segunda-feira, 21 de março de 2011

Labirinto


O corpo estendido sobre o asfalto molhado era o terceiro em menos de duas horas de plantão. Marcela sabia o quanto a noite ainda seria longa. O número de mortes ainda não estava na média dos plantões do final se semana na editoria de polícia. Marcela respira fundo, pega o bloquinho de anotações, se aproxima do corpo e balança a cabeça com sinal de positivo para o fotógrafo que a acompanha.

Justo ela. Justo quem sempre sonhou em ser editora chefe de uma revista sobre moda. Que chegou até a participar de um intercâmbio na França na época que fazia faculdade. Que tirou nota excelente na monografia sobre o papel da imprensa na divulgação do movimento tropicalista. Que chegou a morar um ano em São Paulo participando de um programa de treinamento para jornalistas recém-formados numa das maiores editoras do país. E que sempre detestou o caderno de polícia.

Mas quem disse que a ironia do destino poupa alguém? Agora Marcela era repórter da editoria que sempre odiara. E por mais frustrada que fosse não poderia deixar isso transparecer. Afinal, era através desse trabalho que ela pagava suas contas. Já não havia mais os pais que sempre acreditaram e bancaram o sonho dela. Agora era uma mulher feita, e após a quinta tentativa fracassada, dessa vez numa revista de cultura pop em Porto Alegre, ela voltou para Belém e decidiu que não iria pedir mais nenhum centavo para os pais.

Morava sozinha num apartamento de apenas um cômodo, onde uma geladeira, uma cama de solteiro, um fogão de mesa e uma estante cheia de livros de História da Moda à Foucault ocupavam 99% dos escassos metros quadrados. Era pouco, muito pouco para quem sempre sonhou com muito. Mas pelo menos, era mantido com o seu próprio suor. E mesmo sem acreditar em Deus, agradecia a algo por tudo que havia conseguido na vida.

O corpo continuava estendido no chão. E apesar de uma multidão ao redor do cadáver, ela conseguiu apenas depoimentos de policiais. Ninguém queria falar nada. E se quisessem, eram contidos pelo medo. Coletou o nome da  vítima, os dados do homicídio, ouviu pela décima vez a piadinha sem graça do fotógrafo, entrou no carro e foi embora. No rádio, um aviso que mais um homicídio acabara de acontecer.

quinta-feira, 10 de março de 2011

Confissões de carnaval


Era o primeiro carnaval que os dois passavam juntos. Ele havia planejado tudo. Escolheu a cidade que iriam se hospedar, a trilha sonora que ouviriam em toda a viagem, os acessórios sexuais que comprara pela internet, a aliança que parcelou em três vezes no cartão de crédito da mãe. Nada podia dar errado.
Ela parecia não acreditar no que estava acontecendo. De dentro do quarto de um hotel no centro histórico da cidade de Cametá, em frente ao Rio Tocantins, só se ouvia marchinhas de carnaval. Lá fora uma lua cheia tinha um brilho tão intenso quanto o desejo dos dois. Ele parecia transbordar de felicidade. Ela não falava nada, respondia tudo como um sorriso tenso, quase que automático. Ele não compreendia a maneira como ela reagia, mas não a questionava. Queria aproveitar cada minuto daquele momento.
Fizeram amor, uma, duas, três vezes. Ele queria que o tempo parasse. A lua continuava a brilhar. Ele perguntou se ela estava feliz. Ela respondeu sem palavras. Ele começou a falar de casamento. Ela pediu para mudar de assunto. Disse que tudo ainda era muito novo e não pensava em casar. Ele insistiu, falou que os seis meses que estavam juntos representava muita coisa. Acreditava que nada mais iria separá-los. Ela agiu de maneira ríspida, não queria falar de casamento.
Ignorando seu pedido, ele pegou as alianças do bolso da mochila e a pediu em noivado. A lua brilhava lá fora. Ela disse para ele não fazer isso, pois não queria magoá-lo. Ele fingiu não ouvir e a abraçou. Ela o empurrou e saiu correndo do quarto, ainda nua.
Ele saiu atrás. Ela correu em direção ao cais do porto. Disse que iria se matar. Ele ficou desesperado. Ela gritou novamente. “Vou me matar de felicidade. É claro, que aceito”. Os dois se abraçaram, se beijaram e fizeram amor ali mesmo, ao som das marchinhas de carnaval.

quinta-feira, 3 de março de 2011

O dito, o ouvido e o falado

Todos nós assistimos. Alguns em tempo quase real. Amazonino Mendes, governador do Amazonas, falou em alto e bom tom para uma moradora de uma área de risco em Manaus “Morra, morra!”. Além disso, agiu de forma preconceituosa quando ela disse que era paraense, mandando um famoso “Tá explicado!”. Mas, depois de algum tempo, tomada as devidas orientações, deu uma entrevista dizendo que não foi bem isso que ele quis dizer.

Todos nós ouvimos. Alguns em tempo real. Boris Casoy falando da bancada do jornal da Band "Que merda: dois lixeiros desejando felicidades do alto da suas vassouras. O mais baixo na escala do trabalho." Mas depois, obviamente, de tomar todas as precauções jurídicas, disse que não era bem aquilo que queria dizer. E tudo ficou como dantes.

No reality show mais visto do país, são comuns as famosas pérolas de cunho homofóbico, racista e machista de alguns participantes. Mas após saírem do programa, falam na maior tranquilidade e sorriso de bom-moço que não foi bem isso que eles quiseram dizer. Mas, afinal, quando é que se diz realmente o que se quer dizer?

É válido xingar, ofender, mandar morrer e depois dizer que não foi bem isso que foi dito? Mas de fato, quando as coisas são ditas? Se é que são ditas. E se não ouvimos direito? E se?... Ao usarem argumentos como “não foi bem isso que eu falei” essas pessoas além de desmentir o que disseram, ainda colocam em dúvida nossa capacidade de raciocinar.

A criminalização da pobreza esteve presente tanto no infeliz comentário do jornalista da Band quanto no discurso incipiente do gestor do Amazonas. Não há dúvida. E foi exatamente isso mesmo que eu disse. Ah sim, e antes de qualquer dúvida, é válido uma ratificação. Foi isso mesmo que eu quis dizer