terça-feira, 10 de agosto de 2010

Um vendedor de pamonhas chamado John Lennon


Nunca gostei de pamonha. Mas sempre que viajo para Bragança, minha terra natal, faço questão de comprar aquelas pamonhas que são vendidas na beira da estrada para dar para minha mãe. Na semana passada, na estrada, dentro de um ônibus, numa viagem de volta para Belém, fui acordado pelos gritos de cinco garotos que em uma só voz gritavam a antológica frase “olha a pamonha, olha a pamonha!”. Era a minha décima tentativa de sono que acabava de ir por água abaixo.
Estrategicamente eles se concentraram ao lado de uma “lombada gigante” próximo de um posto de gasolina, na BR 316. Como o ônibus precisou diminuir a velocidade para passar pelo local, dava para abrir e janela do veículo e comprar o produto na maior tranquilidade, tal qual um “drive thru” dessas redes de “fast food”. Eu confesso que fui um dos poucos passageiros que não comprei a guloseima de milho mais vendida na estrada. Eis aí o meu grande arrependimento.
Se tivesse comprado certamente teria olhado com mais calma no rosto de um dos garotos, mas minha sonolência pró-viagem não deixou. Aumentando os passos porque o ônibus já começava a seguir a velocidade de antes e empolgado por vender mais de uma dúzia do produto para uma senhora que estava ao lado da minha poltrona, um dos meninos tirou de sua mochila uma dessas agendas doadas pela Seduc (Secretária de Educação do Estado do Pará) e jogou no meu colo. “A senhora vai gostar da minha história, tia”, disse o garoto para a mulher ao meu lado.
Com a boca cheia de pamonha e não dando a mínima para o ato do pequeno vendedor, a única coisa que a mulher conseguiu pronunciar foi “Eu vou descer logo ali na frente”. E a agenda? Perguntei. Ainda com a boca cheia ela deu de ombros, se levantou e seguiu para descer do veículo. Ainda insistir sobre a agenda. E nada. Como um curioso nato e assumido, comecei a folhear a agenda e logo na primeira página fui surpreendido com a seguinte inscrição feita de caneta preta “O diário da vida de John Lenon”.Aí meu arrependimento aumentou de vez. Porque não comprei a pamonha? Porque não olhei no rosto daquele garoto. A história dele está agora comigo e eu nem o reconheço se caso o encontrar novamente por aí.
Abaixo, publico na íntegra o primeiro capitulo dessa história emocionante que acabara de conhecer.


O DIÁRIO DE LENNON (Primeiro dia)

Meu nome é John Lennon Souza da Silva. Nunca entendi porque a minha mãe me deu esse nome. Analfabeta e moradora de uma cidadezinha do interior do Maranhão, ela nunca foi fã dos Beatles ou coisa do tipo. Desconfio até hoje que esse nome foi uma invenção da minha tia Izalmira, uma desses parentes metida á besta que todo mundo tem. Mesmo sabendo que eu não acredito, minha mãe morre dizendo que o meu nome foi escolhido depois de um sonho que ela teve... Um sonho internacional, diga-se de passagem. Mas enfim, acho que o fato dela não se “bicar” com a tia Izalmira impede que ela jamais admita que a idéia do meu nome tenha surgido da mente insana da minha tia metida à besta.
Sou o sétimo filho de um total de 12 irmãos. Mas só conheço seis. Os outros estão espalhados por “esse mundão de meu Deus”, como minha mãe costuma dizer. Quando nasci o meu irmão mais velho já tinha deixado a nossa casa há muito tempo. Na verdade esse é o destino de todos que completam a maioridade aqui em casa. Daqui a dois anos vai ser eu. Confesso que ainda não estou preparado para morar em outro lugar, mas enfim... Querendo ou não querendo preciso cumprir minha sina. Afinal essa é a regra da nossa casa, segundo minha mãe. “Só espero que você seja diferente. Não seja igualzinho teus irmãos que foram embora e esqueceram da gente”, diz indignada minha mãe, que sempre carregou sozinha o fardo de sustentar os filhos.
Ah, sim... Ia esquecendo de falar uma coisa primordial (é a primeira vez que estou escrevendo esta palavra, li num livro e achei bonita) para entender a vida da minha família. Minha mãe é prostituta num barzinho de beira de estrada, na BR 316, próximo da cidade de Santa Isabel. Todos os filhos que ela já teve foram segundo ela mesma fala “acidentes de trabalho”. Mas apesar de nenhuma cria ser planejada, ela nunca abortou, abandonou nem entregou os filhos para ninguém. Tanto é que já foram doze e eu acho que vem mais um aí. Semana passada eu vi ela reclamando de enjôos...acho que aconteceu mais um “acidente de trabalho”.
O legal da nossa família é a diversidade de cores. Negros, pardo, louro de olhos azuis...tenho irmão de tudo que é tipo. Somos uma família tipicamente brasileira. E... Por enquanto é só, amanhã escrevo de novo, estou muito cansado agora, preciso dormir. Amanhã tenho que acordar cedo para vender pamonha na estrada... Até amanhã!

4 comentários:

  1. Isso que eu chamo de está no lugar certo e na hora certa, só precisava ter voltado né?? srssr

    Vc tem a vida dele nas suas mãos dê um caminho diferente.

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  2. A imaginação é matéria-prima essecial para quem pretende criar esteticamente em qualquer uma das sete artes.

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  3. realmente emocionante....
    quero pedir permisão para publicar no meu blog também...(citando a fonte é claro)...
    aguardo a resposta.......esperando o próximo capítulo....

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  4. Agora eu é que to arrependido por não ter podido ler em primeira mão esta pérola.

    Se eu fosse eleger o melhor texto que li na bogsfera essa semana, elegeria este sem sombra de dúvida.

    Bitotas!

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