terça-feira, 11 de dezembro de 2012

Amador [parte 3]

o velocímetro já marca 120 km/h



A declaração da jornalista o deixa sem ação. Não consegue pensar mais em nada. Fecha os olhos, inspira e expira três vezes em seguida, vira o rosto e finalmente resolve encarar a mulher. “O que foi que você disse?”. Ela sorri, bebe os dois copos de Whisky que segurava, e com uma voz firme, responde com o mesmo olhar que é fitada.”Isso mesmo que você ouviu, presidente. Eu sei de toda a sua história como profissional do sexo. Sei o site de relacionamentos que o senhor usava, o codinome de ‘El Amador Solitário’, que utilizava para se apresentar as clientes, os motéis que frequentava, enfim. Eu tenho um relatório de toda a sua vida”.

A afirmação dela é tão segura que o deixa desconcertado. Tenta negar, mas ele próprio não acredita em suas palavras e acaba admitindo a verdade. Como ela conseguiu todas essas informações? Isso pode destruir a minha carreira. Eu preciso matar essa mulher. “O que você quer para esquecer tudo isso que está falando?”, pergunta. “Depende de você”, ela responde. “Vou ser mais objetivo. Quanto você quer?”. Ela sorri novamente. “Quanto vale a sua reputação, presidente?”.

Ele a convida para entrar no carro e diz que está pronto para pagar o que for necessário para ela desaparecer da mineradora e nunca mais tocar no assunto. Ela aceita o convite. Os dois saem do centro de convenções. Ele pergunta como ela soube de tudo. Ela responde que começou a carreira como repórter investigativa. “Isso era um segredo que mais cedo ou mais tarde seria descoberto. Afinal, essa cidade não é tão grande assim e uma hora ou outra alguma de suas clientes iria acabar o reconhecendo. Agora mais do que nunca, já que se tornou presidente da empresa e  automaticamente, terá seu trabalho acompanhado pela mídia”, diz a jornalista, enquanto fuma um cigarro, ao dele, a 60 km/h.

“Você invadiu a minha privacidade e sabe muito bem que isso é crime”. Ele acelera o carro. “Eu não invadi a privacidade de ninguém. As coisas estavam muito óbvias. No site de relacionamentos erótico, além de se apresentar com o seu sobrenome, o senhor deixava muitas pistas sobre sua vida, presidente”. Ele continua acelerando, o velocímetro já marca 120 km/h. “O que você está fazendo? Para quê essa pressa toda, o senhor enlouqueceu?”. Ele sorri e puxa o freio de mão. O carro para bruscamente após rodopiar em uma avenida próxima ao aeroporto da cidade. Ela começa a gritar histericamente.

No relógio, 22 horas. “Você tem medo de morrer é? Devia ter pensado nisso antes, não acha?”. O olhar da jornalista é de desespero. Ele pega um revolver calibre 38 de dentro do porta-luvas e aponta em direção a ela. “Fim do jogo pra você, repórter investigativa”.


Continua no próximo capitulo... 

quarta-feira, 5 de dezembro de 2012

Amador [parte 2]

Festa em homenagem ao novo presidente da mineradora


“Eu, presidente de uma das maiores empresas de mineração do país”. A frase não parava de sair de sua cabeça. Finalmente havia chegado à presidência. Finalmente havia chegado ao lugar que tanto sonhou. Não foi fácil, lembrou de todas as dificuldades que passou para chegar até ali. “Comecei como estagiário, depois fui promovido a coordenador adjunto do setor de almoxarifado e hoje vou a ocupar a principal cadeira da instituição. Obrigado a todos vocês”, discursou; e em seguida, foi aplaudido por uma plateia de 500 convidados,  que lotou o centro de convenções da empresa.

“Você é um homem de sucesso. Se chegou até aqui foi porque mereceu. Sua biografia é testemunha”, afirmou o ex-presidente da empresa de mineração, enquanto o cumprimentava. Lamentou pela noiva não estar ao seu lado nesse momento. Mesmo sendo avisada com duas semanas de antecedência, ela alegou que não tinha tempo para ir e que toda a sua atenção estava voltada apenas para o casamento. “A festa só não está completa porque eu não estou com a minha mulher ao lado, recebendo as congratulações”, declarou durante o telefonema para a noiva. “Oh, meu querido. Você sabe que eu queria muito estar com você. Mas eu tenho que priorizar o nosso casamento. É daqui a duas semanas e nada pode dar errado, não é? Agora, por exemplo, eu tenho que desligar o telefone porque vou começar a experimentar as joias e os adereços feitos exclusivamente para o meu vestido”.


Não aguentava mais falar em casamento. Não aguentava mais a futilidade de sua noiva. Mas estava decidido. Precisa encarar uma nova vida. Afinal, agora é presidente da terceira maior mineradora do país. É a chance de dar um basta à vida de garoto de programa que já leva há quase 15 anos. “Aceita mais um drinque, presidente?”, perguntou a assessora de comunicação da empresa, já visivelmente alterado pelo álcool. Ele recusa educadamente, finge ir ao banheiro e deixa a jornalista falando sozinha.


