domingo, 21 de novembro de 2010

A aposta


Era a primeira vez que Adriana frequentava uma festa de aparelhagem sonora. Seu olhar de espanto e repúdio no local era nítido. Ela nunca fez questão de esconder seu preconceito com esse tipo de festa, mas o destino foi irônico com a jornalista. Após perder uma aposta com uma amiga sobre o nome completo do primeiro álbum de Jimmi Hendrix não tinha mais jeito. Ela precisava visitar o ambiente que sempre rejeitara.
Ao invés de dizer “Are You Experienced”, o verdadeiro nome do disco, ela disse “Axis: Bold as Love”, o nome do segundo álbum do cantor. O fato já estava consumado. E mesmo arrependida Adriana nem pensou em voltar atrás. Aposta era aposta. E agora tudo que restava era enfrentar o desafio e ir a uma festa de aparelhagem com a amiga.
O som ensurdecedor das batidas do tecno-brega deixavam Adriana transtornada. Pela regra da aposta ela deveria ficar pelo menos duas horas no local da festa. Mas cada minuto para ela parecia uma eternidade.
___Já chega, Renata. Já fiquei aqui tempo suficiente para cumpri a aposta!
___Nada disso, menina. Tu vais ficar aqui. O combinado é duas horas e não faz dez minutos que estamos aqui.
___Quem tem amiga como você, não precisa de inimiga mesmo. Deves tá se divertindo com o meu sofrimento...
___Relaxa, mana. Faz o S. Assim como eu, olha.
Adriana deu de ombros para a amiga e foi em direção ao banheiro. Por mais que estivesse odiando tudo aquilo não voltaria atrás. Pelo menos não sem o consentimento da Renata. Para Adriana “dar o braço a torcer” significava a morte. Ela jamais faria isso.
Na fila do banheiro, com as mãos nos ouvidos, Adriana é abordada por um rapaz carregando um balde com sete latas de cerveja.
___Desculpa eu te incomodar, mas tô vendo que você tá igual um peixe fora d’água aqui na festa
Os estrondosos decibéis da aparelhagem não deixaram ela ouvir.
___Hein? Não entendi?
___ Você tá igual um peixe fora d’água aqui na festa. Por que veio pra cá?
___Ah, meu amigo. Se eu ti falar que nem eu sei por que diabos eu tô aqui, você acredita?
___Sim, é muita bonita.
Adriana riu. Ele ouviu com exatidão tudo o que ela falou. Os altos decibéis nunca foram problema para ele que convive há anos nesse ambiente. E por mais alto que estivesse o volume, os anos de festa de aparelhagem o fizeram adquiri a prática da leitura labial. Portanto, sua resposta não foi dada á toa.
___Não você entendeu mal. Eu não disse que era bonita. Eu disse você acredita.
___Acredito, sim. O meu nome é Jonas. Qual o seu?
A cantada dele funcionou. Afinal ela também queria um motivo para se distrair enquanto aguardava as duas longas horas combinada com a amiga. Isso foi o que bastou para eles ficarem conversando na frente do banheiro feminino. Entre um papo e uma insinuação as latinhas de cerveja eram degustadas.
Próximo da mesa sonora do DJ, Renata não parava de olhar o relógio. Já havia passado mais de uma hora e sua amiga ainda não tinha voltado do banheiro. A medida que o tempo aumentava ela ficava mais preocupada ainda. “Será se a Adriana já foi embora. Mas a chave do carro tá comigo”, pensou. Faltando dez minutos para a hora combinada de ir embora, Renata resolveu andar pela festa para procurá-la.
Na mesa sonora, o DJ anuncia “Só quem tá solteiro faz o S”. Renata procura pela amiga no banheiro e não encontra nada. O DJ avisa “quem quiser ser a princesinha do Pop suba agora aqui no altar sonoro”. Renata volta para o lugar onde estava e se surpreende com o que vê. Com os sapatos na mão e toda descabelada, Adriana sobe no “altar sonoro” e em seguida começa a fazer o S e dançar sobre a mesa de som.
Foto: Tarso Sarraf

Um comentário:

  1. Hummmm

    "Faz um S pra mim"

    Essa música pairou minha mente por um looooooooongo tempo rs

    Bjs!

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