segunda-feira, 9 de dezembro de 2013

Ladainha

Basílica de Nossa Senhora de Nazaré -  Belém-PA


Era a terceira missa que participava em menos de 12 horas. Apesar dos olhos estarem fixo no altar, seu pensamento voava bem longe. Não aceitava o fim do casamento de oito anos. Precisava pedir ajuda de Deus e todos os santos para reatar o relacionamento perdido. É possível sim continuar com esse amor, eu acredito. Dizia, repetindo a frase de cinco em cinco minutos. 

Em nome do Pai, do Filho e do Espirito. O padre anuncia a benção final da celebração, mas ela nem pensa em sair dali. Vai continuar na igreja o tempo que for. Enquanto o ex-marido não reatar o casamento, ela continua ali."Já fiz a promessa e não posso voltar atrás. Só saio da igreja quando tiver unida novamente com o meu marido". Eu acredito.

A catedral inicia a quarta celebração do dia. E ela continua firme, sentada no primeiro banco do templo, com o olhar fixado no altar. Já são 15 horas dentro da igreja, com um terço na mão e a frase na cabeça, repetida a cada cinco minutos. "Tudo bem que ele não era flor que se cheire. Adorava um rabo de saia, mas mesmo assim. Tenho fé que ele pode mudar". É possível sim continuar com esse amor. 

A missa chega ao final e o sacerdote avisa que o santuário vai fechar em no máximo meia hora. Ela parece não ouvi o recado e insiste em continuar ali, mesmo com o barulho das portas sendo trancadas pelos coroinhas. "Senhora, a igreja precisa fechar. Pedimos a sua colaboração", informa um coroinha, segurando as chaves da igreja. Mas ela continua ignorado toda a movimentação em sua volta. "Não insista, rapaz. Eu já prometi para Deus. Só saio dessa igreja quando o meu marido reatar o casamento", declara a mulher.

O padre responsável pela basílica é chamado para tentar resolver a situação. Mas, nada é resolvido. A mulher afirma que vai passar a madrugada toda na igreja e só vai sair quando o ex-marido voltar. "Mas faz tempo que vocês terminaram o casamento. O que houve de fato, minha senhora?", pergunta o padre. Ele morreu, padre. Responde a mulher, sem pestanejar. Mas eu tenho fé que ele vai superar isso, vai ressuscitar e vem aqui nessa igreja me buscar para a gente jantar em casa. Eu acredito.




sábado, 28 de setembro de 2013

A batalha dos Gatos Pingados

Movimento grevista durou uma semana (Foto: Tarso Sarraf)


Foi a semana mais longa da minha vida. A voz rouca, o cansaço, os pés ainda doloridos, os dois quilos a menos, são resultados direto desses sete dias que deixamos de cobrir as notícias para nos tornar notícias. Abandonamos o medo e a zona de conforto para construir a nossa própria história. Uma história escrita com mérito plural, diga-se de passagem. Somos todos vencedores.

Na primeira reunião na casa do Elias, realizada a cerca de duas semanas antes da greve, o brilho nos olhos de cada um já anunciava. A gente queria mais. Queria dar um basta na opressão vivida diariamente no jornal de um milhão de leitores. Queria provar que assim como nos relatos bíblicos, poderíamos sim vencer um gigante. Encarar o desafio, ir para a luta, ocupar as ruas, exigir os nossos direitos.


Jornalistas do Diário do Pará e Dol em greve (Foto: Tarso Sarraf)



Éramos todos Leonardo Fernandes. Éramos todos Rafaela Colin. Éramos muito mais que “meia dúzia de gatos pingados”, como ironizou o diretor comercial do Diário do Pará, nas redes sociais, horas antes de a greve ser deflagrada.  Aliás, o comentário do diretor foi um grande exemplo da máxima que o feitiço pode virar contra o feiticeiro. E virou. A ironia do pobre homem se tornou o hino do nosso movimento. “Nós gatos já nascemos pobres. Porém, já nascemos livres...”.

