sábado, 16 de abril de 2011

Labirinto 2

A rotina de toda manhã é a mesma. Marcela acorda às 10h, escova os dentes, toma café com leite e pão torrado, escova os dentes novamente e volta a dormir. Antes disso, programa o despertador para 11:20h. Só que desta vez, a rotina foi quebrada com uma mensagem no telefone celular. “Parabéns pelo seu recorde no jornal: Você chegou à marca de 130 homicídios em menos de seis meses”.

A mensagem era macabra. Mas, infelizmente, verdadeira. Mesmo que não tivesse coragem de contar, sabia que já havia acompanhado mais de cem mortes desde que começou a trabalhar na editoria de polícia. E se ainda ficava assustada com esses números, o mesmo não podia se dizer do seu editor-chefe. A mensagem foi enviada por ele.

130 mortes. Para muita gente eram apenas números. Mas para ela, não. Marcela sabe o quanto cada uma significou. Quantas mães, quantos filhos, quantas lágrimas, quantas dores testemunhou de perto. 130 mortes. 130 pessoas. 130 vidas. Até quando? Até quando?

Por um minuto pensou que tudo não passava de um pesadelo. Que tudo isso nunca existiu. Que não era uma repórter policial. Que todas as noites que trabalhava não havia homicídio. 130 assassinatos. Não... Não podia ser. Mas era verdade.

Lembrou que na noite passada, enquanto lanchava num Fast Food, encontrou um ex-colega da faculdade que não via há muito tempo. Entre uma conversa e outra, uma insinuação e outra, ele prometeu a ela uma vaga na produção de um programa de TV que acabara de assumir a função de editor-chefe. Marcela esboçou um sorriso. Pegou a agenda onde havia anotado o número dele. Essa poderia ser sua grande chance. “130 homicídios em menos de seis meses”.

Sabia que a tal vaga na produção de TV não seria de graça. Tinha certeza que teria que dormir com ele para conseguir o emprego. Sentiu nojo. Nunca havia feito sexo com ninguém que não gostasse. E sabia que sem sexo não haveria contratação. Mas precisava fazer isso. Não aguentava mais ver tanto assassinato. Odiava o seu trabalho.

O programa de TV em questão era uma revista eletrônica diária. Pautas leves, música, literatura, moda, não precisaria mais fazer ronda diária em delegacia. Não era o que sonhara, mas pelo menos era o mais próximo possível. Recordou de todas as oportunidades fracassadas que teve. Esboçou novamente um sorriso. Sim, essa poderia ser a chance que estava esperando. Ligou para ele.

Do outro lado da linha um tom de voz completamente diferente daquele que falou com ela na noite anterior. O que aconteceu? Havia perdido o emprego. O diretor geral da TV descobriu que ele não era gay e só estava dormindo com o diretor para se manter no cargo. E já que a verdade veio à tona, agora era mais um desempregado. “Você conseguiria alguma indicação de trabalho para mim? Qualquer coisa?”, perguntou o ex-colega. Ela desligou o telefone. “130 homicídios”. Precisava dormir, precisava recuperar a noite que passou em claro. Afinal, o seu trabalho continua.