quarta-feira, 28 de dezembro de 2011

As guardiãs do ritual


Donas-de-casa, empregadas domésticas, feirantes, costureiras. Mulheres que passam o resto do ano vivendo a margem da sociedade assumem um papel de inversão social durante o ápice da Festividade de São Benedito de Bragança-PA, realizada entre os dias 18 e 26 de dezembro. É neste período que elas se tornam as protagonistas da cidade, através do ritual da Marujada. Uma manifestação popular que ocorre há 214 anos no município.
O ritual teve inicio no século XVIII, em 1798. De acordo com os historiadores, tudo começou quando alguns escravos, em manifestação de agradecimentos aos senhores que permitiram a fundação de uma irmandade para louvar São Benedito, começaram a dançar em frente aos casarões da época. “De lá para cá, a tradição permaneceu viva na identidade e no cotidiano dos moradores de Bragança. Tornando-se uma das manifestações culturais de maior resistência na Amazônia”, explica o historiador Dário Rodrigues.

A Marujada proporciona à mulher uma valorização jamais vista em outras manifestações culturais de caráter popular. A luxuosidade e o colorido presente nas roupas das marujas chamam a atenção de qualquer espectador. A saia rodada, a blusa branca rendada e o chapéu coberto de plumagem e enfeitado por longas fitas coloridas na parte de trás, compõe a vestimenta típica delas e afirmam quem são as protagonistas da festa.

Aos homens, cabe um papel secundário. Em relação a elas, os marujos são meros acompanhantes de dança. A roupa deles é nitidamente mais simples. Calça branca, camisa de manga comprida branca ou azul, dependendo do dia da apresentação, além de uma fita amarrada ao braço esquerdo e um chapéu de palha revestido por tecido branco. “Tudo como manda o figurino”, afirma dona Araci Corrêa, capitoa da Marujada. Principal cargo hierárquico da manifestação, uma espécie de chefe das outras marujas.

Ex-vendedora de mingau, dona Araci decidiu ser maruja pela forte identificação que sempre teve com os rituais em homenagem a São Benedito. “Quando eu era criança e olhava aquelas marujas dançando eu ficava encantada, achava muito bonito ver aquele pessoal dançar e dizia pra todo mundo que quando crescesse eu ia ser maruja”, conta emocionada.

Vivendo atualmente numa cadeira de rodas e impedida de trabalhar de “mingauzeira” na feira da cidade devido a uma amputação na perna causada por problemas relacionados ao diabetes, ela teve sua rotina completamente alterada após o acidente. “Eu só parei de trabalhar por causa dessa perna, não dá pra sair todo dia de manhã pra vender mingau. É muito ruim ficar aqui nessa cadeira. Eu nunca fui de ficar parada”, desabafa.

Mesmo com a perna amputada e impedida de dançar, dona Araci faz questão de acompanhar todos os rituais da Festividade de São Benedito. Sem nenhuma modéstia, ele lembra o quanto dançava bem todos os ritmos da Marujada. Xote, retumbão, mazurca, chorado, valsa, contradança. Com uma prótese mecânica, adquirida com a ajuda de amigos, ela consegue ficar em pé e acredita que um dia poderá voltar a dançar. “Enquanto isso, eu me balanço aqui mesmo sem sair do lugar”, diz com um sorriso de uma criança que acabara de ganhar um brinquedo.

O mesmo brilho dos olhos com que dona Araci fala da manifestação é visto no olhar de da costureira Maria do Socorro Sousa, 41 anos, que participa do ritual desde criança. “Eu comecei a ser maruja no colo da minha mãe. Desde os dois anos de idade. Ela fazia questão que eu saísse vestida igual ela no dia da festa de São Benedito”, lembra emocionada. O amor pela tradição atravessou gerações. Hoje, Maria que faz questão que a neta dela, de três anos, esteja vestida a caráter no principal dia da festividade bicentenária.

E existe idade para parar de dançar na Marujada? “Claro que não”, responde a vice-capitôa,
Ozarina Mescouto, 66 anos, que participa há 45 anos da manifestação. Para ela, o ritual é uma necessidade para a vida. “Eu não sei se conseguiria viver sem participar da Marujada. Isso é um dos maiores prazeres que eu tenho na vida. Eu só penso em parar de dançar quando eu morrer”, afirma. “A Marujada é tudo para a gente, é a época que eu me sinto mais valorizada na cidade”, completa a aposentada Almerinda da Silveira, 68, que participa há três décadas da festa.

Segundo o historiador Dario Rodrigues, a inversão que as mulheres proporcionam na cidade durante os dias da festividade de São Benedito é nítida não apenas no caráter visual e na quantidade, mas na relação social que elas passam a exercer. “São as mulheres que abrilhantam a festa. A elas cabe o papel de abrir e fechar as danças da Marujada”, explica.