Fechamos rua, brincamos de ciranda, choramos, gritamos aos quatro cantos do mundo que queríamos respeito. Erramos, aprendemos uns com os outros, fizemos da rua uma grande sala de aula, declamamos poesias. Mostramos que é possível sim fazer um novo jornalismo. Provamos que os nossos sonhos ainda não morreram. Ainda não vencemos a guerra, isso é verdade. Mas  quem se atreve a dizer que não ganhamos essa batalha?


Ciranda dos gatos pingados (Foto: Tarso Sarraf)


Obtivemos 50% de aumento em seis meses, ganhamos estabilidade, conseguimos equipamentos de segurança para equipes que cobrem a editoria de policia e, principalmente, não abaixamos a cabeça para o patrão. Ainda falta muita coisa para ser conquistada, claro. Mas isso é apenas o início, apenas a primeira batalha dos gatos pingados. Ou como diria o poeta e jornalista de formação Renato Russo, “Temos muito ainda por fazer /Não olhe pra trás / Apenas começamos”.

terça-feira, 13 de agosto de 2013

Deadline



Ainda não era nem seis e meia da manhã quando ele abriu os olhos, levantou da cama, ligou a luz e percebeu um cheiro forte de café com maconha vindo da direção da cozinha. O pau ainda duro era sinal de que a noite tinha sido intensa. Foi ao banheiro, levantou a tampa do vaso, mijou, lavou o rosto e seguiu para o outro cômodo do pequeno apartamento. Na cozinha, ela, ainda nua, coava o café, sussurrando uma música dos “Beatles”, quando foi interrompida por ele. O que aconteceu? “A história é um pouco longa. Mas posso dizer que tudo começou com um debate sobre política”, disse ela. 


Ele sorriu. Lembrou do inicio da discussão, ainda no trabalho. Ela falando que odiava partidos de esquerda e ele a chamando de burguesinha alienada. Tudo por conta de uma pauta sobre a política cultural do Pará. Como não havia mais ninguém da editoria de cidades disponível para cobrir uma manifestação de artistas locais contra o governo, ela foi chamada para fazer a matéria. Foi ao local indicado mesmo contra sua vontade, ouviu várias pessoas, voltou para a redação e na hora de entregar o texto ao editor, disse que tinha gostado do evento. Era a primeira vez que fazia uma reportagem fora da editoria de esporte. Na verdade, só não gostou das bandeiras vermelhas dos partidos durante a manifestação.


“Mas o ativismo dos partidos de esquerda é fundamental nesses eventos”, afirmou ele, que durante a juventude foi militante de movimento popular. O debate foi longo. Ela dizendo que o socialismo era uma utopia. Ele afirmando que utopia é achar que existe progresso no capitalismo. A discussão só terminou quando ela disse que Leonardo Boff era o único teórico de esquerda que ela respeitava. Os ânimos se acalmaram. Ele confessou que sonha em fazer um documentário sobre o teólogo. E inclusive, já tem o roteiro do filme guardado em casa.

“E foi assim. Eu vim até a sua casa para ver o roteiro do documentário sobre o Leonardo Boff. A gente conversou até tarde, de maneira bastante civilizada, claro. E durante esse tempo, bebemos cerveja, falamos mal do jornal, fumamos um baseado que você guardava há semanas na geladeira e por fim, acabamos na cama”, revelou a repórter, com um largo sorriso no rosto. O cheiro de café com maconha ainda exalava por toda a cozinha.

“Você é maluca, sabia? Eu tenho idade para ser o teu pai. Estou recém separado de um casamento de 12 anos, não sou um homem ideal para uma jovem tão linda como...”. Ele foi interrompido com um beijo aromatizado de café. Ela disse que não ligava para diferença de idade e nenhum outro tipo de convenção social. Os dois se abraçaram, assistiram a reportagem feita por ela sobre a manifestação dos artistas locais, exibida na primeira edição do telejornal, tomaram café, fumaram novamente o mesmo cigarro de maconha que tinha sido apagado na noite anterior, trocaram caricias e fuderam em cima da mesa de jantar pela segunda vez. 


segunda-feira, 29 de julho de 2013

O homem que amava demais

Buenos Aires (Foto: Google imagens)

A viagem de Belém para Buenos Aires ainda não estava nem na metade e ele já havia pedido três pessoas diferentes em casamento. Para todas elas, o discurso era o mesmo. Eu amo você, casa comigo? Tinha convicção que a pergunta era feita com a alma. Não conseguia fingir sobre seus sentimentos. Não se contentava com uma noite apenas. Queria mais, queria dividir a mesma casa, formar família, ser um só corpo. Homem ou mulher, tanto faz. Dentro dele, o amor não escolhia gênero. Ele queria apenas ser correspondido.

