sábado, 17 de dezembro de 2011

Vulcão

Avenida Nazaré - Belém-PA
Fechou os olhos, respirou fundo e contou até três. Estava decidida. Sentada sobre o parapeito da janela de um arranha céu, encarava o chão com a certeza de ter tomado a melhor decisão de sua vida. Abaixo dela, a Avenida Nazaré, com suas veias pulsando dióxido de carbono entre mangueiras. Não havia mais motivo para viver. Precisava fazer o que havia prometido a si mesma.
A cena do suicídio foi toda planejada. Em seu apartamento, cartas espalhadas no chão da sala explicavam em detalhes o motivo de sua decisão. Incensos de mirra colocados por toda a casa davam o aroma aos últimos minutos de sua vida. Um disco de Bob Dylan, presente de aniversário de dois anos de namoro, foi escolhido para ser a trilha sonora da despedida.
Assim que inclinou seu corpo para frente na intenção de se jogar da janela, uma gota de água caiu sobre seu rosto. Por alguns segundos pensou em desistir. Lembrou de diversas chuvas caindo sobre as mangueiras da rua que testemunhou de seu apartamento. Lembrou dos inúmeros banhos que tomou nas tradicionais chuvas da tarde.
Porque iria dar um basta em sua vida? Justo ela. Justo quem sempre disse que adorava viver intensamente.     Quem sempre fez planos para o futuro. Quem sempre afirmou que jamais iria se matar. Não! Não vou voltar atrás. A minha decisão já foi tomada e agora é tarde para se arrepender.
Não havia mais motivo para viver. O suicídio seria apenas uma forma de antecipar uma morte lenta e gradual. Sua vida acabou desde que soube que estava com o vírus HIV. Agora, a única coisa que restava era evitar os sofrimentos futuros. É, acho que essa chuva não foi em vão. Vai dar um ar poético a meu adeus. Foi bom enquanto durou.
Fechou os olhos, respirou fundo e contou até três. O exame deu negativo. Não havia motivo para desespero. Não estava em seu apartamento, muito menos numa janela de um edifício no centro de Belém. Estava na sala de espera de um hospital. Suicídio? Desesperança? Tudo coisa da minha cabeça. Sorriu aliviada, agradeceu a Deus, mesmo sem acreditar nele e jogou na lixeira da sala todas as 20 cartas que tinha feito explicando o motivo de seu suicídio.

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