quarta-feira, 28 de dezembro de 2011

As guardiãs do ritual


Donas-de-casa, empregadas domésticas, feirantes, costureiras. Mulheres que passam o resto do ano vivendo a margem da sociedade assumem um papel de inversão social durante o ápice da Festividade de São Benedito de Bragança-PA, realizada entre os dias 18 e 26 de dezembro. É neste período que elas se tornam as protagonistas da cidade, através do ritual da Marujada. Uma manifestação popular que ocorre há 214 anos no município.
O ritual teve inicio no século XVIII, em 1798. De acordo com os historiadores, tudo começou quando alguns escravos, em manifestação de agradecimentos aos senhores que permitiram a fundação de uma irmandade para louvar São Benedito, começaram a dançar em frente aos casarões da época. “De lá para cá, a tradição permaneceu viva na identidade e no cotidiano dos moradores de Bragança. Tornando-se uma das manifestações culturais de maior resistência na Amazônia”, explica o historiador Dário Rodrigues.

A Marujada proporciona à mulher uma valorização jamais vista em outras manifestações culturais de caráter popular. A luxuosidade e o colorido presente nas roupas das marujas chamam a atenção de qualquer espectador. A saia rodada, a blusa branca rendada e o chapéu coberto de plumagem e enfeitado por longas fitas coloridas na parte de trás, compõe a vestimenta típica delas e afirmam quem são as protagonistas da festa.

Aos homens, cabe um papel secundário. Em relação a elas, os marujos são meros acompanhantes de dança. A roupa deles é nitidamente mais simples. Calça branca, camisa de manga comprida branca ou azul, dependendo do dia da apresentação, além de uma fita amarrada ao braço esquerdo e um chapéu de palha revestido por tecido branco. “Tudo como manda o figurino”, afirma dona Araci Corrêa, capitoa da Marujada. Principal cargo hierárquico da manifestação, uma espécie de chefe das outras marujas.

Ex-vendedora de mingau, dona Araci decidiu ser maruja pela forte identificação que sempre teve com os rituais em homenagem a São Benedito. “Quando eu era criança e olhava aquelas marujas dançando eu ficava encantada, achava muito bonito ver aquele pessoal dançar e dizia pra todo mundo que quando crescesse eu ia ser maruja”, conta emocionada.

Vivendo atualmente numa cadeira de rodas e impedida de trabalhar de “mingauzeira” na feira da cidade devido a uma amputação na perna causada por problemas relacionados ao diabetes, ela teve sua rotina completamente alterada após o acidente. “Eu só parei de trabalhar por causa dessa perna, não dá pra sair todo dia de manhã pra vender mingau. É muito ruim ficar aqui nessa cadeira. Eu nunca fui de ficar parada”, desabafa.

Mesmo com a perna amputada e impedida de dançar, dona Araci faz questão de acompanhar todos os rituais da Festividade de São Benedito. Sem nenhuma modéstia, ele lembra o quanto dançava bem todos os ritmos da Marujada. Xote, retumbão, mazurca, chorado, valsa, contradança. Com uma prótese mecânica, adquirida com a ajuda de amigos, ela consegue ficar em pé e acredita que um dia poderá voltar a dançar. “Enquanto isso, eu me balanço aqui mesmo sem sair do lugar”, diz com um sorriso de uma criança que acabara de ganhar um brinquedo.

O mesmo brilho dos olhos com que dona Araci fala da manifestação é visto no olhar de da costureira Maria do Socorro Sousa, 41 anos, que participa do ritual desde criança. “Eu comecei a ser maruja no colo da minha mãe. Desde os dois anos de idade. Ela fazia questão que eu saísse vestida igual ela no dia da festa de São Benedito”, lembra emocionada. O amor pela tradição atravessou gerações. Hoje, Maria que faz questão que a neta dela, de três anos, esteja vestida a caráter no principal dia da festividade bicentenária.

E existe idade para parar de dançar na Marujada? “Claro que não”, responde a vice-capitôa,
Ozarina Mescouto, 66 anos, que participa há 45 anos da manifestação. Para ela, o ritual é uma necessidade para a vida. “Eu não sei se conseguiria viver sem participar da Marujada. Isso é um dos maiores prazeres que eu tenho na vida. Eu só penso em parar de dançar quando eu morrer”, afirma. “A Marujada é tudo para a gente, é a época que eu me sinto mais valorizada na cidade”, completa a aposentada Almerinda da Silveira, 68, que participa há três décadas da festa.

Segundo o historiador Dario Rodrigues, a inversão que as mulheres proporcionam na cidade durante os dias da festividade de São Benedito é nítida não apenas no caráter visual e na quantidade, mas na relação social que elas passam a exercer. “São as mulheres que abrilhantam a festa. A elas cabe o papel de abrir e fechar as danças da Marujada”, explica.

Inversão social que dona Sandra Oliveira, 41 anos, sente na pele. Maruja desde os 11 anos de idade, a empregada doméstica que mora em Belém há duas décadas, faz questão de viajar para Bragança todos os anos para exercer o que ela chama de “obrigatoriedade de devota”. Vaidosa, ela prepara com meses de antecedência todos os colares e adereços que vai usar durante a dança. “Eu danço e rezo ao mesmo tempo. Sou devota de São Benedito e uma das marujas dele. E para mim, participar da festa e dançar todos os anos significa prestar minha homenagem ao santo preto da maneira mais bonita possível”, diz emocionada.

sábado, 17 de dezembro de 2011

Vulcão

Avenida Nazaré - Belém-PA
Fechou os olhos, respirou fundo e contou até três. Estava decidida. Sentada sobre o parapeito da janela de um arranha céu, encarava o chão com a certeza de ter tomado a melhor decisão de sua vida. Abaixo dela, a Avenida Nazaré, com suas veias pulsando dióxido de carbono entre mangueiras. Não havia mais motivo para viver. Precisava fazer o que havia prometido a si mesma.
A cena do suicídio foi toda planejada. Em seu apartamento, cartas espalhadas no chão da sala explicavam em detalhes o motivo de sua decisão. Incensos de mirra colocados por toda a casa davam o aroma aos últimos minutos de sua vida. Um disco de Bob Dylan, presente de aniversário de dois anos de namoro, foi escolhido para ser a trilha sonora da despedida.
Assim que inclinou seu corpo para frente na intenção de se jogar da janela, uma gota de água caiu sobre seu rosto. Por alguns segundos pensou em desistir. Lembrou de diversas chuvas caindo sobre as mangueiras da rua que testemunhou de seu apartamento. Lembrou dos inúmeros banhos que tomou nas tradicionais chuvas da tarde.
Porque iria dar um basta em sua vida? Justo ela. Justo quem sempre disse que adorava viver intensamente.     Quem sempre fez planos para o futuro. Quem sempre afirmou que jamais iria se matar. Não! Não vou voltar atrás. A minha decisão já foi tomada e agora é tarde para se arrepender.
Não havia mais motivo para viver. O suicídio seria apenas uma forma de antecipar uma morte lenta e gradual. Sua vida acabou desde que soube que estava com o vírus HIV. Agora, a única coisa que restava era evitar os sofrimentos futuros. É, acho que essa chuva não foi em vão. Vai dar um ar poético a meu adeus. Foi bom enquanto durou.
Fechou os olhos, respirou fundo e contou até três. O exame deu negativo. Não havia motivo para desespero. Não estava em seu apartamento, muito menos numa janela de um edifício no centro de Belém. Estava na sala de espera de um hospital. Suicídio? Desesperança? Tudo coisa da minha cabeça. Sorriu aliviada, agradeceu a Deus, mesmo sem acreditar nele e jogou na lixeira da sala todas as 20 cartas que tinha feito explicando o motivo de seu suicídio.

quarta-feira, 14 de dezembro de 2011

Ensaio


Fazia três semanas que não havia diálogo, nem sexo, nem troca de olhares entre eles. Não existia mais motivo para ficarem juntos. O relacionamento de cinco anos chegou ao fim. As brigas diárias acabaram com algo que foi planejado para ser eterno. Agora, só o que restava, era uma conversa civilizada para oficializar a decisão.

