quinta-feira, 15 de março de 2012

O estatuto do fim de nós dois


Prometemos um ao outro que era para ser eterno enquanto durasse. E foi. Os melhores dias da minha vida, as emoções mais verdadeiras, os sorrisos mais fáceis, os abraços mais demorados, as carícias mais intensas. Lembro das tantas e tantas vezes que pedi para o tempo parar. Não queria perder nenhum momento ao seu lado... Mas, perdi. Ou melhor, perdemos.

Demorei aceitar que o “pra sempre”, como postulou Renato Russo, sempre acaba. Demorei para compreender que não haveria mais segunda chance, começar de novo, recomeçar, fingir que nada aconteceu, prometer para si mesmo que a partir de agora vai ser diferente. Não, não havia mais motivo para enganar a si próprio. O fim chegou. O fato está consumado.

A partir de agora não existe mais “nós dois”. Apenas um de cada lado, com suas convicções fechadas e repetindo para si mesmo que está pronto para o novo. Não existe culpado, nem culpa, nem erro, nem pivô da separação, nem mais, nem menos. Acabou. Assim como morre tudo que um dia nasce.

Juro não tentar olhar mais para trás. Prometo não criar mais poemas que lembrem a gente. E declaro, por livre e espontânea vontade, aceitar o fim. Que sejamos felizes, não importa aonde e nem com quem. E que o fim da nossa caminhada a dois, seja o começo de novos caminhos.

terça-feira, 6 de março de 2012

Expulsos pela violência


Medo da violência faz moradores abandonarem suas casas

Depois de ter testemunhado dois homicídios no quintal do vizinho e ter a casa arrombada três vezes em menos de dois meses, a moradora da área de ocupação do Cananga, no bairro Santa Lucia, em Marituba, Região Metropolitana de Belém, decidiu abandonar o lugar em que um dia sonhou construir uma casa de alvenaria. Natural do estado do Maranhão, a mulher, que prefere não se identificar, compartilha a angústia de diversos moradores, que por medo da violência, se preparam para deixar a comunidade. “Aqui todo mundo tem uma história de brutalidade para contar. Todos aqui já sentiram na pele a violência, seja através de uma ameaça de morte, de uma agressão, de um assalto, de um assassinato a luz do dia. Só fica aqui no Cananga quem realmente não tem outro lugar para morar”, afirma.

Por medo de serem os próximos alvos da violência, vários moradores já abandonaram suas casas. “Aqui na rua onde eu moro, só tem duas famílias que aindam resistem. A maioria dos vizinhos já foi embora. Podem ver como essa rua está deserta. São várias casas, mas apenas duas com gente morando”, contou uma moradora, que vive numa casa de madeira de apenas um cômodo com o marido e uma filha. Mesmo afirmando que já foi ameaçada por traficantes, a mulher insiste em permanecer no local. “Medo todos nós temos. Mas, fazer o quê? Eu não tenho para onde ir. O jeito é me sujeitar a isso e pedir a ajuda de Deus”, conta.

Na comunidade, considerada pela polícia como “área vermelha”, a ação criminosa não perdoa ninguém. “Até o nosso pastor evangélico, líder comunitário, já sofreu um atentado. Fizeram uma ‘tocaia’ e quase acertaram um tiro na cabeça dele. Desde esse dia, ele teve que abandonar a área. Agora só vem aqui de passagem, mas morar mesmo, nunca mais”, revelou uma mulher, que como todos os moradores prefere o anonimato. “Todos nós temos medo de nos identificar. Se alguém souber que eu falei isso ou aquilo da comunidade, certamente vou sofrer ameaça. Aqui é assim, denunciou morreu. O Cananga é uma terra sem lei”, denuncia.

A falta de estrutura do local contribui para a violência (Foto: Antonio Melo)

O pastor evangélico, citado pela moradora, não quis falar sobre o assunto. Assustado, apenas confirmou o alto índice de violência na localidade. Segundo um morador, que teve o cunhado assassinado no final do ano passado na área, em menos de cinco meses, o Cananga já foi cenário de dez homicídios. Fato que revela a gravidade da violência em Marituba.

De acordo com dados da Secretaria de Segurança do Pará, o município lidera o atual ranking de homicídios no estado, com 15 assassinatos já registrados em 2012. Para a polícia, o isolamento do local aliado a falta de iluminação são apontados como os principais motivos para a prática de assassinatos na comunidade.

 “Além de crimes da própria área de ocupação, o Cananga também serve com um local de ‘acerto de contas’ para traficantes de outros bairros de Marituba. Não existe nenhum tipo de estrutura aqui. É como se essas pessoas não fossem cidadãs. Não dar para resolver essa criminalidade toda apenas com um trabalho de repressão”, critica um policial militar, da 18ª Zona de Policiamento, que também prefere não se identificar.

 “Nós somos muito abandonados aqui. A prefeitura não faz nada pela ocupação do Cananga. Se agora existe alguns poucos postes aqui é porque a comunidade se reuniu, fez abaixo-assinado e lutou muito para conseguir. Mas se fosse depender de prefeito mesmo, até agora a gente estava sem luz”, denuncia uma moradora, que vive na área há três anos, mas já se programou para deixar a localidade. “Antes do final do mês, eu devo abandonar minha casa. Já fiz muito por essa comunidade, mas não aguento mais tanto crime”.

Em resposta as denúncias dos moradores, a Prefeitura de Marituba alega que o local é uma área irregular e devido a isso, a Secretaria de Obras do Município ainda não providenciou a devida infraestrutura para a comunidade. A respeito do alto índice de criminalidade na área, a Prefeitura diz que a responsabilidade pela segurança pública cabe ao governo do Estado e não ao município.

Além da violência, os moradores também enfrentam outro problema. Uma família de empresários luta na justiça pela posse do terreno onde a ocupação foi instalada. “Nós já ganhamos a liminar que nos dá o direito sobre essa área, mas a família que se diz proprietária do terreno ainda não desistiu da ação de despejo”, relatou uma moradora que já vive a três anos na comunidade. “O pior de tudo é saber que estamos sendo expulsos não por uma determinação da justiça, que seria muito ruim, mas aceitável. Mas, estamos sendo tirados a força da nossa terra por conta da violência”, desabafa a mulher.