terça-feira, 14 de dezembro de 2010

Que santo é aquele que vem acolá?

No próximo dia 18 de dezembro a cidade de Bragança, município localizado no nordeste paraense, dará início a mais uma Festividade do Glorioso São Benedito. E com ela, a renovação de uma das maiores manifestações de resistência cultural na Amazônia, a Marujada de São Benedito. Um ritual de dança, canto e devoção em louvor ao santo padroeiro dos escravos.
Apesar do ápice da festividade ser durante o último mês do ano, os preparativos para a festa começam bem antes. “Mais precisamente entre o final de abril e o início de maio, dependendo da estiagem da chuva”, explica João Batista Pinheiro, presidente da Irmandade da Marujada. É nesse período que três comissões formadas por devotos de São Benedito saem da cidade de Bragança para peregrinarem por toda a região levando a imagem do santo de casa em casa. Esse ritual possui uma média de sete meses e só termina nos dias próximos à festividade quando as comitivas retornam para o município.
Denominadas de comitiva de “São Benedito da Colônia”, “São Benedito dos Campos” e “São Benedito da Praia”, é durante a esmolação que o laço dos devotos com o “santo preto” passa do campo espiritual para o campo real. “As pessoas não recebem em casa apenas uma imagem de São Benedito, elas recebem o próprio santo, como se fosse gente. Um ente querido”, afirma o historiador Dário Benedito Rodrigues. Segundo ele, é durante o ritual da esmolação que ocorre a renovação da fé entre os devotos do santo.
O simbolismo presente na esmolação é marcado por vários ritos. De acordo com o pesquisador Dedival Brandão, o momento da reza é o mais importante de todos, pois corresponde ao agradecimento do devoto. "Outro rito fundamental durante a esmolação é a prática de cantar uma folia, isto é, uma quadra de versos com temas bíblicos, entoados na casa dos devotos em troca de um donativo que pode ser dinheiro ou gênero alimentício” conta Brandão.
De acordo com o padre Nelson Magalhães, diretor religioso da Festividade, cada comitiva possui um encarregado. Uma pessoa indicada pela Irmandade da Marujada e pela Igreja para coordenar o grupo de esmolação. Exercendo a função de encarregado da Comitiva da Praia pelo terceiro ano consecutivo, José Brito, conhecido como Zezinho, se diz muito gratificado com o seu trabalho. “Eu sou muito grato por levar São Benedito aos seus devotos. É muito bom trabalhar com as coisas de Deus e Ele certamente recompensa a gente por isso”, afirma Zezinho. Acompanhe abaixo, um pouco mais sobre essas comitivas:


terça-feira, 7 de dezembro de 2010

Os dez filmes da década


No próximo dia 31 de dezembro não termina apenas o ano, mas também uma década. E, diga-se de passagem, a primeira década dos anos 2000. Tempo para reavaliar conceitos, repensar padrões, fazer uma retrospectiva do quanto evoluímos e/ou involuimos nesses dez anos. E claro, também fazer as famosas listas dos melhores da década. Discos, músicas, filmes, livros... Pensando nisso, propus um desafio a dois amigos blogueiros, a jornalista Yorranna yorrannaoliveira.blogspot.com e o estudante de Comunicação Social Eraldo Paulino eraldopaulino.blogspot.com. Criar uma lista com os dez melhores filmes lançados na última década.
Como toda eleição de “lista de dez mais” que se preze a nossa também não faz nenhuma questão de ser democrática. É obvio que surgirão criticas, condenações, gente que discorda apenas por discordar, mas sinceramente. Que graça tem ser unânime?
A minha lista especificamente não segue nenhum padrão técnico, de estética, de superproduções cinematográficas ou originalidade. Apenas o quesito roteiro impecável. E o que todos esses filmes têm em comum? O fato de após sair da sala de cinema pensar: “Eu queria ter escrito isso”. Então vamos ao que interessa.
Em décimo lugar, o longa-metragem norte-americano Sobre Meninos e Lobos (2003) do diretor Clint Eastwood. Na nona posição o filme brasileiro Zuzu Angel (2006) de Sergio Resende. Em oitavo lugar o musical Across The Universe (2007) de Julie Taymor. Ocupando a sétima posição o clássico O Leitor (2009), do diretor Stephen Daldry, baseada no romance de Bernhard Schlink. Em sexto lugar, o brasileiro Cidade de Deus (2002) de Fernando Meirelles.
A quinta posição traz À Procura da Felicidade (2006), de Gabriele Muccino. Em quarto lugar O Segredo de s
eus Olhos (2010), do argentino Juan José Campanella. A terceira posição da lista fica com o filme Última Parada 174 (2008), do diretor Bruno Barreto. Em segundo lugar Os Sonhadores (2003) de Bernardo Bertolucci. E no topo da lista, Diários de Motocicleta (2004) de Walter Salles.
Dando sequencia ao desafio agora passo a bola para o Eraldo Paulino. Então caríssimo, qual a sua lista?