 Sentaram um de costa para o outro na cama e após alguns minutos de silêncio, resolveram iniciar o que seria a último contato entre os dois. “Vamos ser diretos e objetivos”, disse ele, quebrando o silêncio ensurdecedor daquele quarto. “Desde que tudo ocorra bem e rápido, eu aceito”, respondeu. “Foi bom enquanto durou”, continuou ele.  “Nossa, isso é tão clichê”, comentou ela, em tom irônico. Ele tentou ri, mas foi contido pelo clima de tensão do momento e fingiu que não ouviu o comentário.

Acertaram as pendências financeiras do apartamento, dividiram alguns móveis comprados no último dia dos namorados e afirmaram que jamais iriam ligar nem procurar um ao outro. O diálogo durou pouco mais de seis minutos. Estava tudo acertado. Ela iria ficar no apartamento até a venda do imóvel ser concretizada e ele iria voltar para a casa dos pais.

Levantaram da cama na mesma sintonia e na mesma hora e saíram do quarto sem trocar nenhum tipo de olhar. Na sala, ele pegou as malas que estavam prontas desde a noite passada, abriu a porta e foi embora sem olhar para trás. Ela ainda tentou falar alguma coisa, mas resolveu não abrir mais a boca. O fato estava consumado.

Cinco anos. Muitas histórias. Um fim. Não tinha mais como voltar atrás. Assim que ele bateu a porta ela começou a chorar. Quem sabe eles não poderiam recomeçar mais uma vez, assim como foram todas as outras crises, pensou. Mas já era tarde. Ele acabara de partir no carro.

Sentaram um de costa para o outro na cama e após alguns minutos de silêncio, ele perguntou por que ela estava tão pensativa. “Eu estou falando com você há algum tempo e você não me ouve. Está tudo bem?”, questionou ele. Ela virou em sua direção e com os olhos lagrimados o abraçou e pediu para eles esquecerem essas brigas. “Vamos começar tudo de novo”, disse ela. Ele retrucou um pouco, disse que esta seria a última chance, confessou que não sabia mais viver sem ela, se abraçaram e fizeram amor ali mesmo.

quarta-feira, 23 de novembro de 2011

Nós Três

Fonte: Google imagens

Seis horas da manhã. O despertador toca. Ele acorda. O dia amanhecera com chuva. Levanta, vai ao banheiro, escova os dentes, faz a barba, se masturba pronunciando o nome do melhor amigo, toma banho e em seguida começa a se arrumar para o trabalho.

Calça as meias, os sapatos, veste a melhor camisa, o terno mais novo, a calça que comprara no dia anterior e coloca a gravata que ganhou de presente da esposa. Se olha no espelho, ajeita a gravata, arruma o cabelo e começa a falar sozinho, repetindo cinco vezes a frase que ensaiou durante toda a semana. Eu quero o divórcio porque estou apaixonado por um homem.

Seis e meia da manhã. O despertador toca novamente. Ela acorda, faz o sinal da cruz, olha para o lado e não vê mais o marido. No lugar dele, duas malas de viagem a fazem companhia na cama. Pergunta para si mesma o que está acontecendo, mas não consegue responder, desliga o programador automático do despertador e volta a dormir. Detesto quando ele não desprograma o relógio dessa merda.

Seis e quarenta e dois da manhã. Ela é acordada pelo marido. Ao abrir os olhos vê um homem todo arrumado segurando duas malas e com um sorriso de medo. A convivência de sete anos de casados a fez identificar cada reação dele. E o sorriso de medo era sinal de que ele tinha algo muito importante para falar.

Fechou os olhos novamente e perguntou o que ele queria. O divórcio. Ela abriu os olhos. O quê? Isso mesmo, eu quero me separar de você porque estou apaixonado por um homem, respondeu. Ela ficou boquiaberta, por alguns segundos pensou que estava sonhando, olhou no fundo dos olhos dele e disse que não havia entendido. O divórcio. Não havia mais motivos para estarem juntos.

Durante a conversa foi revelado que o tal homem que ele se referia era um amigo em comum do casal. Ela sorriu aliviada. Ele não entendeu a reação dela. O homem que você está apaixonado é meu amante há mais de um ano, disse a esposa. Ele ficou boquiaberto. Ela pediu para ele desarrumar as malas e disse que não havia mais motivo para o divórcio. Os três poderiam morar juntos e tudo iria se resolver.

A campainha tocou. Lá fora o amigo em comum. Havíamos combinado de ir juntos para a nossa nova casa agora pela manhã, disse ele. Isso não será mais preciso, já que seremos um triângulo amoroso do bem, respondeu a esposa. Com muita serenidade, ela pede para o marido tirar a roupa e esperar na cama enquanto ela vai receber a visita. Ele obedece. Sempre sonhou em fazer sexo a três.

Assim que ela abre a porta da casa, o amigo toma um susto. Ele esperava a recepção do marido. Ainda de camisola e com a mão direita para trás, escondendo algum objeto, ela diz que está muito carente e pede um abraço demorado para o amigo em comum. Os dois se abraçam e ela sussurra em seu ouvido que o ama muito, mas jamais vai perdoar uma traição. Ele finge não entender e diz para ela repetir. Eu fui traída por vocês dois, respondeu. Antes do amigo reagir, ela aproveita a oportunidade e enfia uma faca nas costas dele. A perfuração o mata na hora. 

Com muita frieza, ela sorri, retira a faca enfiada nas costas do amigo, limpa o sangue com a própria camisola e volta nua para o quarto, dizendo que o amigo foi embora, mas em breve os três vão morar juntos. O marido agradece a compreensão dela e diz que não sabe como agradecer. Os dois transam. Ela sai do quarto e pede para ele fechar os olhos e contar até dez, enquanto prepara uma surpresa. Ele obedece. E antes dele chegar ao número sete, ela o mata, utilizando a mesma faca que assassinou o amigo. Após se certificar que ele está morto, ela sorri novamente, empurra o corpo da cama, faz o sinal da cruz pela segunda vez e volta a dormir. 

quinta-feira, 13 de outubro de 2011

O fenômeno de Cametá

É entre sacos de farinha d’ água numa barraca na feira livre de Cametá, município localizado a 150 km de Belém, que o cantor e feirante Bernadino Sena da Cruz, 53 anos, comercializa seus discos. Desde 2000, ano em que começou a fazer suas composições Dino Sena, como é conhecido, acumula mais de 120 músicas e já gravou 21 CDs autorais. A inspiração para as canções vem de todos os lugares, de sonhos a notícias no jornal, de histórias contadas em praça pública a filmes na televisão.

De visual estiloso, com trancinhas rastafári, adereços coloridos e um linguajar caboclo, ele faz questão de narrar cada história que existe por trás de suas composições antes de cantar. Em dez anos de carreira seu maior sucesso é a música “Sharon Stone”, feita em homenagem a atriz norte-americana com o nome título da canção. “Eu estava assistindo o filme O Vingador do Futuro na televisão quando a beleza daquela mulher me encantou. E então eu disse, porque não fazer uma música pra ela? E então decidi fazer uma homenagem pra essa musa do cinema. Foi assim que nasceu a música mais conhecida da minha carreira”, afirma.

