quarta-feira, 19 de janeiro de 2011

Imprevisível

Após uma intensa noite de amor, ela senta na cama, acende um cigarro, olha para o fundo dos olhos dele, que acabara de acordar, e pergunta. Como você se vê daqui a dez anos? Ele sorri sem entender, esperando que ela também dê um sorriso. Mas ela o encara. E com ar de seriedade repete a pergunta.

___Como eu me vejo daqui a dez anos?

Em 24 anos de vida, ele jamais ouviu essa pergunta assim, diretamente, explicitamente, sem rodeios, na lata! Logo ele, logo o cara mais “carpe diem” do mundo, alguém que jamais sequer pensou como seria o dia de amanhã. O que importava o futuro? Para que saber como a vida será daqui a uma década?

O silêncio dele a fez levantar da cama. Também em silêncio ela começou a vestir sua roupa e ignorar a presença dele no quarto.

___Para que diabo interessa saber como eu vejo daqui a dez anos?_disse ele, quebrando aquele silêncio ensurdecedor do quarto.

___Em dez anos me vejo concluindo o doutorado na França, com dois filhos e um romance publicado. É simples! _disse ela, sem olhar em nenhum momento para o rosto dele.

__Por que vocês mulheres são assim? Por que vocês fazem tempestade num copo d’água? E pra que? Pra nada.

___Era apenas um pergunta. Você poderia ter milhares de resposta. Mas sabe por que não respondeu? Por que não tá nem aí para o futuro? Por que não tem um pingo de responsabilidade! Por que tá cagando pra como será a vida daqui a 12 horas!

__É exatamente isso. Eu vivo como se não houvesse amanhã mesmo. E nunca vou ficar preso a planos e projetos medíocres visando apenas dinheiro.

Ela chorou. Olhou para os olhos dele e repetiu três vezes a palavra “imaturo”.

Ele abriu a porta do quarto. Ela saiu, ainda arrumando a alça do sutiã.

Ele voltou para a cama.

Depois de dois minutos ela retornou. Bateu na porta e começou a gritar.

Esse aqui é o meu quarto. É você que deve sair.

Ele foi embora.

Foi a primeira e a ultima vez que se viram.

3 comentários:

  1. Encontros e desencontros...

    Parece que as decisões da vida são como uma fotografia, que impõe todo peso em apenas um momento, um clic.. talvez se fosse em outro momento ele é que faria a ceninha.

    Coisas das coisas da vida.

    Abraço e parabéns!

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  2. Adorei o texto.
    Uma única pergunta tem por trás muitas intenções, e provavelmente a dela era saber, de fato, com quem ela acabara de se deitar.
    Pela (ausencia) de resposta, ela tirou suas próprias conclusões.

    Parabéns, o blog é muito bom!
    Já tô seguindo.
    Beijos ;*

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  3. A questão é:

    Por que ela se deitou com um homem que não sabia quem era? Realmente importa saber isso agora? Se ele é uma pessoa que não liga para nada, ela não tem que ficar fazendo perguntinhas "com ar de maturidade", pra que essa inocência, se ela sabe que tudo não passou de _sexo_?
    Essa personagem me parece uma pessoa fraca e confusa...

    Mas o texto está excelente. Você escreve muito bem. Parabéns! :)

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