Amava demais. Se apaixonava fácil. Planejava uma vida inteira a dois, com roteiros de viagens paradisíacas, sempre que era atraído por alguém. E não importava o local. Já pediu inúmeras pessoas em casamentos nos mais estranhos lugares que se pode imaginar. Elevador, cemitério, farmácia, banheiro de supermercado, consultório dentário, não havia um limite. No local em que ele se interessasse por alguém, lá mesmo ele pedia em casamento e fazia juras eternas de amor.

Sabia que esse comportamento era prejudicial. Mas não tinha controle sobre os seus desejos. Amava demais. Procurou ajuda psiquiátrica, mas não deu certo. Acabou se apaixonando pelo analista e realizou um pedido de casamento ali mesmo no consultório, com a participação de um grupo de violonistas tocando músicas do Chico Buarque.

Aos 35 anos, já acumulava três casamentos. E apesar dos relacionamentos não terem dado certo, sabia que todos foram eternos enquanto duraram. Amava demais. Nunca enganou nenhum companheiro ou companheira que esteve com ele. Se o amor acabasse, ele sempre fazia questão de esclarecer ao outro. Era chegada a hora de encarar um novo romance. Sem amor, não existe motivo nenhum para continuar o casamento. Dizia ele, sempre que terminava um relacionamento.


Não conseguia amar uma pessoa apenas. Essa era sua sina. Queria controlar seus desejos, queria que tudo fosse bem mais fácil. Mas não conseguia. Era refém de um sentimento maior. Ao desembarcar no aeroporto de Buenos Aires, foi atraído pelo olhar de uma taxista que o cumprimentou e antes de perguntar qual o destino do recém-chegado, foi interrompida pela frase ¿Quieres casarte conmigo?

segunda-feira, 8 de julho de 2013

Todo dia é dia de São Benedito

Nome de estádio de futebol, inspiração para arte, igreja, mirante a beira do principal rio da cidade, estátua às margens da rodovia PA-242. A devoção por São Benedito é nítida nos quatros cantos do município de Bragança, nordeste do Pará. “Apesar do ápice da devoção por São Benedito ocorrer no mês de dezembro, mais especificamente durante o período da festividade do santo, a consagração pelo padroeiro da cidade acontece durante 365 dias do ano. E está presente em cada parte do município”, afirma o historiador Dário Benedito Rodrigues, bragantino e pesquisador da Festividade de São Benedito.

Segundo ele, o santo é uma espécie de estandarte da cidade. E traduz, através das mais diferentes manifestações culturais, o cotidiano de um município com 400 anos de história. “Seja na arquitetura, nas composições musicais, nas artes plásticas, em testemunhos de graças recebidas ou até mesmo nos inúmeros registros de nascimentos da cidade, a devoção pelo santo preto faz parte da essência do bragantino. É um costume comum. Não podemos falar em Bragança sem falar na identificação dos moradores com São Benedito”, ressalta o pesquisador, que como muitos moradores da cidade, também possui no nome de batismo a homenagem ao santo.



Mirante de São Benedito (Foto: Alex Ribeiro)


“Assim como em Belém tem muita gente chamada Maria de Nazaré por conta da devoção a Nossa Senhora de Nazaré, em Bragança ocorre a mesma coisa. Mas aqui, o homenageado é o santinho preto”, explica a dona de casa Benedita Cruz, 40 anos, devota do santo e maruja há mais de duas décadas. “Eu costumo dizer que a minha devoção por São Benedito acontece desde quando eu estava na barriga da minha da mãe, pois como ela tinha muita dificuldade em engravidar, ela e o meu pai fizeram uma promessa ao santo. Disseram que se ocorresse tudo bem na gravidez e eu nascesse com saúde, o meu nome seria o mesmo do santo. E não deu outra. Eu nasci, conforme o planejamento deles, e na mesma hora fui registrada como o nome do santinho”, revelou Benedita.