Dino Sena já compôs mais de 120 músicas

Na letra de “Sharon Stone”, Dino Sena declara seu amor pela atriz e diz sentir inveja do ator Arnold Schwarzenegger, que contracena com ela no filme. Nas estrofes da música frases como “Me dá inveja do Árnou Esfacenégar, o vingador do futuro, beijando os teus lindos lábios, amaciando teus lindos seios. Quase morro de paixão...” mostram com clareza a irreverência contida nas letras de suas composições. Uma das suas principais características.

Sua primeira música surgiu após um sonho, considerado por ele uma luz divina. Desde então, não parou mais de compor. Ele afirma que possui guardado em sua casa um estoque de músicas inéditas que ainda pode render mais uns três discos. E isso já está em seus planos. Pretende gravar os próximos CDs da mesma forma que gravou os demais, pagando todas as despesas de seu próprio bolso, do pouco que ganha como vendedor de farinha.

                                  Clipe da música Sharon Stone, gravado na cidade de Cametá-PA

Fã de Roberto Carlos e Elvis Presley, suas maiores referências, Dino acredita que o artista não deve fazer apenas um estilo de música. Tanto que o ecletismo presente em suas canções varia do bolero ao samba de raiz e do forró ao reggae . “Eu gosto de fazer música de todos os ritmos. Pintou a inspiração na minha cabeça eu faço, pode ser brega, lambada, forró ou até samba enredo. Já fiz música falando de chuva, de casos policiais, de mulher que abandona o marido, de cachorro perdido e ixi!... não tem conta. É por isso que eu sou o fenômeno da música de Cametá”, garante.

Atualmente Dino se prepara para o maior desafio da sua carreira. Enfrentar 2.933 km de ônibus de Belém a São Paulo para divulgar o seu trabalho. E tudo isso, sozinho. “Quando eu chegar lá, vou bater cada dia numa porta de uma emissora de televisão. Se for preciso ficar sentando na calçada eu vou ficar. Sei que vai ser difícil, mas preciso mostrar meu trabalho lá fora”, conta. A viagem já estava programada há muito tempo, mas somente agora conseguiu realizar seu sonho. Na bagagem algumas roupas, o inseparável violão e os 21 CDs gravados.

segunda-feira, 10 de outubro de 2011

Cinco corpos e um desejo

Fonte: Google imagens

Maria, Guilherme, Antônia, Pietra e Henrique. A celebração do amor, o jubilo do gozo, a liberdade escancarada ao prazer. Cinco corpos numa cama. Dez mãos descontroladas. Um desejo realizado. A descoberta do sexo coletivo, a troca de caricias em grupo, libido em êxtase, a entrega total... Não, pára. Não, pára. Não, pára...

Era a primeira vez que os amigos faziam uma orgia. A ideia havia sido cogitada há tempos, mas só agora se realizava. Dez pernas descontroladas. Enquanto Maria beija a boca de Pietra e Henrique morde a bunda do Guilherme, Antônia se deleita masturbando Henrique ao mesmo tempo em que chupa a vagina de Maria. A troca de posição é constante. Agora é Pietra que ocupa o lugar de Antônia, enquanto é penetrada por Guilherme, que é penetrado por Henrique. Não, pára. Não, pára. Não, pára... Maria goza pela primeira vez.

Em pensar que tudo isso começou com a ideia de um blog coletivo sobre contos eróticos. No início os amigos tinham apenas uma relação virtual, mas com o passar do tempo as relações foram sendo geograficamente mais estreitadas e agora, mais do que nunca, estreitadas entre quatro paredes. Cinco bocas descontroladas. Antônia morde a bunda de Henrique enquanto lembra o quanto era recatada antes de escrever para o blog. Guilherme continua sendo penetrado...  O gemido de Pietra é ouvido em toda a vizinhança. Maria goza pela segunda vez.

Todos estão sóbrios. A sobriedade é mesmo uma loucura, pensa Henrique. A cama é pequena para tanto prazer e eles ocupam todo o chão do quarto, que também fica pequeno. Não existe culpa nem culpados, somente gemidos e entrega. Não, pára. Não, pára. Não, pára... Agora o gozo é coletivo.

Maria comenta que aquele momento poderia inspirar um conto. Guilherme liga o computador e ainda com as pernas bambas e o coração acelerado, começa a escrever. Ele sugere que cada um escreva um parágrafo. Um texto feito a dez mãos, cinco corpos nus, bocas descontroladas, pernas enlouquecidas e cheiro de orgasmo. A entrega começa mais uma vez. E a cada pausa, um deles escreve este conto.

segunda-feira, 3 de outubro de 2011

Doze minutos


Foram doze minutos. Contados um a um para que tudo chegasse ao fim o mais rápido possível. Não havia amor, não havia sentimento, não havia libido, não havia prazer. Apenas uma vontade enlouquecida de se vingar. Na sua frente, um homem desconhecido que há poucas horas atrás ela jamais sabia que existia. Em seu semblante, a imagem da indiferença.

Era a primeira vez que fazia sexo sem amor. Doze minutos. 720 segundos. Nenhum sentimento. Tudo culpa dele, custava ter me levado para o final de semana na praia. Fui abandonada e trocada por meia dúzia de amigos de infância. Ele precisa levar o troco. Foi pensando assim que ela convidou o primeiro desconhecido que encontrou num site de relacionamentos para fazer uma visita em sua casa. Deixou claro que queria apenas sexo e que era uma mulher “extremamente racional”.

Assim que o desconhecido, um homem com o dobro de sua idade, entrou em sua casa não trocaram mais de oito palavras, foram direto ao quarto e começaram a se despir. Extremamente racional quem? Eu? Nem que tentasse, não havia como negar seu sentimentalismo. Mesmo com toda a frieza do encontro, era visível o olhar de abandono e carência em que ela se encontrava.

Abriu as pernas. Doze minutos de silêncio, quebrado de vez em quando pelos gemidos e gargalhadas do desconhecido. A vingança havia sido consumada. No rosto do homem, o gozo de satisfação. E antes dele concluir a frase pedindo uma segunda vez, ela o interrompeu e na mesma hora o mandou embora de casa.

Foram os piores doze minutos da sua vida. Assim que o desconhecido saiu, ela começou a chorar desesperadamente. Estava arrependida, mas não havia como voltar atrás. A vingança havia sido consumada. Sexo por vingança. 720 segundos. A campainha da porta começa a tocar insistentemente.

Imaginando que ainda é o homem, abre a porta ainda nua e antes de olhar em direção a visita começa a gritar. Vai embora daqui, você já fez o que tinha de ser feito. Fiz o quê, amor? Disse seu namorado, com um buquê de flores na mão. Eu vim aqui te buscar para a gente ir à praia. Estava brincando com você quando disse que iria sozinho. Queria fazer uma surpresa. Afinal, amanhã a gente faz três anos de namoro. Não é?

quinta-feira, 8 de setembro de 2011

Amor em tempos de pós-modernidade

Fonte: Google imagens


No relógio, 29 horas. Na rua, pessoas apressadas andando de um lugar a outro e indo a lugar nenhum. Todos falam. Ninguém se ouve. Nas fábricas, não há mais quem defina o que é máquina do que é gente. O dia agora possui 36 horas, mas ainda existem reclamações de que isso é muito pouco tempo.

 A estética é a ideologia que impera. Agora tudo é pós. Pós-moderno, pós-tecnologia, pós-capitalismo, pós-crença, pós-sucesso, pós-humanos, pós-vida. Ninguém se ouve. Todas as relações são liquidas. Todos falam. O amor se industrializou e se transformou em mera reação química, com fórmula e patente, vendido em cápsulas de 6 ml em qualquer farmácia. Ama quem pode pagar. Paga quem lucra. Lucra quem possui os meios de produção.

