quinta-feira, 21 de junho de 2012

Meia Noite no Curuçambá


Na tela do cinema, os créditos finais do filme de Woody Allen. Meia Noite em Paris. Termina a sessão e eu fico com um ar meio nostálgico. Além da bela fotografia e um enredo simples e mágico ao mesmo tempo, com um ritmo desses que só os grandes mestres do cinema conseguem fazer, a história reacendeu em mim um grande desejo. Assim como o protagonista, também queria largar tudo e me tornar um grande escritor. “Talvez um dia isso aconteça. Talvez até dedique um dos livros ao Allen pela influência dele na minha saga literária. Talvez..”. Ok, ok, preciso voltar à realidade. Pois começo a trabalhar daqui a meia hora.

Do cinema vou direto para a redação. No relógio 23:48h. Os finais de semana costumam ser longos para quem trabalha na editoria de polícia. O telefone toca. Do outro lado da linha, um policial militar informa que acabara de ocorrer um duplo homicídio no bairro do Curuçambá, em Ananindeua, Região Metropolitana de Belém. Agora sim, foi dado à largada para o plantão do final de semana no caderno policial!

O filme foi indicado ao Oscar de 2012 pelas categorias de  direção de arte,  direção e melhor filme

De Paris ao Curuçambá em menos de uma hora. Desço do carro da reportagem em direção ao local do crime, mas as cenas do filme de Woody Allen ainda permanecem latejantes na minha mente.  Filme bom é assim, mesmo. As cenas insistem em ficar na cabeça. Ao meu lado um homem e uma mulher estirados no chão e marcas de sangue espalhadas num terreno de chão batido, num cenário de extrema pobreza.

“Tudo indica que o crime foi motivado por acerto de contas”, diz um policial assim que percebe a minha presença no local. Falo com o fotógrafo, registro as primeiras informações, acendo um cigarro e mesmo assim as cenas do filme ainda permanecem dominando minha mente. Preciso me concentrar.

O bairro do Curuçambá é um dos mais populosos do município de Ananindeua 

“O nome do homem é Gil Pender e da mulher é Inez”, afirma o policial militar que fazia a segurança da cena do crime. O quê? Não, isso seria coincidência demais. Esses nomes são os mesmos do casal protagonista do filme do Woody Allen. Pergunto para o PM se ele não se enganou sobre os nomes e ele mostra os documentos de identificação das vítimas. De fato, o nome deles é o mesmo dos protagonistas de “Meia Noite em Paris”. E para completar a lista das coincidências absurdas, a mulher ainda é natural da França. 

 No relógio, zero hora. É a maldição do Woody Allen. Como explicar tanta coincidência? Meia noite no Curuçambá e a história de um casal executado que possui o mesmo nome dos protagonistas do filme “Meia Noite em Paris”. Confesso que não ficaria surpreso se o homem também fosse escritor e norte-americano. “E ele é. A informação que foi passada é que eles dois eram estrangeiros e tinham alugado uma casa no bairro do Curuçambá para acompanhar de perto a vida na periferia da Grande Belém e depois escrever um livro”, revelou o militar.

Não. Não pode ser. Isso seria demais. Até as coincidências têm limite. Ou eu estou enlouquecendo ou essa cena do crime é uma releitura da obra de Wood Allen com um toque amazônico tupiniquim. Retiro mais um cigarro do bolso e antes de acender, uma mão toca o meu ombro. Olho para trás. “Desculpa, moço. Mas já faz mais de meia hora que o filme acabou e você ainda permanece na plateia. Nós precisamos fechar o cinema”, disse um funcionário da sala de exibição de filmes.