domingo, 2 de dezembro de 2012

Amador [parte 1]

Luis Henrique Amador

Abriu os olhos, se espreguiçou e ainda deitado acendeu luz do quarto.  Ao seu lado, na cama, uma mulher que ele não lembra o nome. Era a terceira da noite. O telefone toca. Do outro da linha a voz de sua noiva dizendo que finalmente encontrou o vestido do casamento. “Pena que você ainda não pode ver, mas é lindo. Era o vestido com que eu havia sonhado, amor”. Por mais que se esforce, ele não consegue expressar nenhuma palavra e apenas ouve a noiva, que não para de falar. “Amor? Aconteceu alguma coisa? Porque você não diz nada? Também está ansioso para o casamento?”. Desliga o telefone e dá o silêncio como resposta.


Levanta, vai ao banheiro, ergue a tampa do vaso sanitário e antes de urinar, resolve encarar o espelho. A sua frente, um homem barbudo, magro, com olheiras, cabelos grisalhos e com o nariz sujo de pó branco. “Merda, ainda continuo usando essas porcarias”, disse, enquanto limpava do rosto as marcas deixadas pela cocaína que havia cheirado na noite anterior.


Voltou para a cama, acordou a mulher que dormia ao seu lado e disse que o programa havia acabado. “São nove horas da manhã. O combinado era a gente ficar até as três”, falou, de maneira ríspida. “Vamos ficar mais um pouquinho na cama, eu pago o quanto você quiser”, alegou a mulher. Ele pediu para ela não insisti e afirmou que era o último dia em que fazia sexo apenas por dinheiro.


“Eu não quero mais essa vida pra mim. Acabei de completar 40 anos, já deu o que tinha que dar. Não quero mais vender meu corpo, não quero mais me matar usando droga. Acabou. Vou casar daqui a duas semanas e preciso ser um novo homem”, afirmou, enquanto devolvia o dinheiro do programa para a mulher.


“Não precisa devolver nada. Esse dinheiro é seu. Fez por merecer”. Ele insistiu, disse que nunca precisou se prostituir para sobreviver e garantiu que vendia o corpo apenas para alimentar uma fantasia. “Eu tenho um bom emprego e nunca precisei dessa mixaria para viver. Fazer programa é apenas uma diversão, que eu curti muito enquanto durou. Mas, já não quero mais isso para a minha vida. Aceite o dinheiro de volta. Isso é uma forma simbólica para eu poder me livrar definitivamente desse vício”, declarou.

Ela aceita a devolução e vai embora com raiva, sem se despedir dele. O telefone toca novamente. Do outro lado da linha, a voz de sua secretaria informando que está tudo pronto para a posse. Hoje é o dia em que ele vai assumir a presidência de uma das maiores empresas de mineração do Brasil. Precisa fazer a barba, precisa se livrar das olheiras, precisa abandonar definitivamente a prostituição.


Continua no próximo capítulo

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