Não existem mais nomes próprios, apenas números. A medicina descobriu a cura do câncer. Agora a depressão, conhecida como o mal do século, é a doença que mais mata. Não há mais espaço para a solidariedade. Todas as relações são liquidas. Instaura-se a sociedade da individualização. Todos competem, a todo o momento, todo dia, todas 36 horas.

Não existe mais contracultura, ninguém mais nada contra a maré, todos seguem o mesmo caminho. O Preço do amor em cápsulas cresce a cada dia, priorizando apenas as classes mais abastadas. Ninguém mais sabe o significado da palavra revolução. O preço do amor continua subindo. A procura também aumenta. A produção da cápsula diminui. Instala-se o caos. Tudo chega ao fim. E nasce um novo tempo.

terça-feira, 23 de agosto de 2011

Entre o todo e o resto




No rádio do carro uma canção romântica piegas. No retrovisor, imagens de uma estrada vazia acompanhada pelos últimos raios de sol, numa aquarela de final de tarde. No velocímetro, a marca de 130 km por hora. Na cabeça de Maria, o tempo estagnado. Não conseguia pensar em outra coisa senão na atitude extrema da noite anterior. Por que eu fiz isso? Por que diabos, agir daquela maneira? Não queria apenas o resto.

A relação de amor platônico que ela sentia por seu irmão adotivo havia passado de todos os limites que imaginara. Apesar de ter falado inúmeras vezes que estava apaixonada, ele sempre a ignorou. Levava na brincadeira. Afinal, para ele, Maria era apenas a irmãzinha caçula. E por mais que ela insistisse, dizendo que eles não eram irmãos de verdade, ele continuava fiel as suas convicções. Ela queria o todo.

Os dois se conheceram no natal de 1997. Maria tinha 11 anos e ele 13. Foi o último sobrevivente de um incêndio num orfanato no centro de Belém. O alto poder aquisitivo da família dela e a situação emergencial de abandono que ele se encontrava na época aceleram o processo de adoção, que saiu antes do planejado. A vinda dele foi festejada pelas crianças da casa. Agora as três irmãs podiam contar com o irmãozinho que sempre desejaram.

 Por que eu fiz isso? Por que diabos, agir daquela maneira? Diferente de suas irmãs, Maria nunca viu ele como um membro da família. E hoje, entende perfeitamente o porquê. É o homem da sua vida. Nunca o beijou na boca, nunca o tocou como amante, nunca o teve em seus braços. Controlava o ciúme que tinha por ele de forma magistral. Jamais externalizando isso na frente da família.

Mas o seu alto controle chegou ao fim. Na noite anterior, ao perceber que ele saia do quarto com a namorada, Maria entrou no banheiro dele. Examinou o lixo e retirou duas camisinhas usadas recentemente. Chorando com os olhos e a alma, sem pestanejar, foi para frente do espelho e colocou a língua no preservativo, sugando gota por gota do líquido depositado ali. Fascínio. Ficou excitada. Começou a se masturbar.

Sabia que aquilo era o resto. Tinha certeza que nunca o teria por inteiro. Mas já não havia mais espaço para a razão em sua mente. No velocímetro agora a marca era de 180 km por hora. Já não havia mais sol. Já não havia mais vida. O carro acabara de se chocar de frente com um caminhão.

sábado, 20 de agosto de 2011

Nós


A primeira vista eram dois, mas observando com os olhos da alma se via apenas um.  A olho nu eram diferentes, totalmente opostos e sem nenhuma afinidade de pensamentos, mas  analisando com mais detalhes eram demasiadamente iguais.  Um era poesia e o outro a extrema razão.

Um era subjetivo e o outro muito autoritário. O gozo que um sentia em mandar era o mesmo que o outro sentia em ser submisso. Se de um lado o poder de submeter alguém era qualidade, do outro, realizar cada ordem era a maneira mais visível de demonstrar carinho por quem tanto admirava.

Complementavam-se em tudo. E por mais que passasse pela cabeça de um dois se separar algum dia, sabiam que isso era impossível. Dependiam um do outro. Mandar e ser mandado. Falar e ouvir. Abraçar sem pedir, sentir mesmo sem tocar, pedir um abraço e levar um “não!”.

E assim seguiam a vida. Fingido ser dois, acreditando que não era apenas um. Entre esporro e afago no cabelo. Entre um amor escancarado e um sentimento escondido, reprimido, calado. E assim viviam. Entre as diferenças da mente e as semelhanças da alma.

domingo, 31 de julho de 2011

(Des)construção


A imagem refletida no espelho do banheiro era distorcida. O som emitido pela sua voz era dissonante.  Os seus sentimentos não eram os mesmos das pessoas com quem convivia. Mas mesmo assim, ele insistia em ser igual ao outros. Igual no amor, na dor, no erro, na alegria...  na vida.

Não admitia ser diferente, não queria fugir dos padrões, convenções e destino traçado. Queria mudar sua sina e começou a mentir para si mesmo. Fingiu gostar de futebol. Fingiu ter uma velha opinião formada sobre tudo. Fingiu amar, mesmo odiando. Fingiu tanto que acreditou na sua própria mentira. Mas a imagem no espelho continuava distorcida e o som de sua voz dissonante.

Mentiu, fingiu, inventou, desconstruiu e continuava sendo o mesmo.  Diferente. Estranho. Tudo o que eu queria era ser normal, pensou. Continuou fingindo e não obteve sucesso. Então, começou a se aceitar como realmente era e virou poeta.

quarta-feira, 6 de julho de 2011

Bem mais que seus 400 anos...

Na próxima sexta-feira (08), o município de Bragança, localizado no nordeste do Pará, a 210 Km de Belém, completa 398 anos. Minha terra natal, e lugar de grandes inspirações...

Cais do porto da cidade de Bragança- PA



Foi sobre duas rodas de uma bicicleta meia boca que eu desbravei os quatros cantos da cidade. Todos os bairros, todas as paróquias, ruas, pontes, ladeiras, toda Bragança. Um lugar que mais parecia a extensão do quintal da minha casa... Mas não era. Demorei a entender, que a cidade de hoje não é mais aquela de dez anos atrás, quando eu era garoto.

Bragança cresceu. E cresceu muito. De acordo com o último censo do IBGE, o município possui cerca de 113 mil habitantes e está entre os dez mais populosos do estado.  E isso é nítido em todos os bairros, paróquias, ruas, ladeiras... A cidade teve um inchaço populacional, se desenvolveu, mudou. E com as mudanças vieram ônus e bônus como o aumento da violência e o aparecimento de mais oportunidades de trabalho; o crescimento da miséria nos bairros mais distantes do centro e mais vagas no campus da universidade federal instalada no município; a perda de algumas tradições e a ampla divulgação do ritual da Marujada, que é muito mais conhecido em todo o mundo hoje do que na década anterior.

A cidade ganhou mais hotéis e ao mesmo tempo mais lixo, sem nenhuma fiscalização, foi jogado no Rio Caeté. E não foi só o Caeté que sofreu com a poluição e desmatamento, pelo menos meia dúzia de igarapés no bairro do Taíra viraram lenda, empurrados pela devastação das matas e a ausência do poder público. E o município continuou crescendo...

Prédios históricos foram destruídos enquanto renascia cada vez mais uma consciência coletiva de preservação entre os moradores. O número de veículos de comunicação aumentou e agora mesmo que timidamente, a periferia passou a ter voz. A bragantinidade, sentimento de acolhida de quem é nativo ou não, também cresceu. Bragança agora, mais do que nunca, é marca. E está nos pratos do Chef Ofir Oliveira, nas telas de grandes artistas locais, no artesanato da dona Zélia e de dezenas e dezenas de artesãs. Está na música, na dança, na farinha d’água mais famosa do estado, ah, a farinha...

