quinta-feira, 30 de junho de 2011

Labirinto 3

Era uma quarta-feira de folga. Tão previsível como todas as quartas-feiras de folga para quem trabalha numa redação de jornal. O que havia de diferente naquela noite? Marcela fora chamada para fazer um freelancer num desfile de moda em Belém.  O convite partiu de um ex-colega de faculdade, que mesmo não gostando dela, sabia o quanto ela entendia do assunto. Era a pessoa ideal para a cobertura do evento.
Desde que começou a trabalhar na editoria de polícia, essa era a primeira vez que Marcela saia de casa com um bloquinho de anotações na bolsa com a certeza que não iria encontrar nenhum homicídio, nenhum cadáver na rua, nenhuma delegacia. Talvez as coisas estivessem começando a mudar. Pensou. Ainda existiam pessoas que acreditavam no seu talento de futura editora de moda. Sorriu. Deus, ou sei lá quem, ouviu minhas preces.
Ao chegar ao desfile, a jornalista encontrou um antigo namorado, que resolveu assumir sua orientação sexual e agora é noivo de um estilista argentino. É, as coisas mudam. E você, casou? Não, continuo procurando um amor, disse. Mas o que ela queria mesmo dizer era “agora entendo aqueles seus fetiches estranhos comigo”. Pediu licença e os deixou a sós.
Sentada na primeira fila do desfile, ao lado de uma importante colunista social da cidade e de um famoso político local, Marcela faz suas anotações no bloquinho e  pensa na visibilidade que este momento pode lhe proporcionar. Nada de mortes, nada de sangue, nada de delegacias, nada de páginas policias. Estava adorando aquilo.
Antes do último desfile da noite, uma coleção exclusiva de lingerie produzida pelo argentino namorado do seu ex-namorado, seu telefone toca. Na tela do celular, uma mensagem do editor de polícia do jornal em que trabalha. Marcela ignora. As luzes apagam. Um som de três disparos de tiro é ouvido no local. As luzes voltam. A correria é geral. Ao seu lado o corpo do famoso político local com os miolos estourado. No telefone a mensagem: “recebemos uma denúncia sobre um atentado contra um famoso deputado que estará no mesmo evento que vc, pode entrar em contato comigo?” 

quinta-feira, 23 de junho de 2011

Quanto vale o amor?

Fonte: Google imagens

A placa com a mensagem em vermelho “Fazemos amor por 30 reais, tratar aqui”, colocada em frente à casa de Melissa dos Anjos, chama a atenção de quem caminha pela passagem das Flores, no bairro de Fátima, em Belém. Segundo a jovem negra, com cabelos tingidos de louro, desde que a mensagem foi colocada na porta, não faltam clientes. “Todo mundo sabe que eu sou garota de programa. E eu não tenho vergonha nenhuma disso, pelo contrário”, afirma Melissa, travesti que veio do interior do Amazonas e há cinco meses briga com os vizinhos na Justiça para a permanência da placa no local. “Isso é um desrespeito às famílias de bem daqui do nosso bairro. Não temos nada contra o que ela faz. Mas não admitimos exposição dessa falta de vergonha aqui na rua”, alega dona Helena Santos, uma das vizinhas que luta na Justiça para a retirada da placa.

A casa de madeira com três cômodos, situada em uma rua de chão batido, não apresenta nenhum conforto. O imóvel é herança de uma tia de Melissa que também ganhava a vida vendendo o corpo. “Minha tia sempre foi um exemplo pra mim. Ela foi a única pessoa na minha família que apoiou a minha orientação sexual”, diz a travesti, emocionada ao lembrar da tia, assassinada ano passado durante uma briga na boate que trabalhava, no centro da cidade.

Melissa nasceu com o nome de Francisco Monteiro dos Anjos. Mas, desde que começou a se entender como gente, sempre se achou estranha em seu corpo. “Eu não era um menino, apenas tinha um corpo de menino. Com o tempo fui compreendendo e aceitando a minha natureza, a minha verdadeira orientação sexual, que era ser mulher”, afirma. Hoje, aos 23 anos, a jovem que escolheu o seu novo nome após ver um comercial de uma sandália na TV, gosta do trabalho que faz e se diz feliz com a vida que tem. E apesar dos problemas com os vizinhos, acredita que vai ganhar a causa. “A placa não ofende ninguém. Eu não uso palavras como sexo, prostituição ou coisas do tipo. A mensagem fala de amor. Tem cliente que vem aqui paga 30 reais, tira a roupa e nem toca o meu corpo. Vem apenas porque se sente bem ao meu lado e sabe que encontra aqui alguém que o escuta”, revela.

E se por acaso a placa for mesmo retirada? Melissa tem uma ideia. Vai colocar uma nova placa sem informação de preços. “A mensagem será: Neste lar celebramos o amor. Só isso, sem colocar quanto ele custa. E isso, a Justiça não pode me impedir. Ou pode?”, questiona. E quanto vale o amor? Aí ela fica tímida, reflete um pouco e responde “Eu cobro 30 reais, mas o amor vale aquilo que você paga por ele”.