terça-feira, 23 de agosto de 2011

Entre o todo e o resto




No rádio do carro uma canção romântica piegas. No retrovisor, imagens de uma estrada vazia acompanhada pelos últimos raios de sol, numa aquarela de final de tarde. No velocímetro, a marca de 130 km por hora. Na cabeça de Maria, o tempo estagnado. Não conseguia pensar em outra coisa senão na atitude extrema da noite anterior. Por que eu fiz isso? Por que diabos, agir daquela maneira? Não queria apenas o resto.

A relação de amor platônico que ela sentia por seu irmão adotivo havia passado de todos os limites que imaginara. Apesar de ter falado inúmeras vezes que estava apaixonada, ele sempre a ignorou. Levava na brincadeira. Afinal, para ele, Maria era apenas a irmãzinha caçula. E por mais que ela insistisse, dizendo que eles não eram irmãos de verdade, ele continuava fiel as suas convicções. Ela queria o todo.

Os dois se conheceram no natal de 1997. Maria tinha 11 anos e ele 13. Foi o último sobrevivente de um incêndio num orfanato no centro de Belém. O alto poder aquisitivo da família dela e a situação emergencial de abandono que ele se encontrava na época aceleram o processo de adoção, que saiu antes do planejado. A vinda dele foi festejada pelas crianças da casa. Agora as três irmãs podiam contar com o irmãozinho que sempre desejaram.

 Por que eu fiz isso? Por que diabos, agir daquela maneira? Diferente de suas irmãs, Maria nunca viu ele como um membro da família. E hoje, entende perfeitamente o porquê. É o homem da sua vida. Nunca o beijou na boca, nunca o tocou como amante, nunca o teve em seus braços. Controlava o ciúme que tinha por ele de forma magistral. Jamais externalizando isso na frente da família.

Mas o seu alto controle chegou ao fim. Na noite anterior, ao perceber que ele saia do quarto com a namorada, Maria entrou no banheiro dele. Examinou o lixo e retirou duas camisinhas usadas recentemente. Chorando com os olhos e a alma, sem pestanejar, foi para frente do espelho e colocou a língua no preservativo, sugando gota por gota do líquido depositado ali. Fascínio. Ficou excitada. Começou a se masturbar.

Sabia que aquilo era o resto. Tinha certeza que nunca o teria por inteiro. Mas já não havia mais espaço para a razão em sua mente. No velocímetro agora a marca era de 180 km por hora. Já não havia mais sol. Já não havia mais vida. O carro acabara de se chocar de frente com um caminhão.

7 comentários:

  1. Eita!

    De repente vi o Nelson Rodrigues atravessando a estrada!
    Tenso!

    Abs

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  2. Vejo o caos como uma marca característica da literatura que você produz... Interessante, Adison.
    Valia um aprofundamento.


    Um abraço

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  3. Nossa, Adison! Gostei muito! Senti dó da Maria. Ninguém comanda um coração apaixonado e a insanidade mental que SEMPRE o acompanha! Triste fim...

    Texto intenso! Gosto desses... ;)

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  4. ¨Sabia que aquilo era o resto. Tinha certeza que nunca o teria por inteiro. Mas já não havia mais espaço para a razão em sua mente...¨ Ótimo texto. Consegui capta na figura transitória do personagem a marca fúnebre do seu desejo. Gostei do seu desfecho. Parabéns!

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  5. nossa, maria esta dentro de tantas mulheres....

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  6. Muito criativa tua história... intensa.

    Estou adorando teu espaço.

    Abraço

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  7. Aqui em minas esse trem de sacolinha com líqiudo dentro tem o nome de chup-chup!

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