quinta-feira, 25 de outubro de 2012

Um menino, um futuro e a violência no meio do caminho



Não costumo usar esse espaço para descrever o dia-a-dia da minha profissão, mas a cena que testemunhei nesta quinta-feira (25) durante o trabalho, sem dúvida nenhuma, a imagem mais emocionante que presenciei durante um ano de editoria de polícia, merece ser comentada aqui. Enquanto fazia uma reportagem sobre um duplo homicídio, em um bairro da periferia de Belém, um menino de dois anos, testemunha ocular da execução dos próprios pais, olhava com um olhar perdido a movimentação de pessoas próximas ao local do crime enquanto entregava as mãozinhas sujas de sangue para uma vizinha limpar.

A mancha causada pelo sangue dos pais dele, assassinados num crime motivado por dividas com o tráfico de drogas, foi limpa por uma mulher que acolheu a criança minutos após o crime. Quieto, sentado na porta de uma casa de madeira, construída sobre um esgoto a céu aberto, num ambiente de total abandono do poder público, o menino não pronunciava nenhuma palavra. Em seguida, se comunicando apenas com os olhos, saiu para brincar com outras crianças da rua enquanto peritos do IML faziam os primeiros levantamentos da cena do homicídio.

Dentro da casa onde ocorreu o crime, brinquedos sujos de sangue espalhados por todos os lados davam a dimensão dos momentos de terror vivido pelo menino, que ao lado de mais dois irmãos, uma garota de quatro anos e um garotinho de quatro meses, assistiu a execução dos pais.


Crime deixou três crianças órfãos de pai e mãe



Mesmo interagindo com os outros coleguinhas, o garoto continuava calado, e apenas sorria raramente, quando era sua vez de chutar a bola.  “Ele fala sim. Mas talvez com o susto que levou, não está conseguindo expressar as palavras. Pode ser isso”, comentava a vizinha que cuidava do menino. Como o crime foi na madrugada, os outros dois irmãos acabaram dormindo quando foram levados para casa de vizinhos. Mas ele, não. Continuava de pé, demonstrando disposição para brincar.

 “Nós já tentamos colocar ele para dormir, mas ele não quer. Então a gente deixou ele se entreter com os coleguinhas da rua”, comentou um vizinho, enquanto dava café com pão para a criança ali mesmo na rua. Segurando o pão e a xícara de café, o menino de olhar perdido, de vez em quando olhava para a casa dos pais, que continuava sendo periciada.  Disposto a brincar, terminou de se alimentar, devolveu a xícara para a vizinha, e voltou a interagir com as outras crianças.

Distraído com os coleguinhas, o menino continuou brincando por um bom tempo e após perceber que as vítimas tinham sido removidas pelo IML e a movimentação de curiosos na área havia acabado, ele finalmente resolveu pronunciar as primeiras palavras do dia. Ainda com o olhar perdido, o garoto entregou a bola para os amiguinhos, pegou nas mãos da vizinha e perguntou: “Agora eu posso ir para casa?”. Ninguém respondeu. E com o silencio de todos, o garotinho, que até o momento parecia não entender o que estava acontecendo, começou a chorar e pedir “Não mata meu pai nem minha mãe, não moço. Não mata”.