Cumprimenta dirigentes da empresa, posa para foto com colegas, pede um suco de abacaxi com gelo para o garçom e assim que termina de beber sorri de forma irônica ao lembrar de uma piada que ele mesmo inventou. “Agora eu sou um puto presidente. Ou seria um presidente puto?”, sussurrou para si mesmo, rindo sozinho. Olha o relógio, cumprimenta mais convidados, agradece pela presença de todos na festa e diz que precisa ir embora. Amanhã já começa o trabalho como presidente, precisa descansar.


Vai embora. No estacionamento é surpreendido com a assessora de comunicação que o espera com dois copos de Whisky na mão. “Esse é para você, presidente”. Agradece educadamente e a ignora pela segunda vez. “Até quando você vai ficar me esnobando, doutor Luis Henrique Amador?”. “Eu não estou esnobando. Só recusei porque estou dirigindo, não costumo beber quando estou ao volante. Além do mais, amanhã tem trabalho. Preciso estar revigorado”. Ela começa a ri. “Nossa, você falando assim, até parece um homem integro. Com uma reputação impecável”. Ele a ignora, vai em direção ao carro, abre a porta do veiculo e antes de entrar é surpreendido novamente pela jornalista. “Não adianta fingir, Amador. Eu sei que você é prostituto. Que não  livra a cara de ninguém. Pode ser homem, mulher, travesti. Basta pagar e você estará pronto para dar prazer”.


Continua no próximo capitulo... 

domingo, 2 de dezembro de 2012

Amador [parte 1]

Luis Henrique Amador

Abriu os olhos, se espreguiçou e ainda deitado acendeu luz do quarto.  Ao seu lado, na cama, uma mulher que ele não lembra o nome. Era a terceira da noite. O telefone toca. Do outro da linha a voz de sua noiva dizendo que finalmente encontrou o vestido do casamento. “Pena que você ainda não pode ver, mas é lindo. Era o vestido com que eu havia sonhado, amor”. Por mais que se esforce, ele não consegue expressar nenhuma palavra e apenas ouve a noiva, que não para de falar. “Amor? Aconteceu alguma coisa? Porque você não diz nada? Também está ansioso para o casamento?”. Desliga o telefone e dá o silêncio como resposta.


Levanta, vai ao banheiro, ergue a tampa do vaso sanitário e antes de urinar, resolve encarar o espelho. A sua frente, um homem barbudo, magro, com olheiras, cabelos grisalhos e com o nariz sujo de pó branco. “Merda, ainda continuo usando essas porcarias”, disse, enquanto limpava do rosto as marcas deixadas pela cocaína que havia cheirado na noite anterior.


Voltou para a cama, acordou a mulher que dormia ao seu lado e disse que o programa havia acabado. “São nove horas da manhã. O combinado era a gente ficar até as três”, falou, de maneira ríspida. “Vamos ficar mais um pouquinho na cama, eu pago o quanto você quiser”, alegou a mulher. Ele pediu para ela não insisti e afirmou que era o último dia em que fazia sexo apenas por dinheiro.


“Eu não quero mais essa vida pra mim. Acabei de completar 40 anos, já deu o que tinha que dar. Não quero mais vender meu corpo, não quero mais me matar usando droga. Acabou. Vou casar daqui a duas semanas e preciso ser um novo homem”, afirmou, enquanto devolvia o dinheiro do programa para a mulher.


“Não precisa devolver nada. Esse dinheiro é seu. Fez por merecer”. Ele insistiu, disse que nunca precisou se prostituir para sobreviver e garantiu que vendia o corpo apenas para alimentar uma fantasia. “Eu tenho um bom emprego e nunca precisei dessa mixaria para viver. Fazer programa é apenas uma diversão, que eu curti muito enquanto durou. Mas, já não quero mais isso para a minha vida. Aceite o dinheiro de volta. Isso é uma forma simbólica para eu poder me livrar definitivamente desse vício”, declarou.

Ela aceita a devolução e vai embora com raiva, sem se despedir dele. O telefone toca novamente. Do outro lado da linha, a voz de sua secretaria informando que está tudo pronto para a posse. Hoje é o dia em que ele vai assumir a presidência de uma das maiores empresas de mineração do Brasil. Precisa fazer a barba, precisa se livrar das olheiras, precisa abandonar definitivamente a prostituição.


Continua no próximo capítulo

sábado, 1 de dezembro de 2012

O Estatuto do começo de nós dois

Decretamos que seja eterno enquanto durar (Fonte: imagens Google)


“Foi Assim” como os versos da música de Paulo André e Ruy Barata. Sem planos, sem projetos, sem espera. Aconteceu do nada, na hora certa, no dia exato, no lugar perfeito e foi mais forte que nós. O olho no olho, a respiração ofegante, o sorriso de uma ponta a outra do rosto, o primeiro toque de pele, o libido, o abraço que durou uma eternidade. O começo.

