quarta-feira, 9 de maio de 2012

Espetacularização

 Famílias inteiras se aglomeram para ver o corpo no chão (Foto: Wagner Almeida)

O cheiro de pólvora ainda exalava no local. No chão, um homem morto por 11 disparos. Ao redor do corpo, sob o sol escaldante do meio-dia, dezenas de curiosos de todas as idades brigam pelo melhor espaço para ver de perto a cena do crime. Famílias inteiras se aglomeram na rua, meninos e meninas descalços, mães com crianças no colo, homens e mulheres que aproveitam o momento para registrar no telefone celular a “melhor” foto da vítima com a cabeça estourada, vizinhos que aproveitam a ocasião para colocar a conversa em dia. O bairro parece em festa.

O corpo continua no chão. O número de expectadores aumenta. A cena do homicídio vira um espetáculo. Piadas, sussurros e risadas tomam conta no local. Ao lado da vítima, um grupo de jovens ouve tecnobrega. O volume da música, vindo de uma pequena caixa amplificada conectada a um aparelho celular, é ampliado. Ninguém reclama. Alguns até cantam.

A multidão aumenta. Algumas mulheres levam seus pratos de comida para rua e almoçam ali mesmo para não perder nenhum minuto do “espetáculo”. Uma equipe de jornalistas chega ao local para relatar o homicídio. Uma repórter de TV é assediada por um grupo de homens na rua. Agora sim, o show está completo. “Essa é aquela que está nua no vídeo do celular”, sussurram os vizinhos.

Mais crianças chegam para ver o corpo. No meio da multidão alguém pergunta se aquele crime vai ser a capa do jornal de amanhã. Banalização. “Aqui na rua, este já é o terceiro somente nesta semana”, denunciam os moradores. Espetacularização. O tecnobrega continua a ser a trilha sonora da cena do crime. 

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