domingo, 24 de outubro de 2010

Templos ou Franquias de Deus?


“Para receber é preciso doar.” A mensagem acima do altar da Igreja Pentecostal da Graça Divina é claro e objetivo. Todos os 59 frequentadores do templo são obrigados a ceder 10% do salário para a Igreja. “O Dizímo não é uma invenção dos pastores evangélicos, como muita gente pensa. Está escrito na Biblía. Devemos doar ao Senhor a décima parte do que recebemos”, afirma Edinaldo Silva, Pastor há 8 anos da Igreja Graça Divina.
O faturamento através da fé rende ao pastor Edir, como Edinaldo prefere ser chamado, o equivalente a R$2.000 por mês. A Igreja situada na comunidade Jardim Brasil, no bairro do Coqueiro, em Ananideua, pouco difere das mais de 500 da linha cristã pentecostal abertas em todo país somente no ano passado. Os dados são do Instituto de Pesquisa Acertar, divulgados em fevereiro deste ano.
Segundo o Instituto, o fato dessas igrejas arrecadarem dinheiro sem precisar declará-los e ainda serem isentas de impostos são os principais motivos para proliferação desse tipo de comércio. “O Brasil possui uma das maiores taxas de mortalidade empresarial precoce do mundo. Cerca de 80% das empresas que surguem no país vão a falência antes de um ano. Mas, quando falamos em templos religiosos a coisa muda. Basta umas cadeiras, um microfone e um pastor para o negócio dar certo”, diz Emílio Brandão, economista do Instituto Acertar.
A facilidade para se abrir uma Igreja no país afeta diretamente o crescimento desenfreado desse mercado. Somente no bairro da Cabanagem, em Belém, existe 58 templos religiosos diferentes da linha pentecostal. Valmir Araújo, 29 anos, é o mais recente “empreendedor da fé” no bairro. Há dois meses Valmir alugou uma garagem na Avenida Independência, investiu R$ 520,00 reais na compra de cadeiras e amplificadores e começou a promover cultos diariamente. “Eu sempre dizia que um dia eu teria a minha igreja. Já frequentei várias denominações religiosas, mas nunca escondir a minha vontade de administrar sozinho meu próprio templo”, afirma.
A criação em massa de igrejas pentecostais começou nos Estados Unidos e veio para o Brasil no início da década de 70. Alguns templos que começaram em prédios alugados, longe dos centros da cidade, são hoje verdadeiras redes evangélicas. A Igreja Universal do Reino de Deus, do bispo Edir Macedo e a Igreja Internacional da Graça de Deus, do missionário Romildo Ribeiro Soares, representam muito bem essas redes, que além de igrejas possuem ainda concessões de emissoras de rádio e televisão.
A falta de conhecimento, aliada ao cenário de injustiça social presente no Brasil são os maiores contribuidores do crescimento dessas megas redes de templos evangélicos. A aposentada Maria Helena de Sousa, de 70 anos, é um exemplo disso. Todos os meses ela destina R$ 51,00 reais aos cofres da Igreja da Graça Divina. O equivalente a décima parte do salário mínimo que recebe. “Todo cristão tem obrigação de pagar o dízimo. Eu não reclamo nem um pouco de devolver a Deus o que Ele me dá. Pode até faltar a minha farinha, mas o meu dízimo é sagrado”, diz a aposentada.
Casos como o de dona Maria Helena, são comuns entre os frequentadores de igrejas evangélicas. O comprometimento dos fiéis na doação do dízimo é o que faz a economia dessas igrejas girarem. “A igreja também tem gastos como qualquer outra estabelecimento. Se não estivermos com a conta de água, de luz e com as nossas despesas pagas, a gente não pode dar continuidade ao trabalho de evangelização”, defende o Pastor Edir.

terça-feira, 19 de outubro de 2010

As crias do arraial




Se depender da alegria das crianças que participam do arrastão do Círio, o tradicional cortejo que este ano completa uma década, ainda terá muitos anos de vida. Elas estão por toda a parte, seja carregando os brinquedos artesanais produzidos pelo Instituto Arraial do Pavulagem, seja no abre-alas, no Batalhão da Estrela, ou apenas acompanhando a passagem, a presença de inúmeras crianças no cortejo deixa claro que muitos outros arrastões virão por aí.
Mauro André, 6 anos, veio de Bragança-PA acompanhado pela avó, especialmente para acompanhar o arrastão do Círio. É a primeira vez que ele participa, mas a familiaridade com os brinquedos e com a sonoridade do arrastão é tanta, que parece que ele já é veterano no cortejo. “Eu faço questão de trazer meus netos para participarem desse momento tão bonito da nossa cultura”, diz dona Teresa da Silva, que há seis anos acompanha o arrastão do Círio. “Todos os anos eu trago o meu outro neto, irmão do André, mas este ano prometi que iria trazer ele. E nem precisa perguntar se ele está se divertindo não é?”, diz a vó, toda contente.
Assim como André, João Guilherme, 4 anos, também participa pela primeira vez. Ele é um dos primeiros da fila do abre-alas do cortejo. Dentro do cavalinho de brinquedo produzido especialmente para esse momento, ao lado do pai, João é uma animação só. “É a segunda vez que participo do arrastão. Ano passado eu vim e fiquei encantado com esse clima. Por isso, fiz questão de trazer meu filho para essa festa”, diz Alexandre, pai de João, que veio do Ceará.
Dona Marluce trouxe os três filhos, de sete, nove e doze anos para participar do cortejo. Enquanto as crianças se divertem com os brinquedos de miriti, a mãe aproveita para dançar os ritmos tocados pelo Batalhão da Estrela. Segundo ela, já virou tradição. É só se aproximar o Círio que os filhos perguntam se ela vai para o arrastão. “Eles já sabem que quando é tempo de Círio é tempo de arrastão. E nem que eu queira, eu não posso dizer não. Até porque, a família toda se diverte”, diz.
Fotos: Naiara Balderramas

quinta-feira, 7 de outubro de 2010

Quatro vezes amor


O relógio despertador toca pela segunda vez. São sete horas da manhã. Geyse lembra de cada minuto da noite anterior. A melhor noite da minha vida, pensa ela. O cheiro do orgasmo ainda permanece na sua cama. Uma mancha roxa e dolorida em seu pescoço era a prova que aquela noite não teria sido um sonho. Ela fecha os olhos e sorri.
Há cerca de cento e dez quilômetros dali, na rodovia BR-316, a 80 quilômetros por hora, Fred também recorda de cada gesto da noite anterior. O pensamento dele está tão distante que não percebeu quando alguns guardas da policia rodoviária acenaram para sua caminhonete parar.
No saguão do aeroporto internacional de Belém, a poucos minutos de embarcar para Buenos Aires, Paulo recebe uma mensagem no celular. Obrigado pelo nosso reencontro. Na mesma hora liga para Geyse e agradece pela noite anterior. Desde que foi morar na Argentina, era a primeira vez que ele retornava à Belém.
Numa emissora de TV local, em Belém, Luciana se prepara para apresentar mais uma edição de um telejornal. Nos bastidores da TV cochichavam que o “bom dia” dado pela apresentadora foi o mais sincero desde que ela começou trabalhar na emissora. Enquanto chama a primeira reportagem do dia, seu pensamento é dominado pelas lembranças da noite passada.
Antes do relógio despertador tocar pela terceira vez, Geyse se levanta da cama e liga a televisão. Na tela, vê sua amiga apresentadora que não consegue disfarçar a felicidade que sente. Fazia exatamente 3 anos que os quatros amigos não se reuniam. O despertador toca novamente.