domingo, 28 de novembro de 2010

Afinal, o que querem os anti-sociais?


“Os anti-sociais são discriminados o tempo todo e ninguém faz nenhuma campanha para defender essa categoria”. A frase é de Leonardo Cortez, um amigo jornalista extremamente anti-social. Segundo ele, as pessoas não respeitam o fato de alguém querer ser discretamente reservado e ficar em casa ao invés de sair para um programa com os amigos ou em família.

Apesar de malucos, os argumentos pós-freudianos dele possuem lógica. E por isso tive que concordar com algumas questões. Eu mesmo, muitas vezes agir como um “antissocial-fóbico”, neologismo criado pelo Léo para definir quem tem aversão ao ser anti-social. Quantas e quantas vezes eu liguei para a casa de um amigo o recriminando por ele não ter ido para tal evento e fiquei puto quando ele respondeu que não foi porque queria ficar sozinho ou não estava com vontade de ver gente.

Árduo defensor da categoria, Léo explicou que essa história de que anti-social não se diverte é conversa para boi dormir. “Não existe apenas uma maneira de se divertir, pelo contrário. O anti-social aproveita o seu lazer de outra forma. Ele não precisa está em todos os lugares top, onde seus amigos ou parentes estão, para se divertir”, afirma.

As teorias do Léo vão ainda mais além quando ele desmistifica lendas como o anti-social é reclamão, muito tímido e reprimido sexualmente. “Isso tudo é mentira, não precisa ser necessariamente tímido para não querer está perto de muita gente. E outra, se tem uma qualidade que vale para todos os anti-sociais é a sinceridade. Eles jamais bancam o ‘boa praça’. Ou eles gostam de alguém ou não gostam. Não existe meio termo”, completa.

Confesso que depois dessa aula de combate à “antissocial-fobia” ministrada pelo Léo passei a rever alguns conceitos. Até porque analisando bem, já estive do outro lado do balcão. E algumas vezes tudo que eu queria também era apenas ficar sozinho sem ninguém para encher o saco. Ou “curtido o meu eu”, nas sábias palavras do meu amigo PHD no assunto. Afinal, quem nunca teve seu momento anti-social que atire a primeira pedra. Ah, sim. E antes que termine sem responder a pergunta que dá título a este texto, eis aí a resposta do Léo: respeito, sexo e amizades sinceras.

