terça-feira, 11 de dezembro de 2012

Amador [parte 3]

o velocímetro já marca 120 km/h



A declaração da jornalista o deixa sem ação. Não consegue pensar mais em nada. Fecha os olhos, inspira e expira três vezes em seguida, vira o rosto e finalmente resolve encarar a mulher. “O que foi que você disse?”. Ela sorri, bebe os dois copos de Whisky que segurava, e com uma voz firme, responde com o mesmo olhar que é fitada.”Isso mesmo que você ouviu, presidente. Eu sei de toda a sua história como profissional do sexo. Sei o site de relacionamentos que o senhor usava, o codinome de ‘El Amador Solitário’, que utilizava para se apresentar as clientes, os motéis que frequentava, enfim. Eu tenho um relatório de toda a sua vida”.

A afirmação dela é tão segura que o deixa desconcertado. Tenta negar, mas ele próprio não acredita em suas palavras e acaba admitindo a verdade. Como ela conseguiu todas essas informações? Isso pode destruir a minha carreira. Eu preciso matar essa mulher. “O que você quer para esquecer tudo isso que está falando?”, pergunta. “Depende de você”, ela responde. “Vou ser mais objetivo. Quanto você quer?”. Ela sorri novamente. “Quanto vale a sua reputação, presidente?”.

Ele a convida para entrar no carro e diz que está pronto para pagar o que for necessário para ela desaparecer da mineradora e nunca mais tocar no assunto. Ela aceita o convite. Os dois saem do centro de convenções. Ele pergunta como ela soube de tudo. Ela responde que começou a carreira como repórter investigativa. “Isso era um segredo que mais cedo ou mais tarde seria descoberto. Afinal, essa cidade não é tão grande assim e uma hora ou outra alguma de suas clientes iria acabar o reconhecendo. Agora mais do que nunca, já que se tornou presidente da empresa e  automaticamente, terá seu trabalho acompanhado pela mídia”, diz a jornalista, enquanto fuma um cigarro, ao dele, a 60 km/h.

“Você invadiu a minha privacidade e sabe muito bem que isso é crime”. Ele acelera o carro. “Eu não invadi a privacidade de ninguém. As coisas estavam muito óbvias. No site de relacionamentos erótico, além de se apresentar com o seu sobrenome, o senhor deixava muitas pistas sobre sua vida, presidente”. Ele continua acelerando, o velocímetro já marca 120 km/h. “O que você está fazendo? Para quê essa pressa toda, o senhor enlouqueceu?”. Ele sorri e puxa o freio de mão. O carro para bruscamente após rodopiar em uma avenida próxima ao aeroporto da cidade. Ela começa a gritar histericamente.

No relógio, 22 horas. “Você tem medo de morrer é? Devia ter pensado nisso antes, não acha?”. O olhar da jornalista é de desespero. Ele pega um revolver calibre 38 de dentro do porta-luvas e aponta em direção a ela. “Fim do jogo pra você, repórter investigativa”.


Continua no próximo capitulo... 

quarta-feira, 5 de dezembro de 2012

Amador [parte 2]

Festa em homenagem ao novo presidente da mineradora


“Eu, presidente de uma das maiores empresas de mineração do país”. A frase não parava de sair de sua cabeça. Finalmente havia chegado à presidência. Finalmente havia chegado ao lugar que tanto sonhou. Não foi fácil, lembrou de todas as dificuldades que passou para chegar até ali. “Comecei como estagiário, depois fui promovido a coordenador adjunto do setor de almoxarifado e hoje vou a ocupar a principal cadeira da instituição. Obrigado a todos vocês”, discursou; e em seguida, foi aplaudido por uma plateia de 500 convidados,  que lotou o centro de convenções da empresa.

“Você é um homem de sucesso. Se chegou até aqui foi porque mereceu. Sua biografia é testemunha”, afirmou o ex-presidente da empresa de mineração, enquanto o cumprimentava. Lamentou pela noiva não estar ao seu lado nesse momento. Mesmo sendo avisada com duas semanas de antecedência, ela alegou que não tinha tempo para ir e que toda a sua atenção estava voltada apenas para o casamento. “A festa só não está completa porque eu não estou com a minha mulher ao lado, recebendo as congratulações”, declarou durante o telefonema para a noiva. “Oh, meu querido. Você sabe que eu queria muito estar com você. Mas eu tenho que priorizar o nosso casamento. É daqui a duas semanas e nada pode dar errado, não é? Agora, por exemplo, eu tenho que desligar o telefone porque vou começar a experimentar as joias e os adereços feitos exclusivamente para o meu vestido”.


Não aguentava mais falar em casamento. Não aguentava mais a futilidade de sua noiva. Mas estava decidido. Precisa encarar uma nova vida. Afinal, agora é presidente da terceira maior mineradora do país. É a chance de dar um basta à vida de garoto de programa que já leva há quase 15 anos. “Aceita mais um drinque, presidente?”, perguntou a assessora de comunicação da empresa, já visivelmente alterado pelo álcool. Ele recusa educadamente, finge ir ao banheiro e deixa a jornalista falando sozinha.


