domingo, 31 de julho de 2011

(Des)construção


A imagem refletida no espelho do banheiro era distorcida. O som emitido pela sua voz era dissonante.  Os seus sentimentos não eram os mesmos das pessoas com quem convivia. Mas mesmo assim, ele insistia em ser igual ao outros. Igual no amor, na dor, no erro, na alegria...  na vida.

Não admitia ser diferente, não queria fugir dos padrões, convenções e destino traçado. Queria mudar sua sina e começou a mentir para si mesmo. Fingiu gostar de futebol. Fingiu ter uma velha opinião formada sobre tudo. Fingiu amar, mesmo odiando. Fingiu tanto que acreditou na sua própria mentira. Mas a imagem no espelho continuava distorcida e o som de sua voz dissonante.

Mentiu, fingiu, inventou, desconstruiu e continuava sendo o mesmo.  Diferente. Estranho. Tudo o que eu queria era ser normal, pensou. Continuou fingindo e não obteve sucesso. Então, começou a se aceitar como realmente era e virou poeta.

quarta-feira, 6 de julho de 2011

Bem mais que seus 400 anos...

Na próxima sexta-feira (08), o município de Bragança, localizado no nordeste do Pará, a 210 Km de Belém, completa 398 anos. Minha terra natal, e lugar de grandes inspirações...

Cais do porto da cidade de Bragança- PA



Foi sobre duas rodas de uma bicicleta meia boca que eu desbravei os quatros cantos da cidade. Todos os bairros, todas as paróquias, ruas, pontes, ladeiras, toda Bragança. Um lugar que mais parecia a extensão do quintal da minha casa... Mas não era. Demorei a entender, que a cidade de hoje não é mais aquela de dez anos atrás, quando eu era garoto.

Bragança cresceu. E cresceu muito. De acordo com o último censo do IBGE, o município possui cerca de 113 mil habitantes e está entre os dez mais populosos do estado.  E isso é nítido em todos os bairros, paróquias, ruas, ladeiras... A cidade teve um inchaço populacional, se desenvolveu, mudou. E com as mudanças vieram ônus e bônus como o aumento da violência e o aparecimento de mais oportunidades de trabalho; o crescimento da miséria nos bairros mais distantes do centro e mais vagas no campus da universidade federal instalada no município; a perda de algumas tradições e a ampla divulgação do ritual da Marujada, que é muito mais conhecido em todo o mundo hoje do que na década anterior.

A cidade ganhou mais hotéis e ao mesmo tempo mais lixo, sem nenhuma fiscalização, foi jogado no Rio Caeté. E não foi só o Caeté que sofreu com a poluição e desmatamento, pelo menos meia dúzia de igarapés no bairro do Taíra viraram lenda, empurrados pela devastação das matas e a ausência do poder público. E o município continuou crescendo...

Prédios históricos foram destruídos enquanto renascia cada vez mais uma consciência coletiva de preservação entre os moradores. O número de veículos de comunicação aumentou e agora mesmo que timidamente, a periferia passou a ter voz. A bragantinidade, sentimento de acolhida de quem é nativo ou não, também cresceu. Bragança agora, mais do que nunca, é marca. E está nos pratos do Chef Ofir Oliveira, nas telas de grandes artistas locais, no artesanato da dona Zélia e de dezenas e dezenas de artesãs. Está na música, na dança, na farinha d’água mais famosa do estado, ah, a farinha...

Certamente hoje eu precisaria pedalar muito mais para percorrer toda a extensão da cidade, prestes a completar 400 anos. Um número simbólico para o governo municipal, mas que na prática é mais um aniversário da chegada (com controvérsias) dos primeiros europeus à região. O município merece muito mais que festa e autopromoção eleitoral pela passagem de seus quatro séculos.  Merece ser muito mais cuidado e respeitado pelo poder público, sem tirar a nossa responsabilidade, claro. Afinal, mesmo com todos os seus problemas essa cidade ainda continua inspiradora e apaixonante. Parabéns, Bragança!

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