Prometemos um ao outro que a nossa única regra seria o amor e não haveria exceção. O primeiro beijo ao som de um velho disco do Jimi Hendrix. A primeira transa na chuva, o desejo, a primeira viagem à Bragança, o primeiro “eu te amo”, sussurrado ao pé do ouvido em uma madrugada de dezembro. O início.

Decretamos que seja eterno enquanto durar. E que apenas o amor sustente essa história. Decretamos viver cada dia como se não houvesse amanhã. Sem medo, sem planos, sem danos, sem perdas e sem nada que destrua nossa confiança. Que a partir de agora constituamos um só. Duas vidas e uma só história. E que assim seja, até o fim de nós dois.

quinta-feira, 25 de outubro de 2012

Um menino, um futuro e a violência no meio do caminho



Não costumo usar esse espaço para descrever o dia-a-dia da minha profissão, mas a cena que testemunhei nesta quinta-feira (25) durante o trabalho, sem dúvida nenhuma, a imagem mais emocionante que presenciei durante um ano de editoria de polícia, merece ser comentada aqui. Enquanto fazia uma reportagem sobre um duplo homicídio, em um bairro da periferia de Belém, um menino de dois anos, testemunha ocular da execução dos próprios pais, olhava com um olhar perdido a movimentação de pessoas próximas ao local do crime enquanto entregava as mãozinhas sujas de sangue para uma vizinha limpar.

A mancha causada pelo sangue dos pais dele, assassinados num crime motivado por dividas com o tráfico de drogas, foi limpa por uma mulher que acolheu a criança minutos após o crime. Quieto, sentado na porta de uma casa de madeira, construída sobre um esgoto a céu aberto, num ambiente de total abandono do poder público, o menino não pronunciava nenhuma palavra. Em seguida, se comunicando apenas com os olhos, saiu para brincar com outras crianças da rua enquanto peritos do IML faziam os primeiros levantamentos da cena do homicídio.

Dentro da casa onde ocorreu o crime, brinquedos sujos de sangue espalhados por todos os lados davam a dimensão dos momentos de terror vivido pelo menino, que ao lado de mais dois irmãos, uma garota de quatro anos e um garotinho de quatro meses, assistiu a execução dos pais.


Crime deixou três crianças órfãos de pai e mãe



Mesmo interagindo com os outros coleguinhas, o garoto continuava calado, e apenas sorria raramente, quando era sua vez de chutar a bola.  “Ele fala sim. Mas talvez com o susto que levou, não está conseguindo expressar as palavras. Pode ser isso”, comentava a vizinha que cuidava do menino. Como o crime foi na madrugada, os outros dois irmãos acabaram dormindo quando foram levados para casa de vizinhos. Mas ele, não. Continuava de pé, demonstrando disposição para brincar.

 “Nós já tentamos colocar ele para dormir, mas ele não quer. Então a gente deixou ele se entreter com os coleguinhas da rua”, comentou um vizinho, enquanto dava café com pão para a criança ali mesmo na rua. Segurando o pão e a xícara de café, o menino de olhar perdido, de vez em quando olhava para a casa dos pais, que continuava sendo periciada.  Disposto a brincar, terminou de se alimentar, devolveu a xícara para a vizinha, e voltou a interagir com as outras crianças.

Distraído com os coleguinhas, o menino continuou brincando por um bom tempo e após perceber que as vítimas tinham sido removidas pelo IML e a movimentação de curiosos na área havia acabado, ele finalmente resolveu pronunciar as primeiras palavras do dia. Ainda com o olhar perdido, o garoto entregou a bola para os amiguinhos, pegou nas mãos da vizinha e perguntou: “Agora eu posso ir para casa?”. Ninguém respondeu. E com o silencio de todos, o garotinho, que até o momento parecia não entender o que estava acontecendo, começou a chorar e pedir “Não mata meu pai nem minha mãe, não moço. Não mata”. 


quinta-feira, 21 de junho de 2012

Meia Noite no Curuçambá


Na tela do cinema, os créditos finais do filme de Woody Allen. Meia Noite em Paris. Termina a sessão e eu fico com um ar meio nostálgico. Além da bela fotografia e um enredo simples e mágico ao mesmo tempo, com um ritmo desses que só os grandes mestres do cinema conseguem fazer, a história reacendeu em mim um grande desejo. Assim como o protagonista, também queria largar tudo e me tornar um grande escritor. “Talvez um dia isso aconteça. Talvez até dedique um dos livros ao Allen pela influência dele na minha saga literária. Talvez..”. Ok, ok, preciso voltar à realidade. Pois começo a trabalhar daqui a meia hora.

