quinta-feira, 14 de fevereiro de 2013

Entrevista com a morte

Vinho do Porto



Era uma sexta-feira de carnaval, a poucas horas do fim do expediente, quando ela chegou à redação. Vestida com uma fantasia de Branca de Neve, ela se aproximou de mim, pediu desculpas pelo atraso e disse que toda a demora foi por conta do figurino. “Estava em dúvida se vinha com uma fantasia de um clássico infantil, que costumo usar todos os anos ou se aderia a um figurino da série The Walking Dead. No final, acabei escolhendo o figurino das historias infantis mesmo, já que no fundo eu sou meio conservadora. E para completar, acho essa série tão clichê. Só usaria por conta da moda mesmo”, comentou.

De pele morena e com os olhos castanhos graúdos, a mulher, que aparentava ter entre 35 e 40 anos gesticulava a cada frase. Disse que adora o clima de carnaval e que todo ano faz questão de estar fantasiada durante esse período. “Estar certo que é uma das épocas que eu mais trabalho, mas também eu confesso que é uma dos feriados que eu mais me divirto”, revelou, com um sorriso sarcástico. Agradeci a visita, pedi para ela sentar e falei que a entrevista seria usada para uma edição especial de domingo.

Liguei o gravador, organizei o roteiro com as perguntas e comecei a entrevistá-la. Compenetrada e me fitando nos olhos a cada pergunta, ela respondia a tudo de forma objetiva. “Para quê usar a subjetividade se eu sou real? Eu existo desde que o mundo é mundo. Mas mesmo assim, eu nunca fui compreendida e ninguém nunca conseguiu se acostumar com a minha presença”, afirmou a Morte, que entre uma pergunta e outra, fazia questão de degustar uma garrafa de vinho português que trouxe dentro da bolsa.

“Eu particularmente não gosto de tirar a vida dos jovens. Acho que todo mundo deveria viver muito, sabe, pelo menos uns 60 anos, mas eu tenho que fazer o meu trabalho. Na maioria das vezes, os próprios jovens procuram por mim. Isso não é regra, claro. Existem as tragédias e aí, eu passo a cumprir a minha função apenas por obrigação mesmo. Eu não sou culpada pela morte de ninguém, apenas cumpro ordens do acaso. É ele que manda. Eu apenas sigo as ordens”, contou a mulher de sorriso fácil.

A entrevista segue. Pergunto se ela já pensou em se aposentar e ela diz que sim. “Várias vezes, inclusive. Falei para o acaso que já estou cansada de tudo, que já chegou a minha hora de parar, mas ele insiste para eu ficar. Fazer o quê? Como disse, apenas cumpro ordens”, ressaltou. Antes de eu perguntar sobre seus planos para o futuro, ela pediu licença, atendeu o celular que apenas vibrava e afirmou que precisa se retirar. “Eu estou adorando essa entrevista, mas sabe como é carnaval, não é? Eu não paro um segundo. Recebi uma chamada urgente do acaso e preciso ir. O dever me chama”.

Perguntei se a gente poderia continuar com a conversa outro dia e ela disse que não, afirmou que estar com a agenda lotada e que, pelo menos, nesse década não deve conceder mais nenhuma entrevista. “Eu sou um mulher muito ocupada e consegui conversar comigo é raríssimo. Portanto, fique feliz com esses minutinhos de entrevista. Ah, sim, e caso alguém duvide da nossa conversa eu deixo para você essa garrafa de vinho português, que é a prova dessa entrevista. Até mais seu jornalista”, disse, enquanto saía ás pressas da sala de reunião do jornal.