domingo, 21 de novembro de 2010

A aposta


Era a primeira vez que Adriana frequentava uma festa de aparelhagem sonora. Seu olhar de espanto e repúdio no local era nítido. Ela nunca fez questão de esconder seu preconceito com esse tipo de festa, mas o destino foi irônico com a jornalista. Após perder uma aposta com uma amiga sobre o nome completo do primeiro álbum de Jimmi Hendrix não tinha mais jeito. Ela precisava visitar o ambiente que sempre rejeitara.
Ao invés de dizer “Are You Experienced”, o verdadeiro nome do disco, ela disse “Axis: Bold as Love”, o nome do segundo álbum do cantor. O fato já estava consumado. E mesmo arrependida Adriana nem pensou em voltar atrás. Aposta era aposta. E agora tudo que restava era enfrentar o desafio e ir a uma festa de aparelhagem com a amiga.
O som ensurdecedor das batidas do tecno-brega deixavam Adriana transtornada. Pela regra da aposta ela deveria ficar pelo menos duas horas no local da festa. Mas cada minuto para ela parecia uma eternidade.
___Já chega, Renata. Já fiquei aqui tempo suficiente para cumpri a aposta!
___Nada disso, menina. Tu vais ficar aqui. O combinado é duas horas e não faz dez minutos que estamos aqui.
___Quem tem amiga como você, não precisa de inimiga mesmo. Deves tá se divertindo com o meu sofrimento...
___Relaxa, mana. Faz o S. Assim como eu, olha.
Adriana deu de ombros para a amiga e foi em direção ao banheiro. Por mais que estivesse odiando tudo aquilo não voltaria atrás. Pelo menos não sem o consentimento da Renata. Para Adriana “dar o braço a torcer” significava a morte. Ela jamais faria isso.
Na fila do banheiro, com as mãos nos ouvidos, Adriana é abordada por um rapaz carregando um balde com sete latas de cerveja.
___Desculpa eu te incomodar, mas tô vendo que você tá igual um peixe fora d’água aqui na festa
Os estrondosos decibéis da aparelhagem não deixaram ela ouvir.
___Hein? Não entendi?
___ Você tá igual um peixe fora d’água aqui na festa. Por que veio pra cá?
___Ah, meu amigo. Se eu ti falar que nem eu sei por que diabos eu tô aqui, você acredita?
___Sim, é muita bonita.
Adriana riu. Ele ouviu com exatidão tudo o que ela falou. Os altos decibéis nunca foram problema para ele que convive há anos nesse ambiente. E por mais alto que estivesse o volume, os anos de festa de aparelhagem o fizeram adquiri a prática da leitura labial. Portanto, sua resposta não foi dada á toa.
___Não você entendeu mal. Eu não disse que era bonita. Eu disse você acredita.
___Acredito, sim. O meu nome é Jonas. Qual o seu?
A cantada dele funcionou. Afinal ela também queria um motivo para se distrair enquanto aguardava as duas longas horas combinada com a amiga. Isso foi o que bastou para eles ficarem conversando na frente do banheiro feminino. Entre um papo e uma insinuação as latinhas de cerveja eram degustadas.
Próximo da mesa sonora do DJ, Renata não parava de olhar o relógio. Já havia passado mais de uma hora e sua amiga ainda não tinha voltado do banheiro. A medida que o tempo aumentava ela ficava mais preocupada ainda. “Será se a Adriana já foi embora. Mas a chave do carro tá comigo”, pensou. Faltando dez minutos para a hora combinada de ir embora, Renata resolveu andar pela festa para procurá-la.
Na mesa sonora, o DJ anuncia “Só quem tá solteiro faz o S”. Renata procura pela amiga no banheiro e não encontra nada. O DJ avisa “quem quiser ser a princesinha do Pop suba agora aqui no altar sonoro”. Renata volta para o lugar onde estava e se surpreende com o que vê. Com os sapatos na mão e toda descabelada, Adriana sobe no “altar sonoro” e em seguida começa a fazer o S e dançar sobre a mesa de som.
Foto: Tarso Sarraf

domingo, 14 de novembro de 2010

Publicidade do lado de lá

Procurando alguns arquivos de vídeo no computador, encontrei uma peça publicitária produzida e dirigida pelo meu amigo Kelves Raniery, jornalista nascido e criado em Cametá, município localizado no nordeste do Pará. O comercial criado em 2009 para uma concessionária de motos fez sucesso na cidade e não foi à toa. O Kelves optou em valorizar a cultura e a linguagem local para que os moradores da cidade se identificasse logo de cara com a proposta apresentada. Como dizem os cametaenses da gema: vale a pena "espiá, sumano".





quarta-feira, 3 de novembro de 2010

Maldita Geni


A personagem descrita por Chico Buarque na música “Geni e o Zepelim” nem de longe lembrava a recatada doméstica Geni dos Anjos. Mas foi exatamente por causa dessa música que ela herdou esse nome. Seus pais, hippies andarilhos, que vieram da Argentina para percorrer os quatros cantos da Amazônia, batizaram ela com um nome que segundo eles, daria força e personalidade forte para a menininha nascida às margens do Rio Negro.