Do cinema vou direto para a redação. No relógio 23:48h. Os finais de semana costumam ser longos para quem trabalha na editoria de polícia. O telefone toca. Do outro lado da linha, um policial militar informa que acabara de ocorrer um duplo homicídio no bairro do Curuçambá, em Ananindeua, Região Metropolitana de Belém. Agora sim, foi dado à largada para o plantão do final de semana no caderno policial!

O filme foi indicado ao Oscar de 2012 pelas categorias de  direção de arte,  direção e melhor filme

De Paris ao Curuçambá em menos de uma hora. Desço do carro da reportagem em direção ao local do crime, mas as cenas do filme de Woody Allen ainda permanecem latejantes na minha mente.  Filme bom é assim, mesmo. As cenas insistem em ficar na cabeça. Ao meu lado um homem e uma mulher estirados no chão e marcas de sangue espalhadas num terreno de chão batido, num cenário de extrema pobreza.

“Tudo indica que o crime foi motivado por acerto de contas”, diz um policial assim que percebe a minha presença no local. Falo com o fotógrafo, registro as primeiras informações, acendo um cigarro e mesmo assim as cenas do filme ainda permanecem dominando minha mente. Preciso me concentrar.

O bairro do Curuçambá é um dos mais populosos do município de Ananindeua 

“O nome do homem é Gil Pender e da mulher é Inez”, afirma o policial militar que fazia a segurança da cena do crime. O quê? Não, isso seria coincidência demais. Esses nomes são os mesmos do casal protagonista do filme do Woody Allen. Pergunto para o PM se ele não se enganou sobre os nomes e ele mostra os documentos de identificação das vítimas. De fato, o nome deles é o mesmo dos protagonistas de “Meia Noite em Paris”. E para completar a lista das coincidências absurdas, a mulher ainda é natural da França. 

 No relógio, zero hora. É a maldição do Woody Allen. Como explicar tanta coincidência? Meia noite no Curuçambá e a história de um casal executado que possui o mesmo nome dos protagonistas do filme “Meia Noite em Paris”. Confesso que não ficaria surpreso se o homem também fosse escritor e norte-americano. “E ele é. A informação que foi passada é que eles dois eram estrangeiros e tinham alugado uma casa no bairro do Curuçambá para acompanhar de perto a vida na periferia da Grande Belém e depois escrever um livro”, revelou o militar.

Não. Não pode ser. Isso seria demais. Até as coincidências têm limite. Ou eu estou enlouquecendo ou essa cena do crime é uma releitura da obra de Wood Allen com um toque amazônico tupiniquim. Retiro mais um cigarro do bolso e antes de acender, uma mão toca o meu ombro. Olho para trás. “Desculpa, moço. Mas já faz mais de meia hora que o filme acabou e você ainda permanece na plateia. Nós precisamos fechar o cinema”, disse um funcionário da sala de exibição de filmes. 

quarta-feira, 9 de maio de 2012

Espetacularização

 Famílias inteiras se aglomeram para ver o corpo no chão (Foto: Wagner Almeida)

O cheiro de pólvora ainda exalava no local. No chão, um homem morto por 11 disparos. Ao redor do corpo, sob o sol escaldante do meio-dia, dezenas de curiosos de todas as idades brigam pelo melhor espaço para ver de perto a cena do crime. Famílias inteiras se aglomeram na rua, meninos e meninas descalços, mães com crianças no colo, homens e mulheres que aproveitam o momento para registrar no telefone celular a “melhor” foto da vítima com a cabeça estourada, vizinhos que aproveitam a ocasião para colocar a conversa em dia. O bairro parece em festa.

O corpo continua no chão. O número de expectadores aumenta. A cena do homicídio vira um espetáculo. Piadas, sussurros e risadas tomam conta no local. Ao lado da vítima, um grupo de jovens ouve tecnobrega. O volume da música, vindo de uma pequena caixa amplificada conectada a um aparelho celular, é ampliado. Ninguém reclama. Alguns até cantam.

A multidão aumenta. Algumas mulheres levam seus pratos de comida para rua e almoçam ali mesmo para não perder nenhum minuto do “espetáculo”. Uma equipe de jornalistas chega ao local para relatar o homicídio. Uma repórter de TV é assediada por um grupo de homens na rua. Agora sim, o show está completo. “Essa é aquela que está nua no vídeo do celular”, sussurram os vizinhos.

