quarta-feira, 14 de dezembro de 2011

Ensaio


Fazia três semanas que não havia diálogo, nem sexo, nem troca de olhares entre eles. Não existia mais motivo para ficarem juntos. O relacionamento de cinco anos chegou ao fim. As brigas diárias acabaram com algo que foi planejado para ser eterno. Agora, só o que restava, era uma conversa civilizada para oficializar a decisão.

 Sentaram um de costa para o outro na cama e após alguns minutos de silêncio, resolveram iniciar o que seria a último contato entre os dois. “Vamos ser diretos e objetivos”, disse ele, quebrando o silêncio ensurdecedor daquele quarto. “Desde que tudo ocorra bem e rápido, eu aceito”, respondeu. “Foi bom enquanto durou”, continuou ele.  “Nossa, isso é tão clichê”, comentou ela, em tom irônico. Ele tentou ri, mas foi contido pelo clima de tensão do momento e fingiu que não ouviu o comentário.

Acertaram as pendências financeiras do apartamento, dividiram alguns móveis comprados no último dia dos namorados e afirmaram que jamais iriam ligar nem procurar um ao outro. O diálogo durou pouco mais de seis minutos. Estava tudo acertado. Ela iria ficar no apartamento até a venda do imóvel ser concretizada e ele iria voltar para a casa dos pais.

Levantaram da cama na mesma sintonia e na mesma hora e saíram do quarto sem trocar nenhum tipo de olhar. Na sala, ele pegou as malas que estavam prontas desde a noite passada, abriu a porta e foi embora sem olhar para trás. Ela ainda tentou falar alguma coisa, mas resolveu não abrir mais a boca. O fato estava consumado.

Cinco anos. Muitas histórias. Um fim. Não tinha mais como voltar atrás. Assim que ele bateu a porta ela começou a chorar. Quem sabe eles não poderiam recomeçar mais uma vez, assim como foram todas as outras crises, pensou. Mas já era tarde. Ele acabara de partir no carro.

Sentaram um de costa para o outro na cama e após alguns minutos de silêncio, ele perguntou por que ela estava tão pensativa. “Eu estou falando com você há algum tempo e você não me ouve. Está tudo bem?”, questionou ele. Ela virou em sua direção e com os olhos lagrimados o abraçou e pediu para eles esquecerem essas brigas. “Vamos começar tudo de novo”, disse ela. Ele retrucou um pouco, disse que esta seria a última chance, confessou que não sabia mais viver sem ela, se abraçaram e fizeram amor ali mesmo.

2 comentários:

  1. É, uma conversa pode mudar toda uma vida. E a falta dela, também.
    Gostei muito do texto, Adison...

    ;)

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  2. É bom ter alguém com a capacidade de transmitir em "contos"a realidade da vida
    "As pessoas tem a capacidade de nos surpreeder apenas com um sorriso ou apenas um gesto que nos fazem perder euforicamente a batida do coração.Pessoas que nem"enxergamos"no nosso dia dia,mais que estão presente ali,do nosso lado.
    Parabéns!!!

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