Tímida e introspectiva, Geni cresceu e se tornou o oposto da mulher imaginada por seus pais. Aos 27 anos de idade e há dois anos namorando Eraldo, seu ex-professor de Ensino Religioso que esperou 36 meses por um sim, ela finalmente decidiu que queria deixar de ser virgem. A decisão veio depois de um sonho em que ela e o namorado faziam amor numa praia deserta. E como também é perfeccionista, Geni queria que tudo fosse igualzinho ao sonho, com direito a praia deserta, barraca de camping e uma fogueira.

Após um mês de preparação, tempo que representou um século para o Eraldo, eles organizaram tudo. Escolheram a praia e o dia, a data do aniversário de namoro deles. O sonho finalmente estava perto de se tornar real. Tão perto que a paciência do Eraldo esgotou literalmente assim que os dois colocaram os pés na areia.

Geni decidiu que só faria amor após tudo montado tal qual no sonho, incluindo barraca e fogueira. Eraldo não argumentou nada, somente fez tudo que ela pedira. E mesmo após a preparação de todo o cenário, Geni insistira em fazer cú doce. De cócoras de frente para o mar, ela falou que só faria amor depois que rezasse todo um rosário. Aí, ele explodiu e começou a gritar.

___Chega, Geni! Não podia ser mais fácil se isso fosse lá em casa? Eu moro sozinho. Precisava mesmo fazer essa presepada toda só pra me dá? Nós já gastamos muito tempo e dinheiro nisso aqui...

___Cala a boca, Eraldo! Assim você me atrapalha. Não vê que estou rezando? Poxa, assim você perde todo o romantismo.

___Eu não aguento mais esse jejum. Será que você não entende?

___Chega! Quem não aguenta mais sou eu. Quer saber eu desisto. É isso mesmo desisto de fazer amor com você. Eu vou votar pra casa agora.

___Ah, mas não vai mesmo! Não, sem antes fazer o que você veio fazer aqui.

___Não. Já disse, não! Esse seu machismo truculento acabou com a minha vontade.

Ao perceber a reação de Geni, Eraldo começou a chorar e pediu desculpas. Geni abraçou seu amado e disse que só o perdoava com uma condição. Ele teria que esperar o dia amanhecer, pois no famigerado sonho eles faziam amor exatamente meia hora antes do sol nascer.

Mesmo contra sua vontade, Eraldo concordou. Respirou fundo, contou até cinco e disse que tudo estava sob controle. Os dois dormiram lado a lado na barraca, mas ele não ousou tocá-la. Prometeu para si mesmo que iria respeitar a decisão da sua amada.

Lá pelas tantas da madrugada, Geni acordou sorrindo. Saiu da barraca cantando quase que em sussurro a música em homenagem ao seu nome, foi em direção a fogueira e disse:

__Realmente, tudo está como eu planejei.

Em poucos segundos, Eraldo morria queimado.

domingo, 24 de outubro de 2010

Templos ou Franquias de Deus?