Mais crianças chegam para ver o corpo. No meio da multidão alguém pergunta se aquele crime vai ser a capa do jornal de amanhã. Banalização. “Aqui na rua, este já é o terceiro somente nesta semana”, denunciam os moradores. Espetacularização. O tecnobrega continua a ser a trilha sonora da cena do crime. 

terça-feira, 1 de maio de 2012

Uma paixão que resistiu ao tempo


É num armário empoeirado, numa casa onde o tempo insistiu em parar, que o aposentado Mario José da Silva, 65 anos, guarda sua maior herança. Um acervo com lentes, flashs e mais 25 câmeras fotográficas antigas. A maioria do início do século XX. “Todo esse material foi deixado pelo meu pai. Eu tinha era mais de 50 máquinas, mas com o passar dos anos, infelizmente, algumas acabaram se perdendo. Essas aí foram as que eu conseguir preservar. Mas a minha preferida mesmo, é esta aqui” revela o aposentado, com um sorriso de uma ponta a outra do rosto, apontando para uma câmera Leika de 1917.

paixão de seu Mário pela fotografia resistiu ao tempo. Atravessou gerações. “Tudo começou com o meu pai que era fotógrafo do centro de identificação da Central de Polícia. Eu queria ser médico, mas com o passar do tempo, com os ensinamentos forçados do meu pai, eu fui me envolvendo muito com as técnicas da fotografia e acabei me apaixonando. Quando percebi já era fotógrafo profissional”, conta.

A paixão de seu Mário pela fotografia começou aos 14 anos (Foto: Cezar Magalhães)
Seu Mário começou cedo. Aos 14 anos já trabalhava com o pai, fotografando e revelando fotos de identificação criminal para a polícia. Foi nessa época que ele ganhou a primeira câmera. Uma Yashica Mat. A rigidez com que o pai ensinava os processos de revelação em preto e branco, fez com que a fórmula do revelador fotográfico ficasse gravada até hoje em sua memória. “Metol, hidroquinona, sulfito, carbonato e brometo. Se eu errasse essa ordem, ou a quantidade desses compostos químicos, eu queimava a revelação. E se queimasse eu apanhava e o meu pai mandava fazer de novo, e de novo até eu aprender”, lembra.

De todos os irmãos que também foram obrigados a passar pelos ensinamentos de fotografia impostos pelo pai, seu Mário foi o único que decidiu seguir os passos do genitor. Depois de mais de duas décadas como fotógrafo da Central de Polícia, ele foi transferido para o Centro de Perícias Científicas Renato Chaves. Lá, realizava sozinho um trabalho que, hoje em dia, é feito, pelo menos, por umas cinco pessoas.

“Nessa época eu fazia de tudo. Fotografava cadáver dentro do IML, fazia fotos para perícia na rua, fotos de identificação de presos e ainda realizava todo o processo de revelação manual para entregar o material no mesmo dia”, conta. Entre as muitas histórias vividas como fotógrafo do IML, a que seu Mario mais se recorda foi a vez que fotografou o útero de uma mulher. “A cena está na minha cabeça até hoje. Eu usava uma câmera Pentax, os médicos abriram as pernas da mulher e eu usei o zoom da lente para registrar os detalhes do útero perfurado. O mau cheiro na hora, a situação toda, e aquela imagem muito forte, foi o serviço que mais me marcou nesse período”.

Parte do acervo de seu  Mário, que guarda 25 câmeras centenárias (Foto: Cezar  Magalhães)

O excesso de trabalho no Centro de Perícias Científicas teve um preço. Seu Mário sofreu uma fadiga que o tirou à força do serviço que ele mais gostava de fazer. “O cansaço foi tanto que eu desmaiei lá mesmo no laboratório de fotografia e só me acharam no chão muitas horas depois”. O fato foi decisivo para a direção do CPC afastá-lo do trabalho e pedi a aposentadoria para o velho fotógrafo. A lembrança desse momento faz o aposentado chorar. Ele pede uma pausa na entrevista, segura as lágrimas e diz que não queria ter parado de trabalhar. “Eu adorava o meu serviço. Eu queria voltar a trabalhar”, diz, com a voz abafada, tentando segurar as lágrimas.

Longe da sua grande paixão, seu Mário resolveu montar um pequeno estúdio fotográfico improvisado na própria casa. O lugar, com pouquíssima estrutura, servia apenas para ele tirar foto 3X4 dos vizinhos do bairro onde mora, no município de Ananindeua. A ideia que começou apenas como uma forma de manter vivo o amor dele pela fotografia teve um resultado que o aposentado não esperava. O estúdio improvisado despertou na filha mais velha do segundo casamento dele, Linda Clara Monteiro da Silva, 18 anos, a mesma paixão que ele teve ao ganhar a primeira câmera fotográfica.

Linda Clara ao lado pai. A terceira geração da família apaixonada por fotografia (Foto: Cezar Magalhães)

“Foi um amor à primeira vista mesmo. Quando ele começou a trabalhar com fotografia aqui em casa eu fazia questão de estar do lado, acompanhando tudo. A minha curiosidade foi tanta que eu com nove anos já fazia fotos 3X4. E o mais engraçando é que tinha gente que fazia questão de fotografar apenas comigo. E na época, eu já me achava profissional”, conta Linda.