Cumprimenta dirigentes da empresa, posa para foto com colegas, pede um suco de abacaxi com gelo para o garçom e assim que termina de beber sorri de forma irônica ao lembrar de uma piada que ele mesmo inventou. “Agora eu sou um puto presidente. Ou seria um presidente puto?”, sussurrou para si mesmo, rindo sozinho. Olha o relógio, cumprimenta mais convidados, agradece pela presença de todos na festa e diz que precisa ir embora. Amanhã já começa o trabalho como presidente, precisa descansar.


Vai embora. No estacionamento é surpreendido com a assessora de comunicação que o espera com dois copos de Whisky na mão. “Esse é para você, presidente”. Agradece educadamente e a ignora pela segunda vez. “Até quando você vai ficar me esnobando, doutor Luis Henrique Amador?”. “Eu não estou esnobando. Só recusei porque estou dirigindo, não costumo beber quando estou ao volante. Além do mais, amanhã tem trabalho. Preciso estar revigorado”. Ela começa a ri. “Nossa, você falando assim, até parece um homem integro. Com uma reputação impecável”. Ele a ignora, vai em direção ao carro, abre a porta do veiculo e antes de entrar é surpreendido novamente pela jornalista. “Não adianta fingir, Amador. Eu sei que você é prostituto. Que não  livra a cara de ninguém. Pode ser homem, mulher, travesti. Basta pagar e você estará pronto para dar prazer”.


Continua no próximo capitulo... 

domingo, 2 de dezembro de 2012

Amador [parte 1]

Luis Henrique Amador

Abriu os olhos, se espreguiçou e ainda deitado acendeu luz do quarto.  Ao seu lado, na cama, uma mulher que ele não lembra o nome. Era a terceira da noite. O telefone toca. Do outro da linha a voz de sua noiva dizendo que finalmente encontrou o vestido do casamento. “Pena que você ainda não pode ver, mas é lindo. Era o vestido com que eu havia sonhado, amor”. Por mais que se esforce, ele não consegue expressar nenhuma palavra e apenas ouve a noiva, que não para de falar. “Amor? Aconteceu alguma coisa? Porque você não diz nada? Também está ansioso para o casamento?”. Desliga o telefone e dá o silêncio como resposta.


Levanta, vai ao banheiro, ergue a tampa do vaso sanitário e antes de urinar, resolve encarar o espelho. A sua frente, um homem barbudo, magro, com olheiras, cabelos grisalhos e com o nariz sujo de pó branco. “Merda, ainda continuo usando essas porcarias”, disse, enquanto limpava do rosto as marcas deixadas pela cocaína que havia cheirado na noite anterior.


Voltou para a cama, acordou a mulher que dormia ao seu lado e disse que o programa havia acabado. “São nove horas da manhã. O combinado era a gente ficar até as três”, falou, de maneira ríspida. “Vamos ficar mais um pouquinho na cama, eu pago o quanto você quiser”, alegou a mulher. Ele pediu para ela não insisti e afirmou que era o último dia em que fazia sexo apenas por dinheiro.


“Eu não quero mais essa vida pra mim. Acabei de completar 40 anos, já deu o que tinha que dar. Não quero mais vender meu corpo, não quero mais me matar usando droga. Acabou. Vou casar daqui a duas semanas e preciso ser um novo homem”, afirmou, enquanto devolvia o dinheiro do programa para a mulher.


“Não precisa devolver nada. Esse dinheiro é seu. Fez por merecer”. Ele insistiu, disse que nunca precisou se prostituir para sobreviver e garantiu que vendia o corpo apenas para alimentar uma fantasia. “Eu tenho um bom emprego e nunca precisei dessa mixaria para viver. Fazer programa é apenas uma diversão, que eu curti muito enquanto durou. Mas, já não quero mais isso para a minha vida. Aceite o dinheiro de volta. Isso é uma forma simbólica para eu poder me livrar definitivamente desse vício”, declarou.

Ela aceita a devolução e vai embora com raiva, sem se despedir dele. O telefone toca novamente. Do outro lado da linha, a voz de sua secretaria informando que está tudo pronto para a posse. Hoje é o dia em que ele vai assumir a presidência de uma das maiores empresas de mineração do Brasil. Precisa fazer a barba, precisa se livrar das olheiras, precisa abandonar definitivamente a prostituição.


Continua no próximo capítulo

sábado, 1 de dezembro de 2012

O Estatuto do começo de nós dois

Decretamos que seja eterno enquanto durar (Fonte: imagens Google)


“Foi Assim” como os versos da música de Paulo André e Ruy Barata. Sem planos, sem projetos, sem espera. Aconteceu do nada, na hora certa, no dia exato, no lugar perfeito e foi mais forte que nós. O olho no olho, a respiração ofegante, o sorriso de uma ponta a outra do rosto, o primeiro toque de pele, o libido, o abraço que durou uma eternidade. O começo.

Prometemos um ao outro que a nossa única regra seria o amor e não haveria exceção. O primeiro beijo ao som de um velho disco do Jimi Hendrix. A primeira transa na chuva, o desejo, a primeira viagem à Bragança, o primeiro “eu te amo”, sussurrado ao pé do ouvido em uma madrugada de dezembro. O início.

Decretamos que seja eterno enquanto durar. E que apenas o amor sustente essa história. Decretamos viver cada dia como se não houvesse amanhã. Sem medo, sem planos, sem danos, sem perdas e sem nada que destrua nossa confiança. Que a partir de agora constituamos um só. Duas vidas e uma só história. E que assim seja, até o fim de nós dois.