Certamente hoje eu precisaria pedalar muito mais para percorrer toda a extensão da cidade, prestes a completar 400 anos. Um número simbólico para o governo municipal, mas que na prática é mais um aniversário da chegada (com controvérsias) dos primeiros europeus à região. O município merece muito mais que festa e autopromoção eleitoral pela passagem de seus quatro séculos.  Merece ser muito mais cuidado e respeitado pelo poder público, sem tirar a nossa responsabilidade, claro. Afinal, mesmo com todos os seus problemas essa cidade ainda continua inspiradora e apaixonante. Parabéns, Bragança!

Veja aqui  mais fotos da cidade

quinta-feira, 30 de junho de 2011

Labirinto 3

Era uma quarta-feira de folga. Tão previsível como todas as quartas-feiras de folga para quem trabalha numa redação de jornal. O que havia de diferente naquela noite? Marcela fora chamada para fazer um freelancer num desfile de moda em Belém.  O convite partiu de um ex-colega de faculdade, que mesmo não gostando dela, sabia o quanto ela entendia do assunto. Era a pessoa ideal para a cobertura do evento.
Desde que começou a trabalhar na editoria de polícia, essa era a primeira vez que Marcela saia de casa com um bloquinho de anotações na bolsa com a certeza que não iria encontrar nenhum homicídio, nenhum cadáver na rua, nenhuma delegacia. Talvez as coisas estivessem começando a mudar. Pensou. Ainda existiam pessoas que acreditavam no seu talento de futura editora de moda. Sorriu. Deus, ou sei lá quem, ouviu minhas preces.
Ao chegar ao desfile, a jornalista encontrou um antigo namorado, que resolveu assumir sua orientação sexual e agora é noivo de um estilista argentino. É, as coisas mudam. E você, casou? Não, continuo procurando um amor, disse. Mas o que ela queria mesmo dizer era “agora entendo aqueles seus fetiches estranhos comigo”. Pediu licença e os deixou a sós.
Sentada na primeira fila do desfile, ao lado de uma importante colunista social da cidade e de um famoso político local, Marcela faz suas anotações no bloquinho e  pensa na visibilidade que este momento pode lhe proporcionar. Nada de mortes, nada de sangue, nada de delegacias, nada de páginas policias. Estava adorando aquilo.
Antes do último desfile da noite, uma coleção exclusiva de lingerie produzida pelo argentino namorado do seu ex-namorado, seu telefone toca. Na tela do celular, uma mensagem do editor de polícia do jornal em que trabalha. Marcela ignora. As luzes apagam. Um som de três disparos de tiro é ouvido no local. As luzes voltam. A correria é geral. Ao seu lado o corpo do famoso político local com os miolos estourado. No telefone a mensagem: “recebemos uma denúncia sobre um atentado contra um famoso deputado que estará no mesmo evento que vc, pode entrar em contato comigo?” 

quinta-feira, 23 de junho de 2011

Quanto vale o amor?

Fonte: Google imagens

A placa com a mensagem em vermelho “Fazemos amor por 30 reais, tratar aqui”, colocada em frente à casa de Melissa dos Anjos, chama a atenção de quem caminha pela passagem das Flores, no bairro de Fátima, em Belém. Segundo a jovem negra, com cabelos tingidos de louro, desde que a mensagem foi colocada na porta, não faltam clientes. “Todo mundo sabe que eu sou garota de programa. E eu não tenho vergonha nenhuma disso, pelo contrário”, afirma Melissa, travesti que veio do interior do Amazonas e há cinco meses briga com os vizinhos na Justiça para a permanência da placa no local. “Isso é um desrespeito às famílias de bem daqui do nosso bairro. Não temos nada contra o que ela faz. Mas não admitimos exposição dessa falta de vergonha aqui na rua”, alega dona Helena Santos, uma das vizinhas que luta na Justiça para a retirada da placa.

A casa de madeira com três cômodos, situada em uma rua de chão batido, não apresenta nenhum conforto. O imóvel é herança de uma tia de Melissa que também ganhava a vida vendendo o corpo. “Minha tia sempre foi um exemplo pra mim. Ela foi a única pessoa na minha família que apoiou a minha orientação sexual”, diz a travesti, emocionada ao lembrar da tia, assassinada ano passado durante uma briga na boate que trabalhava, no centro da cidade.

Melissa nasceu com o nome de Francisco Monteiro dos Anjos. Mas, desde que começou a se entender como gente, sempre se achou estranha em seu corpo. “Eu não era um menino, apenas tinha um corpo de menino. Com o tempo fui compreendendo e aceitando a minha natureza, a minha verdadeira orientação sexual, que era ser mulher”, afirma. Hoje, aos 23 anos, a jovem que escolheu o seu novo nome após ver um comercial de uma sandália na TV, gosta do trabalho que faz e se diz feliz com a vida que tem. E apesar dos problemas com os vizinhos, acredita que vai ganhar a causa. “A placa não ofende ninguém. Eu não uso palavras como sexo, prostituição ou coisas do tipo. A mensagem fala de amor. Tem cliente que vem aqui paga 30 reais, tira a roupa e nem toca o meu corpo. Vem apenas porque se sente bem ao meu lado e sabe que encontra aqui alguém que o escuta”, revela.

E se por acaso a placa for mesmo retirada? Melissa tem uma ideia. Vai colocar uma nova placa sem informação de preços. “A mensagem será: Neste lar celebramos o amor. Só isso, sem colocar quanto ele custa. E isso, a Justiça não pode me impedir. Ou pode?”, questiona. E quanto vale o amor? Aí ela fica tímida, reflete um pouco e responde “Eu cobro 30 reais, mas o amor vale aquilo que você paga por ele”.

sábado, 16 de abril de 2011

Labirinto 2

A rotina de toda manhã é a mesma. Marcela acorda às 10h, escova os dentes, toma café com leite e pão torrado, escova os dentes novamente e volta a dormir. Antes disso, programa o despertador para 11:20h. Só que desta vez, a rotina foi quebrada com uma mensagem no telefone celular. “Parabéns pelo seu recorde no jornal: Você chegou à marca de 130 homicídios em menos de seis meses”.

A mensagem era macabra. Mas, infelizmente, verdadeira. Mesmo que não tivesse coragem de contar, sabia que já havia acompanhado mais de cem mortes desde que começou a trabalhar na editoria de polícia. E se ainda ficava assustada com esses números, o mesmo não podia se dizer do seu editor-chefe. A mensagem foi enviada por ele.

130 mortes. Para muita gente eram apenas números. Mas para ela, não. Marcela sabe o quanto cada uma significou. Quantas mães, quantos filhos, quantas lágrimas, quantas dores testemunhou de perto. 130 mortes. 130 pessoas. 130 vidas. Até quando? Até quando?

Por um minuto pensou que tudo não passava de um pesadelo. Que tudo isso nunca existiu. Que não era uma repórter policial. Que todas as noites que trabalhava não havia homicídio. 130 assassinatos. Não... Não podia ser. Mas era verdade.

Lembrou que na noite passada, enquanto lanchava num Fast Food, encontrou um ex-colega da faculdade que não via há muito tempo. Entre uma conversa e outra, uma insinuação e outra, ele prometeu a ela uma vaga na produção de um programa de TV que acabara de assumir a função de editor-chefe. Marcela esboçou um sorriso. Pegou a agenda onde havia anotado o número dele. Essa poderia ser sua grande chance. “130 homicídios em menos de seis meses”.

