terça-feira, 13 de abril de 2010

Relatos de um capitão


Na manifestação da Marujada de São Benedito, um ritual de dança ritmo, louvor e devoção que ocorre há mais de 200 anos na cidade de Bragança, nordeste do Pará, encontrei um exemplo de vitalidade que vale a pena se registrado aqui. Seu Teodoro Ribeiro Fernandes, capitão da Marujada ( cargo vitalício exercido por marujos mais velhos que são considerados bons dançarinos) nos conta como começou a sua história neste ritual.

Sentando em um banco de madeira, debaixo de uma barraca, no fundo do quintal de uma casa, no subúrbio de Bragança, seu Teodoro Fernandes Ribeiro, 100 anos, conta sua história ao mesmo tempo que degusta um prato com caranguejos, limão e farinha d’água. As mãos trêmulas denunciam o estado enfermo em que ele se encontra. Com a voz cansada pelo tempo, ele vai lembrando os momentos marcantes de sua trajetória como capitão da Marujada.

Seu Teodoro começou a ser marujo por volta de 1956. A entrada dele na Irmandade da Marujada foi para pagar uma promessa que fez para ficar curado de um ferimento na perna provocado por um tiro de espingarda. O acidente ocorreu numa emboscada no meio da mata, na região dos campos de Bragança. Ele não sabe quem atirou e nem o motivo daquele atentado. Sempre se considerou um homem pacífico, e afirma que nunca teve inimizades. O ferimento provocado pelo tiro fez com que seu Teodoro parasse de andar e ficasse internado durante três meses na Santa Casa de Misericórdia, em Belém. Após seu retorno para Bragança, ele prometeu a São Benedito que se fosse curado e voltasse a andar iria sair todos os anos de marujo.

Sem nenhuma modéstia, ele diz o quanto dançava bem todos os ritmos da Marujada. Xote, retumbão, mazurca, chorado, valsa, contradança. O fato de ter sido um excelente “pé de valsa”, foi o que segundo ele, determinou a sua escolha de capitão pelos membros da Irmandade. Mas, o cansaço nas pernas provocado pela idade fez com ele parasse de dançar. Desde 2006, seu Teodoro não dança mais. “As doenças da velhice foi chegando e toda aquela vitalidade que eu tinha foi se acabando”, conta. Agora a sua roupa de marujo só é usada uma vez ao ano, dia 26 de dezembro. Ele faz questão de estar vestido a caráter para ver a passagem da marujada durante a procissão em homenagem à São Benedito.


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