Ao ver o entusiasmo da filha pela fotografia, Seu Mário não teve dúvida. Colocou o nome dela no estúdio improvisado na casa. Era como se ele tivesse dado um veredicto. Linda Clara representava agora a continuação de uma paixão que começou com o avô e já resisti a três gerações. Mas uma coisa, o aposentado faz questão de lembrar. “Diferente do meu caso, que fui forçado pelo meu pai a trabalhar com isso, eu nunca forcei a Clara a nada. Se ela escolheu a fotografia foi por livre vontade”, ressalta.

Pai e filha ainda preferem câmeras analógicas (Foto: Cezar Magalhães)

A jovem lembra que o ciúme do pai pelas câmeras antigas era tanto que ele escondia elas até mesmo da família. “Antes ele não deixava nem eu pegar nessas câmeras, mas como eu era saliente, eu fuçava as coisas dele e sempre mexia em uma e outra máquina”. Foi essa curiosidade que, segundo ela, despertou o seu amor pela fotografia e a vontade de preservar o acervo deixado pelo avô.

O avanço da tecnologia não mudou o pensamento deles sobre a fotografia. Para Clara, as melhores câmeras ainda são as analógicas e ela faz questão de defender isso. “Eu não sei se foi porque eu cresci no meio de todas essas câmeras manuais e isso acabou me influenciando tanto, mas uma coisa é certa. Eu não gosto de câmeras digitais. Sei lá, acho que perde o charme da fotografia, afirma.

“Hoje eu utilizo câmera digital, mas por falta de opção. Tem muita coisa dessas máquinas manuais que a gente já não encontra mais no comércio e por isso temos que recorrer ao novo. Mas se eu pudesse mesmo, eu só utilizava as manuais. Inclusive, essas que eu guardo. Elas são minha paixão, declara o aposentado.

Diferente do que seu Mário pensava, o acervo de câmeras antigas guardadas pela família não possui somente um valor sentimental. Ele disse que levou um susto quando a filha revelou que o acervo é o sonho de qualquer colecionador de fotografia. E que o material poderia render muito dinheiro. “Eu guardei as câmeras pelo valor que elas representam pra mim e não por um valor financeiro. Enquanto eu tiver vivo, eu quero elas aqui comigo. Mas quando eu morrer. Aí já não posso fazer mais nada. É a Clara que vai decidir o destino delas”, conta, com os olhos umedecidos, tentado novamente segurar as lágrimas.

 Clara abraça o pai, e diz para ele não se preocupar. Ela não pretende se desfazer do que considera uma parte da história de sua família. “Eu sei se eu colocasse todo esse material pra vender eu poderia ganhar muito dinheiro. Mas eu não quero vender. Essas câmeras representam a memória do meu pai. E isso não tem preço”.

quinta-feira, 15 de março de 2012

O estatuto do fim de nós dois


Prometemos um ao outro que era para ser eterno enquanto durasse. E foi. Os melhores dias da minha vida, as emoções mais verdadeiras, os sorrisos mais fáceis, os abraços mais demorados, as carícias mais intensas. Lembro das tantas e tantas vezes que pedi para o tempo parar. Não queria perder nenhum momento ao seu lado... Mas, perdi. Ou melhor, perdemos.

Demorei aceitar que o “pra sempre”, como postulou Renato Russo, sempre acaba. Demorei para compreender que não haveria mais segunda chance, começar de novo, recomeçar, fingir que nada aconteceu, prometer para si mesmo que a partir de agora vai ser diferente. Não, não havia mais motivo para enganar a si próprio. O fim chegou. O fato está consumado.

A partir de agora não existe mais “nós dois”. Apenas um de cada lado, com suas convicções fechadas e repetindo para si mesmo que está pronto para o novo. Não existe culpado, nem culpa, nem erro, nem pivô da separação, nem mais, nem menos. Acabou. Assim como morre tudo que um dia nasce.

Juro não tentar olhar mais para trás. Prometo não criar mais poemas que lembrem a gente. E declaro, por livre e espontânea vontade, aceitar o fim. Que sejamos felizes, não importa aonde e nem com quem. E que o fim da nossa caminhada a dois, seja o começo de novos caminhos.

terça-feira, 6 de março de 2012

Expulsos pela violência


Medo da violência faz moradores abandonarem suas casas

Depois de ter testemunhado dois homicídios no quintal do vizinho e ter a casa arrombada três vezes em menos de dois meses, a moradora da área de ocupação do Cananga, no bairro Santa Lucia, em Marituba, Região Metropolitana de Belém, decidiu abandonar o lugar em que um dia sonhou construir uma casa de alvenaria. Natural do estado do Maranhão, a mulher, que prefere não se identificar, compartilha a angústia de diversos moradores, que por medo da violência, se preparam para deixar a comunidade. “Aqui todo mundo tem uma história de brutalidade para contar. Todos aqui já sentiram na pele a violência, seja através de uma ameaça de morte, de uma agressão, de um assalto, de um assassinato a luz do dia. Só fica aqui no Cananga quem realmente não tem outro lugar para morar”, afirma.

