quinta-feira, 2 de fevereiro de 2012

O dia do susto no carro de reportagem ou Se ouvir Waldick Soriano não dirija

O dia teria tudo para ser mais um dia normal. Desses que só conseguimos lembrar por um curto período de tempo, pois a memória faz questão de apagar para deixar em nossa mente apenas as lembranças dos dias incomuns. Após ter feito quatro matérias, a equipe de reportagem seguia para a redação. No material colhido durante a ronda nada de anormal, apenas histórias de jovens que escolheram ou foram escolhidos pelo mundo do tráfico de drogas. Um mundo em crescente expansão numa terra onde a injustiça social é tão natural quanto o ar que respiramos.

O carro da reportagem segue a caminho da redação ao som de U2. “Essa banda de novo”, reclama o motorista, que parece não gostar nenhum pouquinho das canções do Bono. Prometo trocar o repertório do MP3 da próxima vez, deixando claro que irei selecionar as músicas de menos sucesso do grupo irlandês. “Bem que você poderia tocar aí uma música do Waldick Soriano. Tem aí no teu som?”. “Waldick , quem?”.” O Soriano, um dos maiores..”  Calma, já sei. Um cantor popular das décadas de 60 e 70 que eternizou o clássico ‘Eu não sou Cachorro não’.
Grande nome da música popular brasileira das décadas de 60 e 70

O motorista ainda arrisca cantar uma música do Soriano, mas o telefone toca. Ufa! Salvo por um toque polifônico. Atendo a ligação. Do outro lado da linha, uma voz cansada diz para eu atender ao pedido do condutor do veículo, imediatamente. “Ou você toca a minha música ou vai sofrer grandes represálias”, insiste a voz. Que brincadeira é essa? Quem está falando? A voz persiste com a mesma mensagem e desliga o telefone.

Comento com o motorista sobre a ligação. Digo que é preciso ter muita lábia para me convencer a trocar todo o repertório do U2, que levei meses para montar, por um cantor que eu mal tenho conhecimento e que a única música que conheço é “Eu não sou Cachorro não”. O motorista se ofende, diz que Waldick é a melhor representação da autentica música popular brasileira. Eu discordo e  antes de ouvir a resposta dele somos tomados por um susto. O carro em que estamos é arrastado por um caminhão caçamba carregado de seixo, que seguia logo atrás. A força da colisão destrói toda a traseira do veículo.

Apesar do susto, ninguém ficou ferido no acidente

Dentro de segundos, o automóvel começa a capotar e por pouco não somos arremessados para fora do veículo. O susto é grande. Apesar da gravidade do acidente, a única coisa que notamos na hora foram imagens girando na nossa frente. O celular tocar novamente e sem poder me mexer, preso no banco de carona, consigo apenas apertar uma única tecla do telefone, que atende a ligação e coloca o aparelho automaticamente no viva-voz.

Do outro lado da linha, a voz cansada novamente. “Eu avisei para vocês colocarem a minha música. Ninguém duvide de Waldick... Trocar a minha música por um musiquinha de uma banda irlandesa de nome duvidoso é sacanagem. Eu não sou cachorro.”