A identificação da cidade com o santo começou no final do século 18, a partir de uma Irmandade religiosa fundada por escravos. De lá para cá, as manifestações de louvor a São Benedito foram crescendo e se tornando cada vez mais presente no cotidiano dos moradores de Bragança. “A devoção pelo santo nasceu através de uma classe oprimida, e ainda hoje está presente nessa origem. Por isso houve uma identificação tão forte com os moradores. São Benedito é um santo do povo, que representa os anseios do povo e por isso ele se tornou tão popular”, esclarece o historiador.


Zélia revela que a devoção pelo santo sempre fez parte de sua vida (Foto: Clemente Schwartz)


Apesar de não ter o nome do santo no documento de identificação, a artesã Zélia Clemente revela que a devoção pelo padroeiro de Bragança sempre esteve presente em sua vida. “Assim como muitos bragantinos, eu também tenho uma história de promessa com o santo. Quando era eu criança, eu tinha muita dificuldade em me locomover e praticamente não conseguia andar. Por isso, minha mãe fez uma promessa ao santinho e disse que se eu voltasse a andar, eu iria sair todos os anos de maruja. E graças a Deus e a São Benedito, a promessa dela foi atendida e desde então, todos os anos eu saio de maruja. Coloco brinco, colar, pulseira, chapéu e caminho com a roupa que eu mesmo faço”, conta emocionada.

Maruja há 30 anos, a artesã também traduz a identificação com o santo através da arte. Ela é uma das dezenas de artistas que durante os finais de semana trabalha em uma feirinha próximo a orla da cidade vendendo artesanatos com a temática da Marujada de São Benedito. Um ritual de dança, louvor e devoção ao santo padroeiro dos escravos, que ocorre no município desde o ano de 1798 e se apresenta com uma das maiores manifestações culturais de resistência na Amazônia.

Na casa de Zélia, a devoção pelo santo já atravessa gerações. Além dela, filha e neta também saem em cortejo, religiosamente, todo o dia 26 de dezembro, vestidas a caráter com saia vermelha, blusa branca rendada e chapéu coberto por plumagem e enfeitado por longas fitas coloridas na parte de trás. “O dia de São Benedito também é dia de louvar o santo através da dança da marujada e agradecer por mais um ano de graças recebidas”, declara a artesã. 

Marujada de São Benedito em traje oficial (Foto: Tarso Sarraf)


Maruja de São Benedito há dez anos, a professora Socorro Souza só sai de casa após segui um ritual. Fazer uma oração e beijar uma fita vermelha amarrada na imagem do santo, guardada dentro de um oratório de madeira. “É uma forma de respeito à memória do santo”, justifica. Para ela, a tradição ao padroeiro de Bragança só permanece viva porque se renova a cada ano. “Principalmente durante o período em que as comitivas de esmolação que levam o santo de casa em casa peregrina pelas ruas da cidade. É nessa época, que a gente ver o auge da devoção pelo Benedito. Famílias inteiras se mobilizando para receber o santo em casa como se fosse uma pessoa, com direito a festa e um grande banquete”, relata a professora, que todos os anos faz questão de receber uma comitiva em casa.