Sabia que a tal vaga na produção de TV não seria de graça. Tinha certeza que teria que dormir com ele para conseguir o emprego. Sentiu nojo. Nunca havia feito sexo com ninguém que não gostasse. E sabia que sem sexo não haveria contratação. Mas precisava fazer isso. Não aguentava mais ver tanto assassinato. Odiava o seu trabalho.

O programa de TV em questão era uma revista eletrônica diária. Pautas leves, música, literatura, moda, não precisaria mais fazer ronda diária em delegacia. Não era o que sonhara, mas pelo menos era o mais próximo possível. Recordou de todas as oportunidades fracassadas que teve. Esboçou novamente um sorriso. Sim, essa poderia ser a chance que estava esperando. Ligou para ele.

Do outro lado da linha um tom de voz completamente diferente daquele que falou com ela na noite anterior. O que aconteceu? Havia perdido o emprego. O diretor geral da TV descobriu que ele não era gay e só estava dormindo com o diretor para se manter no cargo. E já que a verdade veio à tona, agora era mais um desempregado. “Você conseguiria alguma indicação de trabalho para mim? Qualquer coisa?”, perguntou o ex-colega. Ela desligou o telefone. “130 homicídios”. Precisava dormir, precisava recuperar a noite que passou em claro. Afinal, o seu trabalho continua.

segunda-feira, 21 de março de 2011

Labirinto


O corpo estendido sobre o asfalto molhado era o terceiro em menos de duas horas de plantão. Marcela sabia o quanto a noite ainda seria longa. O número de mortes ainda não estava na média dos plantões do final se semana na editoria de polícia. Marcela respira fundo, pega o bloquinho de anotações, se aproxima do corpo e balança a cabeça com sinal de positivo para o fotógrafo que a acompanha.

Justo ela. Justo quem sempre sonhou em ser editora chefe de uma revista sobre moda. Que chegou até a participar de um intercâmbio na França na época que fazia faculdade. Que tirou nota excelente na monografia sobre o papel da imprensa na divulgação do movimento tropicalista. Que chegou a morar um ano em São Paulo participando de um programa de treinamento para jornalistas recém-formados numa das maiores editoras do país. E que sempre detestou o caderno de polícia.

Mas quem disse que a ironia do destino poupa alguém? Agora Marcela era repórter da editoria que sempre odiara. E por mais frustrada que fosse não poderia deixar isso transparecer. Afinal, era através desse trabalho que ela pagava suas contas. Já não havia mais os pais que sempre acreditaram e bancaram o sonho dela. Agora era uma mulher feita, e após a quinta tentativa fracassada, dessa vez numa revista de cultura pop em Porto Alegre, ela voltou para Belém e decidiu que não iria pedir mais nenhum centavo para os pais.

Morava sozinha num apartamento de apenas um cômodo, onde uma geladeira, uma cama de solteiro, um fogão de mesa e uma estante cheia de livros de História da Moda à Foucault ocupavam 99% dos escassos metros quadrados. Era pouco, muito pouco para quem sempre sonhou com muito. Mas pelo menos, era mantido com o seu próprio suor. E mesmo sem acreditar em Deus, agradecia a algo por tudo que havia conseguido na vida.

O corpo continuava estendido no chão. E apesar de uma multidão ao redor do cadáver, ela conseguiu apenas depoimentos de policiais. Ninguém queria falar nada. E se quisessem, eram contidos pelo medo. Coletou o nome da  vítima, os dados do homicídio, ouviu pela décima vez a piadinha sem graça do fotógrafo, entrou no carro e foi embora. No rádio, um aviso que mais um homicídio acabara de acontecer.

quinta-feira, 10 de março de 2011

Confissões de carnaval


Era o primeiro carnaval que os dois passavam juntos. Ele havia planejado tudo. Escolheu a cidade que iriam se hospedar, a trilha sonora que ouviriam em toda a viagem, os acessórios sexuais que comprara pela internet, a aliança que parcelou em três vezes no cartão de crédito da mãe. Nada podia dar errado.
Ela parecia não acreditar no que estava acontecendo. De dentro do quarto de um hotel no centro histórico da cidade de Cametá, em frente ao Rio Tocantins, só se ouvia marchinhas de carnaval. Lá fora uma lua cheia tinha um brilho tão intenso quanto o desejo dos dois. Ele parecia transbordar de felicidade. Ela não falava nada, respondia tudo como um sorriso tenso, quase que automático. Ele não compreendia a maneira como ela reagia, mas não a questionava. Queria aproveitar cada minuto daquele momento.
Fizeram amor, uma, duas, três vezes. Ele queria que o tempo parasse. A lua continuava a brilhar. Ele perguntou se ela estava feliz. Ela respondeu sem palavras. Ele começou a falar de casamento. Ela pediu para mudar de assunto. Disse que tudo ainda era muito novo e não pensava em casar. Ele insistiu, falou que os seis meses que estavam juntos representava muita coisa. Acreditava que nada mais iria separá-los. Ela agiu de maneira ríspida, não queria falar de casamento.
Ignorando seu pedido, ele pegou as alianças do bolso da mochila e a pediu em noivado. A lua brilhava lá fora. Ela disse para ele não fazer isso, pois não queria magoá-lo. Ele fingiu não ouvir e a abraçou. Ela o empurrou e saiu correndo do quarto, ainda nua.
Ele saiu atrás. Ela correu em direção ao cais do porto. Disse que iria se matar. Ele ficou desesperado. Ela gritou novamente. “Vou me matar de felicidade. É claro, que aceito”. Os dois se abraçaram, se beijaram e fizeram amor ali mesmo, ao som das marchinhas de carnaval.

quinta-feira, 3 de março de 2011

O dito, o ouvido e o falado

Todos nós assistimos. Alguns em tempo quase real. Amazonino Mendes, governador do Amazonas, falou em alto e bom tom para uma moradora de uma área de risco em Manaus “Morra, morra!”. Além disso, agiu de forma preconceituosa quando ela disse que era paraense, mandando um famoso “Tá explicado!”. Mas, depois de algum tempo, tomada as devidas orientações, deu uma entrevista dizendo que não foi bem isso que ele quis dizer.

Todos nós ouvimos. Alguns em tempo real. Boris Casoy falando da bancada do jornal da Band "Que merda: dois lixeiros desejando felicidades do alto da suas vassouras. O mais baixo na escala do trabalho." Mas depois, obviamente, de tomar todas as precauções jurídicas, disse que não era bem aquilo que queria dizer. E tudo ficou como dantes.

No reality show mais visto do país, são comuns as famosas pérolas de cunho homofóbico, racista e machista de alguns participantes. Mas após saírem do programa, falam na maior tranquilidade e sorriso de bom-moço que não foi bem isso que eles quiseram dizer. Mas, afinal, quando é que se diz realmente o que se quer dizer?

É válido xingar, ofender, mandar morrer e depois dizer que não foi bem isso que foi dito? Mas de fato, quando as coisas são ditas? Se é que são ditas. E se não ouvimos direito? E se?... Ao usarem argumentos como “não foi bem isso que eu falei” essas pessoas além de desmentir o que disseram, ainda colocam em dúvida nossa capacidade de raciocinar.