“Para receber é preciso doar.” A mensagem acima do altar da Igreja Pentecostal da Graça Divina é claro e objetivo. Todos os 59 frequentadores do templo são obrigados a ceder 10% do salário para a Igreja. “O Dizímo não é uma invenção dos pastores evangélicos, como muita gente pensa. Está escrito na Biblía. Devemos doar ao Senhor a décima parte do que recebemos”, afirma Edinaldo Silva, Pastor há 8 anos da Igreja Graça Divina.
O faturamento através da fé rende ao pastor Edir, como Edinaldo prefere ser chamado, o equivalente a R$2.000 por mês. A Igreja situada na comunidade Jardim Brasil, no bairro do Coqueiro, em Ananideua, pouco difere das mais de 500 da linha cristã pentecostal abertas em todo país somente no ano passado. Os dados são do Instituto de Pesquisa Acertar, divulgados em fevereiro deste ano.
Segundo o Instituto, o fato dessas igrejas arrecadarem dinheiro sem precisar declará-los e ainda serem isentas de impostos são os principais motivos para proliferação desse tipo de comércio. “O Brasil possui uma das maiores taxas de mortalidade empresarial precoce do mundo. Cerca de 80% das empresas que surguem no país vão a falência antes de um ano. Mas, quando falamos em templos religiosos a coisa muda. Basta umas cadeiras, um microfone e um pastor para o negócio dar certo”, diz Emílio Brandão, economista do Instituto Acertar.
A facilidade para se abrir uma Igreja no país afeta diretamente o crescimento desenfreado desse mercado. Somente no bairro da Cabanagem, em Belém, existe 58 templos religiosos diferentes da linha pentecostal. Valmir Araújo, 29 anos, é o mais recente “empreendedor da fé” no bairro. Há dois meses Valmir alugou uma garagem na Avenida Independência, investiu R$ 520,00 reais na compra de cadeiras e amplificadores e começou a promover cultos diariamente. “Eu sempre dizia que um dia eu teria a minha igreja. Já frequentei várias denominações religiosas, mas nunca escondir a minha vontade de administrar sozinho meu próprio templo”, afirma.
A criação em massa de igrejas pentecostais começou nos Estados Unidos e veio para o Brasil no início da década de 70. Alguns templos que começaram em prédios alugados, longe dos centros da cidade, são hoje verdadeiras redes evangélicas. A Igreja Universal do Reino de Deus, do bispo Edir Macedo e a Igreja Internacional da Graça de Deus, do missionário Romildo Ribeiro Soares, representam muito bem essas redes, que além de igrejas possuem ainda concessões de emissoras de rádio e televisão.
A falta de conhecimento, aliada ao cenário de injustiça social presente no Brasil são os maiores contribuidores do crescimento dessas megas redes de templos evangélicos. A aposentada Maria Helena de Sousa, de 70 anos, é um exemplo disso. Todos os meses ela destina R$ 51,00 reais aos cofres da Igreja da Graça Divina. O equivalente a décima parte do salário mínimo que recebe. “Todo cristão tem obrigação de pagar o dízimo. Eu não reclamo nem um pouco de devolver a Deus o que Ele me dá. Pode até faltar a minha farinha, mas o meu dízimo é sagrado”, diz a aposentada.
Casos como o de dona Maria Helena, são comuns entre os frequentadores de igrejas evangélicas. O comprometimento dos fiéis na doação do dízimo é o que faz a economia dessas igrejas girarem. “A igreja também tem gastos como qualquer outra estabelecimento. Se não estivermos com a conta de água, de luz e com as nossas despesas pagas, a gente não pode dar continuidade ao trabalho de evangelização”, defende o Pastor Edir.

terça-feira, 19 de outubro de 2010

As crias do arraial




Se depender da alegria das crianças que participam do arrastão do Círio, o tradicional cortejo que este ano completa uma década, ainda terá muitos anos de vida. Elas estão por toda a parte, seja carregando os brinquedos artesanais produzidos pelo Instituto Arraial do Pavulagem, seja no abre-alas, no Batalhão da Estrela, ou apenas acompanhando a passagem, a presença de inúmeras crianças no cortejo deixa claro que muitos outros arrastões virão por aí.
Mauro André, 6 anos, veio de Bragança-PA acompanhado pela avó, especialmente para acompanhar o arrastão do Círio. É a primeira vez que ele participa, mas a familiaridade com os brinquedos e com a sonoridade do arrastão é tanta, que parece que ele já é veterano no cortejo. “Eu faço questão de trazer meus netos para participarem desse momento tão bonito da nossa cultura”, diz dona Teresa da Silva, que há seis anos acompanha o arrastão do Círio. “Todos os anos eu trago o meu outro neto, irmão do André, mas este ano prometi que iria trazer ele. E nem precisa perguntar se ele está se divertindo não é?”, diz a vó, toda contente.
Assim como André, João Guilherme, 4 anos, também participa pela primeira vez. Ele é um dos primeiros da fila do abre-alas do cortejo. Dentro do cavalinho de brinquedo produzido especialmente para esse momento, ao lado do pai, João é uma animação só. “É a segunda vez que participo do arrastão. Ano passado eu vim e fiquei encantado com esse clima. Por isso, fiz questão de trazer meu filho para essa festa”, diz Alexandre, pai de João, que veio do Ceará.
Dona Marluce trouxe os três filhos, de sete, nove e doze anos para participar do cortejo. Enquanto as crianças se divertem com os brinquedos de miriti, a mãe aproveita para dançar os ritmos tocados pelo Batalhão da Estrela. Segundo ela, já virou tradição. É só se aproximar o Círio que os filhos perguntam se ela vai para o arrastão. “Eles já sabem que quando é tempo de Círio é tempo de arrastão. E nem que eu queira, eu não posso dizer não. Até porque, a família toda se diverte”, diz.
Fotos: Naiara Balderramas