Por medo de serem os próximos alvos da violência, vários moradores já abandonaram suas casas. “Aqui na rua onde eu moro, só tem duas famílias que aindam resistem. A maioria dos vizinhos já foi embora. Podem ver como essa rua está deserta. São várias casas, mas apenas duas com gente morando”, contou uma moradora, que vive numa casa de madeira de apenas um cômodo com o marido e uma filha. Mesmo afirmando que já foi ameaçada por traficantes, a mulher insiste em permanecer no local. “Medo todos nós temos. Mas, fazer o quê? Eu não tenho para onde ir. O jeito é me sujeitar a isso e pedir a ajuda de Deus”, conta.

Na comunidade, considerada pela polícia como “área vermelha”, a ação criminosa não perdoa ninguém. “Até o nosso pastor evangélico, líder comunitário, já sofreu um atentado. Fizeram uma ‘tocaia’ e quase acertaram um tiro na cabeça dele. Desde esse dia, ele teve que abandonar a área. Agora só vem aqui de passagem, mas morar mesmo, nunca mais”, revelou uma mulher, que como todos os moradores prefere o anonimato. “Todos nós temos medo de nos identificar. Se alguém souber que eu falei isso ou aquilo da comunidade, certamente vou sofrer ameaça. Aqui é assim, denunciou morreu. O Cananga é uma terra sem lei”, denuncia.

A falta de estrutura do local contribui para a violência (Foto: Antonio Melo)

O pastor evangélico, citado pela moradora, não quis falar sobre o assunto. Assustado, apenas confirmou o alto índice de violência na localidade. Segundo um morador, que teve o cunhado assassinado no final do ano passado na área, em menos de cinco meses, o Cananga já foi cenário de dez homicídios. Fato que revela a gravidade da violência em Marituba.

De acordo com dados da Secretaria de Segurança do Pará, o município lidera o atual ranking de homicídios no estado, com 15 assassinatos já registrados em 2012. Para a polícia, o isolamento do local aliado a falta de iluminação são apontados como os principais motivos para a prática de assassinatos na comunidade.

 “Além de crimes da própria área de ocupação, o Cananga também serve com um local de ‘acerto de contas’ para traficantes de outros bairros de Marituba. Não existe nenhum tipo de estrutura aqui. É como se essas pessoas não fossem cidadãs. Não dar para resolver essa criminalidade toda apenas com um trabalho de repressão”, critica um policial militar, da 18ª Zona de Policiamento, que também prefere não se identificar.

 “Nós somos muito abandonados aqui. A prefeitura não faz nada pela ocupação do Cananga. Se agora existe alguns poucos postes aqui é porque a comunidade se reuniu, fez abaixo-assinado e lutou muito para conseguir. Mas se fosse depender de prefeito mesmo, até agora a gente estava sem luz”, denuncia uma moradora, que vive na área há três anos, mas já se programou para deixar a localidade. “Antes do final do mês, eu devo abandonar minha casa. Já fiz muito por essa comunidade, mas não aguento mais tanto crime”.

Em resposta as denúncias dos moradores, a Prefeitura de Marituba alega que o local é uma área irregular e devido a isso, a Secretaria de Obras do Município ainda não providenciou a devida infraestrutura para a comunidade. A respeito do alto índice de criminalidade na área, a Prefeitura diz que a responsabilidade pela segurança pública cabe ao governo do Estado e não ao município.

Além da violência, os moradores também enfrentam outro problema. Uma família de empresários luta na justiça pela posse do terreno onde a ocupação foi instalada. “Nós já ganhamos a liminar que nos dá o direito sobre essa área, mas a família que se diz proprietária do terreno ainda não desistiu da ação de despejo”, relatou uma moradora que já vive a três anos na comunidade. “O pior de tudo é saber que estamos sendo expulsos não por uma determinação da justiça, que seria muito ruim, mas aceitável. Mas, estamos sendo tirados a força da nossa terra por conta da violência”, desabafa a mulher.

quinta-feira, 2 de fevereiro de 2012

O dia do susto no carro de reportagem ou Se ouvir Waldick Soriano não dirija

O dia teria tudo para ser mais um dia normal. Desses que só conseguimos lembrar por um curto período de tempo, pois a memória faz questão de apagar para deixar em nossa mente apenas as lembranças dos dias incomuns. Após ter feito quatro matérias, a equipe de reportagem seguia para a redação. No material colhido durante a ronda nada de anormal, apenas histórias de jovens que escolheram ou foram escolhidos pelo mundo do tráfico de drogas. Um mundo em crescente expansão numa terra onde a injustiça social é tão natural quanto o ar que respiramos.