A criminalização da pobreza esteve presente tanto no infeliz comentário do jornalista da Band quanto no discurso incipiente do gestor do Amazonas. Não há dúvida. E foi exatamente isso mesmo que eu disse. Ah sim, e antes de qualquer dúvida, é válido uma ratificação. Foi isso mesmo que eu quis dizer

domingo, 20 de fevereiro de 2011

O tempo não pára


Revolução que derrubou o presidente Hosni Mubarack do poder

 Acompanhando a última postagem do blog do meu amigo Eraldo Paulino, sobre os recentes acontecimentos no norte da África e a sua relação direta com a quebra do estereótipo de juventude alienada. Rótulo que nossa geração carrega desde que nasceu, resolvi abordar aqui um assunto que há muito tempo vinha adiando. Afinal, somos ou não somos a geração da alienação?
Quem nasceu após a queda do Muro de Berlim, ou um pouquinho antes, como eu, que nasci em 1985 cresceu ouvindo que o capitalismo venceu porque era a única alternativa, que não haveria mais revoluções no mundo e que a História finalmente seguiria seu rumo numa linha reta, sem mais nenhum tipo de alteração. Além disso, ainda fomos ensinados a temer qualquer discurso socialista e a pensar que as lutas organizadas não eram mais necessárias. Afinal, agora vivíamos numa democracia. E quem votasse a cada dois anos já estaria fazendo sua parte na construção de um país melhor.
Fora tudo isso, somos a geração que cresceu na frente da televisão. Fomos obrigados a virar fã de heróis que na verdade eram porta-vozes do imperialismo norte-americano, a ouvir mesmo contra a vontade a onda oba-oba de axé que marcou a década de 1990, além do bombardeio das mais diversas alienações da indústria cultural. Enfim. Não tem como comparar a conjuntura da nossa geração com a geração da década de 1960. Assim também como não podemos generalizar qualquer uma delas. A generalização de qualquer assunto, seja este qual for, é algo tão burro quanto a unanimidade. Se Nelson Rodrigues estivesse vivo até hoje, creio que ele iria acrescentar mais este substantivo na sua frase célebre.
A nossa geração é tão pluralista quanto à de 1960. Ou alguém aí acredita que toda a juventude dos tempos áureos das revoluções pensava igual. Lógico, que não. Assim como naquela época, hoje existem jovens politizados e jovem não politizados. O que mudou foi a conjuntura. Incluindo aí um ode à alienação, a segmentação das lutas e uma forte cultura individualista imposta pelo capitalismo.
Portanto, antes de qualquer julgamento determinista, é importante pensar que generalizar qualquer assunto, seja este qual for, é a maneira mais superficial de querer se entender as coisas. Incluindo aí a mobilização da juventude atual. Diferente das gerações passadas, agora temos a ajuda da internet, que nas duas últimas revoluções no norte da África foram fundamentais. E como História da humanidade ainda não chegou ao fim, sinto em avisar o pós-modernistas convictos que muitas outras revoluções virão por aí. Pois, como diria um jovem e grande poeta, o tempo não pára.

quarta-feira, 16 de fevereiro de 2011

Um ano..Humm!

No próximo dia 18 de fevereiro o blog Lenda Pessoal faz um ano. E antes que eu comece a dividir o bolo de aniversário, preciso esclarecer umas coisas. Prometo ser o mais breve possível e não me alongar em discurso piegas típicos de aniversários de casamento sustentado apenas pela conveniência.

Na época em que comecei a escrever o LP eu era apenas um estudante de jornalismo se dividindo aos trancos e barrancos entre um estágio numa assessoria de imprensa, o último ano da faculdade e a construção do Trabalho de Conclusão de Curso (TCC). De lá pra cá, me formei, mudei de casa, comecei a trabalhar profissionalmente e a ter a certeza de que preciso cada vez mais disso aqui. Para que? Para desconstruir e reinventar realidades. Até quando? Não sei.

Mas, enfim. Vamos ao balanço deste blog. Durante 365 dias pude trocar ideias, debater os mais diversos assuntos e mostrar um pouco das minhas experimentações literárias. Aqui aprendi a não ter medo de conto. A falar de sexo, amor e imperfeição humana sem parecer clichê. E ser objetivo a partir da minha subjetividade, principalmente nas matérias sobre cinema e cultura popular.

Conheci gente dos mais diversos lugares desse povoado sem fronteiras chamado blogosfera. Entendi a importância da expressão "um blog sozinho não faz verão". E sem perceber acabei seguindo a risca e falando de todos os temas que citei na minha primeira postagem, quando disse que escreveria sem nenhum tipo de rótulo e sem qualquer apologia ao falso moralismo.

Conforme o prometido, falei sobre sonhos, sexo, política, literatura e putas tristes. Compartilhei histórias sobre heróis, jornalistas, socialismo, mulheres frígidas, bacanais e cultura popular da Amazônia. É. Parece que foi ontem. Mas lá se vai um ano.

E o primeiro pedaço do bolo? Bem... O primeiro pedaço vai para todos que me ajudaram na história deste blog. Seja seguindo, comentando, indicando, discordando... enfim... A todos que construíram junto comigo o Lenda Pessoal. E que venham os próximos aniversários!

É big, é big, é big..é hora, é hora..

quinta-feira, 10 de fevereiro de 2011

Sexo, com ou sem amor?

Conversando com dois grandes amigos blogueiros decidi mais uma vez propor o desafio de nós escrevermos sobre o mesmo assunto. Essa brincadeira já foi feita aqui, veja. Dessa vez, o tema escolhido foi “amor e sexo”, e quem vai me ajudar nessa saga são os estudantes de Comunicação Social Sara Portal do blog http://saraportal.blogspot.com/ e Eraldo Paulino do http://eraldopaulino.blogspot.com/ . A proposta, além de mostrar as afinidades e contradições de nossos pensamentos, tem como objetivo principal fazer um diálogo de ideias. Uma das bandeiras do Lenda Pessoal.

Só para ratificar. Eu começo o desafio e depois passo a bola para o Eraldo, que em seguida passa a bola para a Sara. Certo? Agora, vamos ao que interessa. Afinal amor, sexo e mais dois grandes amigos é uma mistura boa, não é? E que comece o desafio:


Uma dose de amor e duas de sexo. Não, não. É melhor duas de amor e uma de sexo. Não, não. Três de amor e duas de sexo... É. Como seria bem mais fácil se tudo fosse uma coisa só. Se não houvesse escolha entre um ou outro. Se existisse apenas sexo com amor e amor com sexo. E ponto final, nada mais que isso.

A vida seria bem melhor com esses hibridismos. Os problemas diminuiriam pela metade se todas as comidas dessem água na boca, se todas as amizades fossem verdadeiras, se todos os diálogos fossem compreendidos. Se... Mas infelizmente não é assim que funciona. E é exatamente devido a essa inexatidão das coisas que recorremos as escolhas. E a vida é cheia delas.

Existem pessoas que escolheram separar sexo de amor e outras não. É simples. Eu me enquadro na primeira opção. É óbvio que com amor é muito melhor. Isso é fato. Mas sem amor também tem lá seus encantos. Mesmo que limitados, tem seus encantos.

Aliás, preciso enfatizar que separo apenas sexo de amor, mas não de respeito, de bem-querer, cumplicidade, de entrega. O que são coisas bem diferentes do sexo pelo sexo. Para que ocorra sintonia entre os corpos é necessário tudo isso. É preciso ser bom para os dois em todos os sentidos. Caso contrário, não terá encanto nenhum. E, portanto, não valerá à pena.

Separar sexo de amor não significa necessariamente banalizar o sexo. Como disse anteriormente, o que vale é a sintonia. Por isso também não concordo com sexo pago e nem com a indústria da sexualidade. Isso desumaniza a troca de intimidade e torna um momento tão prazeroso da vida em mais um negócio lucrativo do capitalismo.

