, o jeito era tentar amenizar a solidão das mais variadas maneiras. Por isso, não pensou duas vezes quando soube que o projeto da máquina de criar sonhos, realizado por uma universidade londrina, estava recrutando voluntários.

Era chegada a hora. Ligou o aparelho conforme recomendações do manual. Colocou uma espécie de capacete que estava preso ao “liquidificador gigante” através de cabos, apagou a luz da sala e se deitou no sofá. Com os olhos fechados, começou a descrever em voz alta como queria ter um sonho. Pensou no ex-namorado, nas cenas de sexo explicito vivenciada em uma praia no interior do Pará, no primeiro porre, no sorvete de açaí preparado pela mãe, na visita emocionante que fez ao museu The Beatles Story, em Liverpool.

“Posso misturar tudo isso, então? Quero sonhar que estou em uma praia no interior do Pará fazendo amor com o meu ex-namorado, lambuzada de sorvete de açaí, ouvindo ‘A Day in the Life’ e com varias taças de tequila ao meu lado”. E o pedido se fez sonho. Com quase duas horas de duração. Ao acordar, com um sorriso de uma ponta ao outro do rosto, levantou, acendeu as luzes e não encontrou mais a máquina futurista, que estava no meio da sala.

Cadê o aparelho? Seria um sonho do sonho? Não, era real. Olhou pela janela, continuava em Londres. Lá fora, os primeiros sinais de uma forte nevasca. A realidade nua, crua e fria. Mas e a máquina, o manual de instruções, o capacete? Nada disso existia. Ao seu lado, em cima de outro sofá, apenas um liquidificador velho e um desejo muito forte de querer escolher com o que sonhar.