Comitiva de São Benedito das praias (Foto: Adison Ferrera)


As comitivas de esmolação de São Benedito são três grupos de devotos do santo que saem todos os anos entre final de abril e inicio de maio da cidade de Bragança para peregrinarem por toda a região bragantina até o inicio da festividade, em dezembro. É durante o serviço de esmolação, intensificado nos bairros a partir de setembro, que o laço dos devotos com o santo preto passa do campo espiritual para o real. “As pessoas não recebem em casa apenas uma imagem de São Benedito. Elas recebem o próprio santo como se fosse gente. Um ente querido. E isso faz parte do imaginário coletivo, que a cada ano renova a fé dos devotos e prova o quanto essa manifestação está inserida no cotidiano dos bragantinos durante todos os dias do ano”, explica o historiador Dário Benedito. 


sábado, 6 de julho de 2013

A cidade natal como inspiração para arte

Morar longe da terra natal nunca foi motivo para o cantor e compositor Junior Soares perder suas referências da cidade de Bragança. Ao contrário. A distância inversamente acabou o aproximando ainda mais do lugar onde viveu toda a infância. “Estar longe de Bragança serviu para aumentar ainda mais o meu amor pela cidade. Pois, quanto mais tempo eu ficava afastado, mais eu sentia necessidade daquele ambiente e isso acabava influenciando no resgate das minhas raízes. E, consequentemente, me inspirava a traduzir essas memórias em canções”, afirma.


Mesmo morando em Belém desde os 16 anos, o compositor garante que a cidade natal sempre foi o seu principal norte de inspiração. E isso se deve especialmente a relação dele com a Marujada de São Benedito. Uma manifestação de louvor e agradecimento ao santo que ocorre há 215 anos em Bragança. “Eu costumo dizer que a chave mestra de inspiração de todas as minhas canções está na Marujada. Eu cresci no meio desse ritual. Como eu morava bem próximo do barracão onde os marujos se reúnem para dançar, o som das rabecas, o ritmo das danças e todo esse clima de devoção sempre estiveram muito presente na minha vida. Tão presentes, ao ponto de serem absorvidos não só pela minha memória, mas também pelo meu DNA”, revela o músico.

músico afirma que Bragança é uma eterna fonte de inspiração (Foto: Elcimar Neves)


Entre o repertório de canções que descrevem o ritual da Marujada, a música “Marujada de São Benedito” feita em parceria com o compositor Edu Filho já é considerado um hino de louvor ao santo em Bragança. Durante o principal dia da festividade de São Benedito no município, o refrão “Vou fazer uma canção em louvor ao santo preto. Canta povo bragantino: bendito, oh! Bendito” é cantado e um só coro por dezenas de marujos e marujas que caminham descalços pelas ruas da cidade levando a imagem do santo em um andor.

Além das canções, o amor do compositor pela cidade também se reflete na preocupação em preservar as raízes da Marujada. Idealizador de um projeto de resgate e preservação da rabeca, feito através do Instituto de Artes do Pará (IAP), em 2003, Junior comemora o fato de ter contribuído para um dos principais instrumentos da manifestação não ficar esquecido com o tempo. “Como a maioria dos tocadores de rabeca da Marujada estavam envelhecendo e não havia renovação de músicos que tocassem o instrumento, a nossa preocupação era que a rabeca pudesse se extinguir da manifestação. Mas com o projeto houve um resgate desse quadro. E hoje, além de vários rabequeiros jovens, há também artesãos na cidade produzindo o instrumento”.

Defensor da cultura popular, o músico afirma que Bragança é uma eterna fonte de inspiração. E se depender da poesia exalada na cidade, ele afirma que nunca vai parar de compor. “Religiosidade, arquitetura, belezas naturais, a cidade tem uma poética tão intensa, que eu não preciso fazer muito esforço para compor. A casa da minha família fica bem em frente ao rio Caeté, só de ficar em casa olhando pela janela eu tenho um universo de inspiração. Se eu olho para o céu eu vejo a lua tentando beijar rio, se eu olho para a rua eu vejo as palmeiras imperiais dançando com a brisa do Caeté. E assim, as canções vão surgindo”, conta o artista bragantino.

O amor pela terra natal também é nítido no traço do cartunista Luciano Meskyta. Natural da comunidade de Caratateua, em Bragança, o desenhista que se autointitula o “Show-Man das Caricaturas”, afirma que sempre fez questão de divulgar a cultura da cidade em seus trabalhos. Criador do Salão Nacional do Humor de Bragança e autor de livros exclusivos de charges e cartuns como “Bragunças e mais Bragunças” e ”Rir para não chorar”, Meskyta traduz em seus desenhos um humor universal a partir de uma particularidade regional, definida por ele como “bragantinidade”.