Aos que não conseguem separar sexo de amor, peço que continuem assim. Pois, confesso que tenho muita admiração por vocês. E quem sabe, um dia não consiga fazer o mesmo. Enquanto esse dia não chega, continuo defendendo um sexo humano, livre, que não envolva dinheiro e principalmente com muita sintonia (ou outro adjetivo que você queira dar a palavra reciprocidade).

Agora é com você, Eraldo!


quarta-feira, 19 de janeiro de 2011

Imprevisível

Após uma intensa noite de amor, ela senta na cama, acende um cigarro, olha para o fundo dos olhos dele, que acabara de acordar, e pergunta. Como você se vê daqui a dez anos? Ele sorri sem entender, esperando que ela também dê um sorriso. Mas ela o encara. E com ar de seriedade repete a pergunta.

___Como eu me vejo daqui a dez anos?

Em 24 anos de vida, ele jamais ouviu essa pergunta assim, diretamente, explicitamente, sem rodeios, na lata! Logo ele, logo o cara mais “carpe diem” do mundo, alguém que jamais sequer pensou como seria o dia de amanhã. O que importava o futuro? Para que saber como a vida será daqui a uma década?

O silêncio dele a fez levantar da cama. Também em silêncio ela começou a vestir sua roupa e ignorar a presença dele no quarto.

___Para que diabo interessa saber como eu vejo daqui a dez anos?_disse ele, quebrando aquele silêncio ensurdecedor do quarto.

___Em dez anos me vejo concluindo o doutorado na França, com dois filhos e um romance publicado. É simples! _disse ela, sem olhar em nenhum momento para o rosto dele.

__Por que vocês mulheres são assim? Por que vocês fazem tempestade num copo d’água? E pra que? Pra nada.

___Era apenas um pergunta. Você poderia ter milhares de resposta. Mas sabe por que não respondeu? Por que não tá nem aí para o futuro? Por que não tem um pingo de responsabilidade! Por que tá cagando pra como será a vida daqui a 12 horas!

__É exatamente isso. Eu vivo como se não houvesse amanhã mesmo. E nunca vou ficar preso a planos e projetos medíocres visando apenas dinheiro.

Ela chorou. Olhou para os olhos dele e repetiu três vezes a palavra “imaturo”.

Ele abriu a porta do quarto. Ela saiu, ainda arrumando a alça do sutiã.

Ele voltou para a cama.

Depois de dois minutos ela retornou. Bateu na porta e começou a gritar.

Esse aqui é o meu quarto. É você que deve sair.

Ele foi embora.

Foi a primeira e a ultima vez que se viram.

domingo, 16 de janeiro de 2011

Quando os sonhos nos traem


Aos nove anos Mariana pensava em ser bailarina. Aos onze, queria ser veterinária. Aos treze sonhava em ser jornalista. Mas a falta de oportunidade e o destino, ou seja lá quem for, suprimiram os seus planos e o obrigaram a seguir um outro rumo na vida. Hoje, com 23 anos, a jovem de olhos claros e cabelos encaracolados trabalha como prostituta numa ruela do centro histórico de Belém.
Expulsa de casa pelo pai aos 17 anos, após a descoberta de uma gravidez indesejada,  Mariana encontrou  na prostituição a única saída para resolver seus problemas. Uma história que se repete entre as muitas mulheres da rua onde trabalha."Eu cheguei aqui grávida de três meses, e mesmo assim tive que me prostituir para me sustentar. Prometi para mim mesma que quando meu filho nascesse daria uma vida melhor pra ele. E foi isso que fiz. No dia que ele nasceu, deixei ele na maternidade com uma carta de recomendação para que uma familia de verdade cuidasse dele", conta.
 Mariana cobra 20 reais por um programa. Esse é o preço ajustado entre todas as prostitutas da rua. "Aqui não vem nenhum homem que tenha muito dinheiro. Homem com muito dinheiro procura um puteiro de luxo. Os nossos clientes são vendedores ambulantes, pescadores, estivadores, gente que ganha pouco. Além do mais a concorrência aqui na rua é grande. Só que eu tenho conhecimento são umas 40 mulheres. Por isso não podemos cobrar mais do que isso", explica dona Lindomar Vieira, 53 anos, dona de um dos  casarões no local.
O dinheiro que ganha durante o mês mal dar para manter sua alimentação e pagar o aluguel do quarto onde mora. "Sou a única daqui da rua que não mora no casarão onde trabalho. Pego dois ônibus todo dia para chegar aqui, mas mesmo assim não me arrependo. Esse lugar aqui é apenas para trabalho. Não aguentaria morar na mesma casa onde vendo o meu corpo", diz.
A beleza de Mariana chama a atenção de quem passa pela rua. Ela é uma das mais procuradas para fazer programa. O que já lhe rendeu inúmeras brigas com outras mulheres do local. "Tem muita gente aqui que tem inveja de mim. Já fui até ameaçada de morte. Mas tenho fé que não vai acontecer nada. Conto os dias para sair daqui. E eu vou sair.", afirma a jovem.

segunda-feira, 3 de janeiro de 2011

Outros janeiros...

Lembro como se fosse hoje. Era uma manhã de inverno amazônico. Aproveitava cada dia das férias de janeiro na casa do meu avô. Tinha acabado de completar nove anos e começava a fazer as primeiras manobras mais arriscadas na bicicleta dele. A emoção de andar de bicicleta com as mãos soltas do guidão era maravilhosa, sentia uma liberdade sem tamanho. Isso até um dia em que cair e bati a boca no chão rochoso bem em frente de casa. E o pior, bem em frente ao meu avô.
A dor foi grande. Minha boca sangrando e eu chorando desesperadamente, pela dor e pela surra que certamente levaria. Parecia que o mundo ia acabar naquele momento quando meu avô me pegou pelos braços e com uma voz autoritária pediu para eu engolir o choro. “Homem que é homem não chora, ouviu rapaz! Você é homem e, portanto, jamais deve chorar. Jamais!”, concluiu.
O susto e o medo da bronca dele foram um remédio. E antes que ele concluísse a última palavra minhas lágrimas desapareceram quase que instantaneamente. Sob ameaças de um militar aposentado, prometi a ele que nunca mais iria chorar. O episódio ficou sendo um segredo só nosso. Um segredo que guardei até o dia de sua morte.
Todos as vezes que sentia um prenúncio de choro lembrava das palavras do meu avô e meu sistema lacrimal sofria um bloqueio. Isso durou uns três anos, mais precisamente até o dia da morte dele. Ninguém entendia porque eu era a única pessoa que não chorava durante o velório. Todos sabiam do quanto eu era apegado à ele e quando me perguntavam por que eu não estava chorando, sempre respondia “por que homem não chora”.
“Isso é bobagem meu filho. Todos os três filhos homens do seu avô estão chorando. Porque esconder seu sentimento”, dizia minha mãe. Mas ela não entendia. Não sabia da promessa que eu fiz. Jurei olhando para os olhos do meu avô, disse que jamais iria chorar novamente. E assim fiz, cumprindo a risca o meu juramento.
Poucas horas antes do enterro, minha vò me chamou num cantinho da casa e me entregou uma carta deixada por ele. Disse que com aquele tumulto quase esquecera de me entregar, e que meu avô fez a carta a mais de um ano e recomendou que fosse entregue no dia em que ele morresse. “Leia a carta lá no quarto do seu avô. Isso é um diálogo só entre vocês dois”, aconselhou minha vó.
A carta começava com um pedido de perdão. Ele dizia que só os homens imbecis não choram e que só falou aquilo para mim, porque queria que eu parasse de fazer artes com a bicicleta, pois não queria me ver machucado. Assim que acabei de lê a carta e saí do quarto o enterro já havia seguido. E eu não pude nunca mais chorar na presença do meu avô, nem que fosse apenas na presença de um corpo sem vida.