domingo, 22 de agosto de 2010

Em busca de John Lennon (parte II)


Entre dezenas de revistas e livros expostos ao lado do balcão de atendimento da loja de conveniência, três livros chamaram a minha atenção. Visivelmente feitos de forma artesanal, os livros, cada qual com uma capa diferente, apresentavam o mesmo título. “O Diário da vida de John Lennon”. Era exatamente a mesma história que estava na agenda da Seduc, a única diferença é que agora tinha sido reproduzida numa máquina de escrever e grampeada com folhas de papel reciclado.
Os livros não traziam nenhuma informação a mais daquelas disponíveis na agenda. Tudo seguia a risca. Cada capítulo e subcapitulo do diário que estava em minhas mãos. O quebra-cabeça sobre o verdadeiro paradeiro do pequeno vendedor de pamonhas de Santa Isabel começava a ficar cada vez mais enigmático.
Perguntei ao balconista sobre a origem daqueles livros e ele disse que foram deixados na loja por uma senhora que visitava frequentemente o posto de gasolina. “Os livros estão aqui há um ano e até agora ninguém comprou. De vez em quando a mulher vem aqui para saber se algum já foi vendido”, disse o rapaz do balcão.
Pedi para ele me dar mais informações sobre essa tal mulher. Mas a priori, ele não parecia nenhum pouco disposto. Muito desconfiado, só começou a descrever as características dela depois de ter me perguntando pela terceira vez consecutiva se eu era policial. Disse que ela aparentava ter em média uns 45 anos, negra, um pouco gorda, baixa estatura, cabelos pintados por uma cor que lembrava castanho claro e costumava usar longas saias.
Com exceção das saias, todas as características descritas pelo rapaz do balcão eram as mesmas da mãe de John Lennon. Tal qual o pequeno vendedor escreveu no diário. Comecei a juntar as informações e cheguei a uma conclusão. Agora as coisas pareciam fazer sentindo. Só poderia ser mesmo a mãe do John. Mas onde ela mora? Como eu vou encontrá-la?
“O que você quer com a minha mulher?”. Disse um frentista do posto anexo que entrara na loja para tomar café e permaneceu ali ouvindo toda a minha conversa com o balconista. O homem de aproximadamente 50 anos, de cabelos grisalhos e com um dos dentes caninos de ouro falou que aqueles livros eram produzidos por sua mulher e que se eu fosse jornalista era melhor dar meia volta porque a mulher dele não iria se expor. “A minha esposa é uma mulher de família, evangélica e não gosta de está se mostrando. Ela só faz esses livros aí porque isso foi o ultimo pedido do filho dela antes de morrer”.
Antes de morrer? “Exatamente isso”, enfatizou o frentista. “O John Lennon morreu há mais de um ano”.
Abaixo publico na integra o quarto capítulo do diário de John Lennon Souza da Silva.



O DIÁRIO DE LENNON (quarto dia)
O dia da minha mãe


Quero dedicar o capitulo de hoje para a minha mãe. Dona Mariana Souza da Silva. Batalhadora mãe de 12 filhos e que hoje completa mais um ano de vida. Ah, sim antes de contar qualquer coisa, preciso esclarecer aqui uma informação que dei no primeiro dia em que comecei a escrever este diário. Minha mãe não está grávida. Aqueles enjôos que ela estava sentindo não eram sinais de mais uma gravidez. Ainda bem.
Tem duas coisas na minha mãe que eu nunca entendi. A primeira é que ela nunca usou saia e a segunda é que ela prefere correr o risco de engravidar mais uma vez do que se operar para não ter mais filho. Em minha opinião, para o trabalho que ela exerce deveria ser obrigatório fazer essa cirurgia das trompas. Não dá para confiar apenas em preservativos. Meus dois últimos irmãos foram frutos de camisinhas estouradas.
A respeito do uso de saia, desde pequeno eu ouço a seguinte máxima em casa “Saia é coisa de mulher submissa. Eu jamais vou usar saia. Porque eu posso ser puta, meu filho. Mas submissa eu não sou”, dizia minha mãe para quem quisesse ouvir. O seu grande orgulho sempre foi não ter um marido para dar satisfações, dizia que homem só era bom na cama e de boca fechada.
Acho que o fato de ser um cara que também não gosta de dar satisfações para ninguém foi a herança mais forte que recebi dela. Em outras questões somos completamente diferentes. Se eu fosse ela já tinha mandando a Loura “tomar no cú” há muito tempo e já teria saído daquela espelunca onde trabalha. Em relação à paciência, minha mãe é quase um monge budista perto de mim.
Não sou de briga e também detesto violência, mas tenho que admitir que paciência é uma coisa que não tenho. Se tenho eu ainda não encontrei. Hoje mesmo tive uma experiência nada agradável em relação a isso. Já era finalzinho da tarde e restavam apenas três pamonhas para vender quando um motorista de um caminhão para ao lado do ponto onde eu fico e compra todas as pamonhas. Ele come as três e depois diz que não vai me pagar porque não tem dinheiro trocado. Ah, aquilo me deixou puto. Eu não sou palhaço. Não fico desde as 6h da manhã naquela estrada para servir de palhaço para os outros.
Ele viu que eu tinha ficado puto com aquilo e na mesma hora abriu a porta da boleia do caminhão e pegou um revolver calibre 38. Disse para eu sair correndo dali se não eu ia morrer naquela mesma hora. Aí eu fiquei cego, não sei até agora como eu consegui enfrentar aquele desgraçado, mas eu enfrentei. Na mesma hora que ele apontou a arma para a minha cara, eu pulei em cima dele para tomar o revólver.
Graças a Deus. Ou sei lá quem, porque para falar a verdade eu não acredito muito em coisas divinas. Mas o certo é que graças a sorte, eu não morri ali mesmo. Assim que pulei para cima dele o revolver disparou e por pouco (Seja por Deus, ou pela sorte) a bala não pega na minha cara. Na mesma hora, todos os meus companheiros que trabalham comigo vendendo produtos na estrada viram aquela cena e também partiram para cima do caminhoneiro filha da puta. Que tenho certeza que a parti de hoje, nunca mais vai enganar nenhum pobre vendedor de beira de estrada.
Ah, sim, só para esclarecer, o desgraçado não morreu. Mas porque eu não quis. O pessoal queria acabar com ele ali mesmo. Eu disse que não. Sempre defendi que ninguém tem o direito de tirar a vida de ninguém, inclusive de caminhoneiros que não valem o que comem. A surra já estava boa o suficiente para ele ter aprendido a lição. Agora preciso ir, estou preparando um bolo junto com o Lucas para fazer uma surpresa quando a minha mãe chegar do trabalho. Afinal hoje é o dia dela.

3 comentários:

  1. Agora tô mais intrigada ainda!!!! Precisamos conversar sobre rsrsrssr

    PS: tá melhorando a cada dia.


    Bjss

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  2. Caraaaaaaaaaaaaaaca tá cada dia melhor, veio...

    To até vendo isso filmado já...

    Bjs abraços e apertos!

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  3. Gostei disso aqui...Como começou? Quero dizer, como surgiu a idéia de criar esta história?

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