Meskyta sempre fez questão de divulgar a cultura da cidade em seus trabalhos (Foto: Elcimar Neves)


A bragantinidade é um sentimento de pertencimento e amor pela cidade de Bragança, independente se você é bragantino ou não. Em outras palavras, é a valorização dos costumes locais e da cultura da cidade de uma forma muita intensa. E é isso é visível no meu trabalho, na identidade que eu dou para os desenhos”, explica o cartunista, que já mora a seis na capital do estado.

Com 18 anos de carreira, Meskyta acumula vários trabalhos de projeção nacional. Participante de diversas exposições de cartunistas no Brasil e fora do país, ele sempre levou na bagagem, além de lápis e pranchetas, as inspirações de uma cidade que transcende cultura popular. “Bragança tem traços, cores, cenários e sonoridade muito peculiares e que a gente não encontra em outro lugar. Por isso, ela inspira tanto”, ressalta o artista que também é marujo de São Benedito.


A temática da Marujada é um dos elementos mais presentes nas obras do cartunista (Arquivo pessoal)


Entre os seus trabalhos de maior repercussão estão cartuns postais, mistura de cartão-postal com cartuns, com a temática da Marujada de São Benedito. Nos cartões, cartuns de personagens típicos da cultura bragantina como marujos, padres e devotos do santo interagem com fotos de monumentos e paisagens naturais da cidade. “A ideia é mostrar de forma irreverente as belezas da cidade. Ao mesmo tempo em que se tem uma foto de um cartão postal normal, se tem no mesmo cartão, a imagem de forma bem humorada dos personagens que compõe a cultura de Bragança”, afirma Meskyta.

O sentimento de saudosismo pela cidade onde viveu a infância também é muito presente nas obras do jornalista e escritor bragantino Alfredo Garcia. Em livros como “Memórias do Quintal”, “Aqueles Meninos que Fomos” e “Contos do Amor em Flor”, o escritor, que deixou a terra natal com pouco mais de cinco anos, revela toda a inspiração de uma Bragança preservada pelas lembranças.


O saudosismo da terra onde viveu a infância faz parte das obras do escritor (Foto: Bruno Cecim)


“A minha Bragança literária é a cidade da memória, aquela que eu vi com olhos de menino. As ruas da cidade, as pessoas, o rio, tudo de Bragança me inspira de alguma forma”, conta o escritor, que no próximo dia 19 de julho volta à cidade para lançar o seu mais novo livro. Benquerenças (Poesia & prosa), uma obra inspirada exclusivamente no município com quatro séculos de história. “Benquerenças é para quitar um pouco da minha dívida eterna com a bragantinidade”, ressalta o poeta apaixonado pela terra em que nasceu.




quinta-feira, 16 de maio de 2013

Do Outro Lado da Guerra


O trabalho de ex-dependentes químicos na luta de combate às drogas 

Projetos de recuperação liderados por ex-adictos vem aumentando em Belém (Foto: Mauro Angelo) 


Desde que terminou o tratamento contra a dependência das drogas, em uma clínica de recuperação em Belém, o ex-dependente químico André Barbosa, 31, começou a construir um sonho. Criar junto com amigos, um centro de recuperação voltado exclusivamente para mulheres. “A nossa ideia era criar um espaço onde o foco fosse o tratamento de mulheres com dependência química, já que centros de recuperação específicos para elas ainda é muito raro em Belém”, afirma André.

Com ajuda de amigos, aos poucos a ideia foi saindo do papel e o sonho se tornou real. Hoje, com oito meses de existência, a entidade, que funciona em uma casa alugada no bairro do Tapanã, em Belém, atende a 10 mulheres. E cerca de 80 pacientes já foram beneficiadas pelo centro. “É um trabalho que só funciona porque conta com ajuda de muita gente. Não é fácil e nem barato manter essa casa funcionando, mas com ajuda de amigos, principalmente daqueles que como eu, já passaram pelo mundo das drogas e hoje graças a Deus estão livres desse mal, nós vamos levando. E fazendo desse centro, uma referência no tratamento de mulheres com dependência química”, explica o idealizador e coordenador do centro de recuperação feminino Peniel.

