sábado, 12 de janeiro de 2013

Amador [ parte 4]



A cada palavra, ele aproxima ainda mais o revolver no rosto dela.


“Largue essa arma, presidente. A gente pode conversar melhor sem isso apontado para a minha cara. Por favor, largue essa arma”, implora a jornalista, que devido ao medo, não consegue segurar as lágrimas. “Está com medinho, é? Devia ter pensando nisso quando começou a me chantagear”. A cada palavra, ele aproxima ainda mais o revolver no rosto dela. O tempo pára. Mesmo com medo, ela o encara e pede, quase sussurrando, para ele desistir da ideia. “Vai ser melhor para você. Se cometer esse crime aqui, uma hora ou outra você será descoberto e todo o seu castelo de sonhos será destruído. Esqueça tudo isso que eu prometo que também esqueço, desapareço da empresa e a gente segue como se nada tivesse acontecido”, pede a assessora de comunicação.

O pedido dela é em vão. Três segundos após ela falar, ele aperta o gatilho e a acerta em cheio. Fato consumado. Ele enrola a arma em um lenço vermelho que guardava no bolso de dentro do paletó, coloca o revolver no bolso da calça, acende um cigarro, sai do carro, caminha por cerca de 50 metros e joga a arma dentro de um bueiro. Em seguida, volta para o veículo, liga o rádio em uma emissora evangélica e segue para a casa, ao lado do corpo da jornalista, como se nada tivesse ocorrido.

No caminho para a casa, estaciona o carro próximo de um porto abandonado, as margens da baía do Guajará, desce do veículo, arrasta o corpo da mulher até a beira do rio e a empurra barranco abaixo. “Aprenda uma coisa, repórter investigativa. Agora eu sou o presidente de uma das maiores empresas de mineração do Brasil e ninguém vai destruir essa conquista, ouviu. Ninguém”, declara, enquanto acompanha o corpo sendo levado pela correnteza das águas.

O telefone toca. Do outro lado da linha, a voz do ex-presidente da empresa de mineração. “A festa já acabou. Agora, finalmente podemos ter uma comemoração a sóis”. Amador sorri, entra no carro e diz que já está indo para a casa. “Tive um pequeno problema, mas já estou indo para o prédio, você me espera na garagem. E pode ficar tranquilo que a segunda parte da festa vai ser melhor. Afinal está na hora de retribuir o presente do novo cargo”.

“Um presente merecido, Amador. Tenho certeza que você vai ser um excelente gestor. A única coisa que peço é a discrição de sempre e claro, nada mais de programas com mulheres, viu. Eu já ti tirei dessa dupla jornada. Agora o seu único e exclusivo cliente sou eu”, afirma o ex-presidente. “É isso, aí. Tudo que eu posso desejar para a gente então é uma foda presidencial”.