Inversão social que dona Sandra Oliveira, 41 anos, sente na pele. Maruja desde os 11 anos de idade, a empregada doméstica que mora em Belém há duas décadas, faz questão de viajar para Bragança todos os anos para exercer o que ela chama de “obrigatoriedade de devota”. Vaidosa, ela prepara com meses de antecedência todos os colares e adereços que vai usar durante a dança. “Eu danço e rezo ao mesmo tempo. Sou devota de São Benedito e uma das marujas dele. E para mim, participar da festa e dançar todos os anos significa prestar minha homenagem ao santo preto da maneira mais bonita possível”, diz emocionada.

sábado, 17 de dezembro de 2011

Vulcão

Avenida Nazaré - Belém-PA
Fechou os olhos, respirou fundo e contou até três. Estava decidida. Sentada sobre o parapeito da janela de um arranha céu, encarava o chão com a certeza de ter tomado a melhor decisão de sua vida. Abaixo dela, a Avenida Nazaré, com suas veias pulsando dióxido de carbono entre mangueiras. Não havia mais motivo para viver. Precisava fazer o que havia prometido a si mesma.
A cena do suicídio foi toda planejada. Em seu apartamento, cartas espalhadas no chão da sala explicavam em detalhes o motivo de sua decisão. Incensos de mirra colocados por toda a casa davam o aroma aos últimos minutos de sua vida. Um disco de Bob Dylan, presente de aniversário de dois anos de namoro, foi escolhido para ser a trilha sonora da despedida.
Assim que inclinou seu corpo para frente na intenção de se jogar da janela, uma gota de água caiu sobre seu rosto. Por alguns segundos pensou em desistir. Lembrou de diversas chuvas caindo sobre as mangueiras da rua que testemunhou de seu apartamento. Lembrou dos inúmeros banhos que tomou nas tradicionais chuvas da tarde.
Porque iria dar um basta em sua vida? Justo ela. Justo quem sempre disse que adorava viver intensamente.     Quem sempre fez planos para o futuro. Quem sempre afirmou que jamais iria se matar. Não! Não vou voltar atrás. A minha decisão já foi tomada e agora é tarde para se arrepender.
Não havia mais motivo para viver. O suicídio seria apenas uma forma de antecipar uma morte lenta e gradual. Sua vida acabou desde que soube que estava com o vírus HIV. Agora, a única coisa que restava era evitar os sofrimentos futuros. É, acho que essa chuva não foi em vão. Vai dar um ar poético a meu adeus. Foi bom enquanto durou.
Fechou os olhos, respirou fundo e contou até três. O exame deu negativo. Não havia motivo para desespero. Não estava em seu apartamento, muito menos numa janela de um edifício no centro de Belém. Estava na sala de espera de um hospital. Suicídio? Desesperança? Tudo coisa da minha cabeça. Sorriu aliviada, agradeceu a Deus, mesmo sem acreditar nele e jogou na lixeira da sala todas as 20 cartas que tinha feito explicando o motivo de seu suicídio.

quarta-feira, 14 de dezembro de 2011

Ensaio


Fazia três semanas que não havia diálogo, nem sexo, nem troca de olhares entre eles. Não existia mais motivo para ficarem juntos. O relacionamento de cinco anos chegou ao fim. As brigas diárias acabaram com algo que foi planejado para ser eterno. Agora, só o que restava, era uma conversa civilizada para oficializar a decisão.

 Sentaram um de costa para o outro na cama e após alguns minutos de silêncio, resolveram iniciar o que seria a último contato entre os dois. “Vamos ser diretos e objetivos”, disse ele, quebrando o silêncio ensurdecedor daquele quarto. “Desde que tudo ocorra bem e rápido, eu aceito”, respondeu. “Foi bom enquanto durou”, continuou ele.  “Nossa, isso é tão clichê”, comentou ela, em tom irônico. Ele tentou ri, mas foi contido pelo clima de tensão do momento e fingiu que não ouviu o comentário.

Acertaram as pendências financeiras do apartamento, dividiram alguns móveis comprados no último dia dos namorados e afirmaram que jamais iriam ligar nem procurar um ao outro. O diálogo durou pouco mais de seis minutos. Estava tudo acertado. Ela iria ficar no apartamento até a venda do imóvel ser concretizada e ele iria voltar para a casa dos pais.

Levantaram da cama na mesma sintonia e na mesma hora e saíram do quarto sem trocar nenhum tipo de olhar. Na sala, ele pegou as malas que estavam prontas desde a noite passada, abriu a porta e foi embora sem olhar para trás. Ela ainda tentou falar alguma coisa, mas resolveu não abrir mais a boca. O fato estava consumado.

Cinco anos. Muitas histórias. Um fim. Não tinha mais como voltar atrás. Assim que ele bateu a porta ela começou a chorar. Quem sabe eles não poderiam recomeçar mais uma vez, assim como foram todas as outras crises, pensou. Mas já era tarde. Ele acabara de partir no carro.

Sentaram um de costa para o outro na cama e após alguns minutos de silêncio, ele perguntou por que ela estava tão pensativa. “Eu estou falando com você há algum tempo e você não me ouve. Está tudo bem?”, questionou ele. Ela virou em sua direção e com os olhos lagrimados o abraçou e pediu para eles esquecerem essas brigas. “Vamos começar tudo de novo”, disse ela. Ele retrucou um pouco, disse que esta seria a última chance, confessou que não sabia mais viver sem ela, se abraçaram e fizeram amor ali mesmo.