Centro de recuperação que funciona  em uma casa alugada no bairro do Tapanã, em Belém, já ajudou cerca de 80 mulheres (Foto: Mauro Angelo)


Com a mesma vontade de André, a ex-dependente química Joana (nome fictício), que já passou por tratamento na entidade, também ajuda no trabalho de divulgação do centro e atualmente compartilha  com as internas a experiência dos 20 anos que viveu sob o domínio das drogas. “Nós que já vivemos na pele o sofrimento de ser usuário precisamos ajudar,  de alguma maneira, quem está sofrendo com esse mal. Pois se nós conseguimos nos livrar do mundo das drogas, essas pessoas também podem. Por isso eu faço questão de ajudar e continuar visitando o centro, pois se eu me recuperei foi porque alguém me estendeu a mão. E agora que eu estou limpa, eu preciso fazer o mesmo que fizeram por mim”, declara Joana.


"Eu preciso fazer o mesmo que fizeram, por mim", afirma a ex-dependente química (Foto: Mauro Angelo)



Também é através do compartilhamento que experiências que a estudante universitária Adriana (nome fictício), 26 anos, participa de palestras em escolas publicas da Região Metropolitana de Belém, levando a mensagem de combate às drogas. “Nós que já passamos por isso, estivemos no fundo do poço e sentimos na pele o quanto a droga é destrutiva, somos a prova de que entorpecente nenhum vale a pena. E é essa mensagem que nós levamos para os estudantes: não entre nessa. Ouça a voz de quem, infelizmente, já esteve do outro lado e não deseja isso nem ao pior inimigo”, garante a jovem, que participa de uma ONG nacional que luta contra o uso de entorpecentes.

“Nós sabemos que o nosso trabalho é o mínimo, mas esse mínimo tem ajudado muito. A cada pessoa que sai recuperada da nossa instituição e volta para nos ajudar, seja através de uma doação, do compartilhar seu testemunho ou de propagar o nosso trabalho, isso já é uma semente que deu certo”, ressalta André, que com um largo sorriso no rosto, revela que já pensa em ampliar o número de vagas no centro Peniel. Mesmo com todas as dificuldades, ele não desiste do sonho e diz que são os resultados positivos do projeto que o impulsiona a continua cada vez mais. 


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terça-feira, 14 de maio de 2013

Com a ajuda de Deus


A espiritualidade como principal meio de combate as drogas


Jailson Vinagre, diretor do Manassés (Foto: Mauro Angelo)
 Desde que começou a fazer tratamento contra a dependência das drogas, há dois anos, em uma casa de apoio a ex-dependentes químicos no distrito de Icoaraci, em Belém, Felipe Bastos, 23, segue uma rotina diária. Passa o dia todo circulando nos coletivos da Grande Belém vendendo materiais de divulgação da entidade e compartilhando sua história de vida. “Esse trabalho é uma forma de recompensar a graça recebida por Deus por ter me retirado do mundo das drogas e ter me feito um novo homem”, afirma o jovem, natural do estado do Ceará.

A primeira experiência dele com as drogas foi aos 16 anos. “Eu comecei por conta de amizades, já que todos os meus amigos mais próximos usavam, eu também queria saber como era. Só que com o tempo eu fui aumentando a quantidade de entorpecentes, e o que era para ser apenas curtição se tornou um vício. Chegando ao ponto de muitas vezes, eu ter que roubar para poder consumir”, revelou.

Apesar de ter consciência que era dependente químico, Felipe acreditava que poderia vencer a luta contra as drogas sem a ajuda de ninguém. Por isso, evitava falar do problema com a família. “Mesmo eu me fechando no meu mundo, a minha família foi percebendo o meu estado de sofrimento. Por mais que eu tentasse esconder, não dava mais. Eu já não tinha mais controle sobre o vício e isso ficou visível para todo mundo”, conta o jovem, que decidiu buscar tratamento contra a doença a partir de uma conversa franca com os pais.