O carro da reportagem segue a caminho da redação ao som de U2. “Essa banda de novo”, reclama o motorista, que parece não gostar nenhum pouquinho das canções do Bono. Prometo trocar o repertório do MP3 da próxima vez, deixando claro que irei selecionar as músicas de menos sucesso do grupo irlandês. “Bem que você poderia tocar aí uma música do Waldick Soriano. Tem aí no teu som?”. “Waldick , quem?”.” O Soriano, um dos maiores..”  Calma, já sei. Um cantor popular das décadas de 60 e 70 que eternizou o clássico ‘Eu não sou Cachorro não’.
Grande nome da música popular brasileira das décadas de 60 e 70

O motorista ainda arrisca cantar uma música do Soriano, mas o telefone toca. Ufa! Salvo por um toque polifônico. Atendo a ligação. Do outro lado da linha, uma voz cansada diz para eu atender ao pedido do condutor do veículo, imediatamente. “Ou você toca a minha música ou vai sofrer grandes represálias”, insiste a voz. Que brincadeira é essa? Quem está falando? A voz persiste com a mesma mensagem e desliga o telefone.

Comento com o motorista sobre a ligação. Digo que é preciso ter muita lábia para me convencer a trocar todo o repertório do U2, que levei meses para montar, por um cantor que eu mal tenho conhecimento e que a única música que conheço é “Eu não sou Cachorro não”. O motorista se ofende, diz que Waldick é a melhor representação da autentica música popular brasileira. Eu discordo e  antes de ouvir a resposta dele somos tomados por um susto. O carro em que estamos é arrastado por um caminhão caçamba carregado de seixo, que seguia logo atrás. A força da colisão destrói toda a traseira do veículo.

Apesar do susto, ninguém ficou ferido no acidente

Dentro de segundos, o automóvel começa a capotar e por pouco não somos arremessados para fora do veículo. O susto é grande. Apesar da gravidade do acidente, a única coisa que notamos na hora foram imagens girando na nossa frente. O celular tocar novamente e sem poder me mexer, preso no banco de carona, consigo apenas apertar uma única tecla do telefone, que atende a ligação e coloca o aparelho automaticamente no viva-voz.

Do outro lado da linha, a voz cansada novamente. “Eu avisei para vocês colocarem a minha música. Ninguém duvide de Waldick... Trocar a minha música por um musiquinha de uma banda irlandesa de nome duvidoso é sacanagem. Eu não sou cachorro.”

terça-feira, 10 de janeiro de 2012

Entre o todo e o resto PARTE II


acompanhe aqui a primeira parte deste conto

Maria acordou. Não havia carro, não havia música piegas, não havia estrada. Estava nua, deitada no chão do quarto. Por alguns segundos pensou que tudo era apenas um sonho, acreditou que jamais foi apaixonada pelo irmão adotivo. Mas uma camisinha usada, ao seu lado, escancarava a realidade que ela se encontrava. Fora a história do acidente na estrada, tudo era verdade. Estava loucamente apaixonada. Sim, acabara de beber todo o sêmen depositado no preservativo.

Aquilo era o resto. Ela queria o todo. Fechou os olhos novamente, respirou fundo, contou até a cinco, levantou e decidiu ir até o quarto do irmão. Sem bater na porta, foi entrando direto no cômodo e encontrou o homem da sua vida no banheiro, apenas de toalha, fazendo a barba. Não queria mais o resto.

Antes dele falar qualquer palavra, ela o abraçou forte, arrancou a toalha do corpo dele e o beijou na boca. Queria o todo. “Pára Maria. Isso é loucura. A gente não pode fazer isso”, disse ele, enquanto segurava as mãos dela e tentava se esquivar dos beijos. Ela fingia não ouvir. Ele continuava resistindo. Ela insistia. “A gente não pode. Nós somos irmãos. Isso é...”. A fala dele foi interrompida por um novo beijo. A persistência dela venceu. Ele ficou excitado.

Não tinha mais como fugir. Finalmente ela teria o todo. “Isso é loucura”, sussurrou ele, enquanto acariciava os seios da mulher que tanto resistiu. “Concordo com você. Isso é loucura. Mas atire a primeira pedra quem nunca cometeu uma”, sussurrou ela, enquanto lambia a orelha dele.

Sem perder tempo, fizeram amor ali mesmo no banheiro. Ele ainda tentou pegar uma camisinha, dentro do armário fixado na parede, mas ela disse que não. Queria o corpo dele por inteiro. Aquilo era o todo. Não havia mais espaço para o resto. Fechou os olhos e em oração pediu para o tempo parar naquele exato momento.

Abriu os olhos. Não havia mais banheiro nem corpos suados, não existia mais o todo. Na sua frente, uma estrada vazia e um velocímetro marcando 180 km/h. Estava desnorteada dentro de um carro, ouvindo uma canção romântica piegas. “Meu Deus! O que está acontecendo comigo?” Não havia mais nenhum indício de razão em sua mente. O carro acabara de se chocar de frente com um caminhão.