domingo, 29 de agosto de 2010

Em busca de John Lennon (parte III)


Depois de quase meia hora tentando convencer o frentista sobre a importância de conversar com a mãe do Lennon, o homem decidiu me levar na sua casa. Exigindo uma série de restrições, disse que eu não poderia fotografar sua esposa e muito menos publicar essa história. Para ter certeza de suas exigências, pediu ainda para eu abrir a minha mochila e mostrar se não tinha nenhum tipo de gravador ou câmera escondida.
Após toda a averiguação e confiante que eu não iria publicar nada sobre o caso, pediu ao gerente do posto para que o liberasse por alguns instantes, pois “precisava resolver um assunto muito sério”. Disse que em meia hora no máximo estaria de volta ao trabalho.
“Ele só me liberou porque hoje é domingo e geralmente o movimento é fraco nesse dia”, disse o frentista assim que entramos numa Kombi bege, ano 94, usada para serviços do posto de gasolina. No caminho para a casa dele nenhuma palavra. Todas as vezes que tentava saber mais sobre a morte do Lennon, saber o quê e como tudo aconteceu, ele me interrompia dizendo “a minha mulher vai te falar tudo”.
Após uns dez minutos de intenso silêncio dentro da Kombi, chegamos a uma chácara, localizada na BR-316. Assim que entro na casa do frentista, mais uma surpresa. A esposa dele e provável mãe do John Lennon é a mesma senhora que estava ao meu lado no ônibus onde toda essa história começou. “Eu sabia que você viria até aqui”, disse a mulher, tentando forçar um sorriso.
Antes de perguntar por que ela tinha armado tudo aquilo, ela pegou em minhas mãos e falou que eu era a única pessoa que podia ajudar a resolver aquela situação. Disse que o John era seu filho e que toda a história escrita no diário era verdade. “Eu me converti à Igreja Universal do Reino de Deus pouco antes do John ser assassinado na estrada. Ele foi morto por aquele motorista de caminhão que é citado no diário. Eu já tinha saído daquele antro de perdição do bar da Loura e a gente já tava pensando em voltar pro Maranhão, o lugar onde nasci, quando o meu John foi morto de forma covarde por aquele caminhoneiro sem alma. Não foi só o meu filho que morreu, eu também fui junto com ele”.
Segundo ela, John foi morto na véspera do Natal quando vendia pamonha na estrada. O assassino foi reconhecido pelos outros ambulantes da estrada, mas consegui fugir. “A intenção mesmo era só se vingar do meu Lennon, do meu menino de ouro”, disse a mãe com os olhos cheios de lágrimas.
Mesmo tentando segurar meu choro, não tive como esconder o quanto fiquei triste com essa história que acabara de ouvir. Afinal, apesar de não ter conhecido John Lennon pessoalmente eu era testemunha e cúmplice da história dele. E antes que perguntasse definitivamente porque ela tinha feito tudo aquilo e porque me escolheram para compartilhar essa história, ela respondeu.
“Assim que o Lennon morreu, o meu filho Lucas fugiu de casa. E segundo me falaram viram o meu filho num documentário que o senhor produziu sobre a Marujada de Bragança. Portanto, só o senhor pode me ajudar. Traga o meu Lucas de volta, por favor. Traga o meu Lucas de volta”.


Abaixo publico na integra o quinto capítulo do diário de John Lennon Souza da Silva.

O DIÁRIO DE LENNON (quinto dia)
A primeira vez a gente nunca esquece


O capitulo de hoje é dedicado ao meu irmão Lucas. Um cara que tenho profunda admiração. Um irmão que qualquer pessoa queria ter. Mesmo cego e deficiente físico, Lucas jamais reclamou da vida. Ao contrário, é ele é um exemplo de superação e está sempre me ensinando a viver.
Entre as inúmeras situações inesquecíveis que já vivemos juntos, vale à pena lembrar aqui da primeira vez que levei o meu irmão num puteiro. Depois de passar duas semanas dando dicas de como se comportar bem na cama, levei ele ao puteiro mais caro de Santa Isabel, que por ironia do destino fica no segundo andar de um prédio onde funciona uma igreja evangélica.
Devido a falta de acessibilidade para cadeirantes, tive que pedi ajuda para dois seguranças que trabalham no puteiro para consegui colocar o Lucas dentro do ‘estabelecimento dos prazeres”. Eu preferia mil vezes, que tudo acontecesse em casa, era só ligar para o puteiro e a mulher viria em casa, igualzinho aqueles serviços de entrega em domicilio, mas o Lucas disse que não. “Eu quero vivenciar o ambiente, aqui em casa não vai ter graça”, dizia ele.
Dentro do local, escolhi a dedo a mulher com quem meu irmão iria perder o cabaço. Mas claro, a decisão final era dele. “Primeiro você escolhe com os olhos e depois eu escolho com as mãos. Preciso sentir se ela é bonita mesmo. Afinal é com as mãos que eu vejo”, dizia. Após uns des minutos de indecisão entre uma loura de 20 anos e uma ruiva de 40, ele preferiu ficar com a segunda opção.
Uma coisa eu sabia, o meu irmão estava em boas mãos. Afinal conforme ela mesma nos disse eram quase 30 anos de experiência. Mas, mesmo ela dizendo que era uma das mais requisitadas para tirar o cabaço dos jovens de Santa Isabel e que meu irmão iria ter uma noite maravilhosa, eu fiz questão de acompanhar eles até a porta do quarto para passar as últimas instruções. Nada podia dar errado naquela noite.
Não podia. Mas deu. Lucas foi com tanta sede ao pote que a ruiva não aguentou e teve uma parada cardíaca lá mesmo no quarto e morreu. A confusão foi geral, o dono do puteiro e os seguranças queriam nos linchar na mesma hora. A sorte foi que a mulher do dono era uma ex-colega de trabalho da mamãe e nos conhecia. Ela disse que a culpa não era nossa e nos mandou embora no mesmo instante. Não sei como, mas eu consegui descer uma escada imensa sozinho segurando o Lucas sentado na cadeira de rodas. Foi o medo, só pode ter sido o medo.
No caminho para casa o Lucas não falou uma palavra. Aquele silêncio dele me incomodava bastante, mas eu precisava respeitar. Afinal, a noite tinha sido péssima para a gente. Assim que chegamos ao portão de casa, ele olha para mim com um cara de frustrado e diz com um tom de serenidade “Sabe o que foi o pior de tudo, Lennon”. Não, o que foi. “É que eu nem consegui gozar, acredita”. O riso foi geral. Não conseguimos parar de ri... Esse é o meu irmão!

2 comentários:

  1. hahahaha

    Morri de rir com este 5o. dia...

    Posso dar um conselho, digamos, em off?
    Tira o nome da Igreja do texto ou inventa um que não exista... Isso dá o maior rebuliço, meu amigo!

    Beijocas e boa semana!

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  2. É, velho!!!

    Agora te vira pra achar o Lucas rsrs

    A história fica cada dia melhor... mas se fosse eu, primeiro me cagava de medo, depois eu choraria com a história rs

    Quanto ao puteiro... foi uma morte gostosa, né?

    Bjs, querido!

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