Foi nessa época, ainda em Fortaleza, que ele conheceu a instituição Manassés, uma casa de apoio a ex-dependentes químicos que tem a espiritualidade como principal método de combate ao vício. “Dentro da instituição eu fui perceber que sem Deus eu não sou nada e que sem a oração, como aliada nessa luta, eu jamais conseguiria vencer a minha doença. Por isso que hoje eu me sinto responsável pela casa também, e faço questão de ir para os coletivos para arrecadar dinheiro para a entidade e principalmente compartilhar com os outros a minha experiência vivida aqui”, conta Felipe.
 

A instituição tem a espiritualidade com o principal método de combate ao vício  (Foto: Mauro Angelo)


Foi através desse trabalho de divulgação da entidade dentro dos ônibus que Roberval da Silva Pinheiro, 40 anos, conheceu a instituição e resolveu procurar ajuda. “Eu já tinha procurado outras formas de tratamento contra o meu vício, mas o resultado era sempre o mesmo. Assim que começava a me tratar, tinha recaída e voltava para as drogas. Com isso, aos poucos eu fui perdendo casa, família, emprego e tudo que eu havia conquistado. Mas mesmo assim, resolvi dar ouvido para aqueles jovens que entraram no coletivo em que eu estava e fui atrás da entidade”, revelou o ex-dependente químico que chegou a morar na rua, em João Pessoa, na Paraíba.

Após conseguir auxílio na instituição em João Pessoa, Roberval foi transferido para uma filial em Belém, onde atualmente ajuda cerca de 30 jovens a se livrar do vício das drogas. “Eu costumo dizer que casa nenhuma recupera um dependente químico se ele não quiser. O primeiro passo é dado por ele. O segundo é a entrega espiritual, pois acreditamos que somente com a ajuda da força superior é possível se libertar das drogas definitivamente”, afirma.

"O que a gente faz aqui é mostrar o caminho que leva a Deus, explica o diretor da instituição Manassés (Foto: Mauro Angelo)


Para o diretor da filial do Manassés em Belém, Jailson Vinagre, 34 anos, apesar das diferentes histórias de vida, todos os pacientes que chegam à instituição possuem um perfil em comum. “São pessoas que estão sem direção espiritual e aqui o nosso trabalho é resgatar esse direcionamento e provar que a mudança é possível”, garante o diretor da entidade. Segundo ele, apesar da casa trabalhar de forma intensa no combate ao vício, eles não obrigam nenhum interno a participar das atividades.

“Somos uma instituição livre e por isso o nosso trabalho vem dando certo. A partir do momento que alguém não se sentir bem dentro da casa, ele pode abandonar o tratamento a hora que quiser. Pois não obrigamos ninguém a nada. O que a gente faz aqui é mostrar o caminho que leva a Deus. E somente Ele pode ajudar a gente a sair do mundo do vício. Mas se o paciente não quer, não podemos fazer nada”, explica Jailson.

Segundo o psiquiatra Benedito Paulo Bezerra, apesar de a ciência reconhecer o efeito da espiritualidade no combate ao vício das drogas, esta não pode ser substituída pelas medicações. “A ciência aceita a espiritualidade como uma forma de reforço, mas devido as alterações orgânicas cerebrais, os medicamentos são indispensáveis. Tem-se observado que só a parte espiritual, quando procurada, não tem efeito duradouro permanecendo uma possível melhora durante a prática religiosa, mas que não se mantém após as atividades espirituais”, explica o especialista, que defende que o tratamento espiritual deve ser acompanhado do tratamento médico.

Ex-traficante e usuário de drogas por cerca de 15 anos, Jailson é um defensor da espiritualidade no tratamento contra o vício.  “Aqui nós respeitamos todas as formas de tratamento no combate às drogas, mas acreditamos que o lado espiritual é fundamental nessa batalha. E eu sou um exemplo disso. Pois se não fosse o poder de Deus, eu dificilmente teria sobrevivido ao mal que os entorpecentes causaram na minha vida”, afirma.