quinta-feira, 7 de outubro de 2010

Quatro vezes amor


O relógio despertador toca pela segunda vez. São sete horas da manhã. Geyse lembra de cada minuto da noite anterior. A melhor noite da minha vida, pensa ela. O cheiro do orgasmo ainda permanece na sua cama. Uma mancha roxa e dolorida em seu pescoço era a prova que aquela noite não teria sido um sonho. Ela fecha os olhos e sorri.
Há cerca de cento e dez quilômetros dali, na rodovia BR-316, a 80 quilômetros por hora, Fred também recorda de cada gesto da noite anterior. O pensamento dele está tão distante que não percebeu quando alguns guardas da policia rodoviária acenaram para sua caminhonete parar.
No saguão do aeroporto internacional de Belém, a poucos minutos de embarcar para Buenos Aires, Paulo recebe uma mensagem no celular. Obrigado pelo nosso reencontro. Na mesma hora liga para Geyse e agradece pela noite anterior. Desde que foi morar na Argentina, era a primeira vez que ele retornava à Belém.
Numa emissora de TV local, em Belém, Luciana se prepara para apresentar mais uma edição de um telejornal. Nos bastidores da TV cochichavam que o “bom dia” dado pela apresentadora foi o mais sincero desde que ela começou trabalhar na emissora. Enquanto chama a primeira reportagem do dia, seu pensamento é dominado pelas lembranças da noite passada.
Antes do relógio despertador tocar pela terceira vez, Geyse se levanta da cama e liga a televisão. Na tela, vê sua amiga apresentadora que não consegue disfarçar a felicidade que sente. Fazia exatamente 3 anos que os quatros amigos não se reuniam. O despertador toca novamente.

domingo, 26 de setembro de 2010

Um amor livre...


O cenário é uma praia tipicamente amazônica, às margens do rio Tocantins. Tiely parece não acreditar no que está acontecendo. A menos de doze horas ela estava em Brasília enfrentando uma maratona entre a redação do jornal e a assessoria de imprensa que trabalha. Marcus já havia planejado mais de três vezes esse mesmo encontro, mas somente agora conseguiu realizar.
Os dois não se viam desde o inicio do ano, quando Tiely foi contratada por um jornal em Brasília e Marcus foi chamado para trabalhar numa TV no interior do Pará. O destino separou os corpos, mas jamais a alma dos dois. Nesse exato momento tudo que eles queriam era que o tempo parasse.
Marcus estaciona a moto na orla da praia, enquanto Tiely tira os sapatos e vai em direção à água. A praia está deserta. Tudo parece perfeito demais até cinco minutos após a segunda vez que fizeram amor. Marcus fala que essa vai talvez seja a última vez que os dois estarão juntos. Tiely muda seu semblante e pede para ele repeti.
Ele diz que está apaixonado por outra pessoa. Ela baixa a cabeça, respira fundo e depois ri. Ele não entende nada. “Isso não é motivo para a nossa separação. Eu também estou apaixonado por outra pessoa. Mas o que sentimos um pelo outro é maior que tudo”, diz Tiely. Os dois se beijam e começam mais uma noite de amor.

sábado, 18 de setembro de 2010

O começo de tudo...


Dois dias depois de ter desligado o telefone na minha cara, Lucas resolveu me procurar para falar a verdade sobre a vida do seu irmão. Com a ajuda da minha amiga assessora do grupo de música o qual ele faz parte, Lucas conseguiu o endereço da minha casa. Pediu desculpas pela maneira que agiu da última vez e disse que iria contar tudo sobre “o diário de John Lennon Souza da Silva”.
Antes de começar a me falar sobre o pequeno vendedor de pamonhas, Lucas impôs uma condição. Eu não poderia divulgar o seu atual paradeiro, pois ele temia que a sua família o encontrasse. “Afinal de contas eu ainda sou menor de idade e pela lei eles ainda possuem a minha guarda”, disse. O motivo de tanta raiva da própria família é descrito com clareza no depoimento dele, relatado abaixo
Pedindo desculpas novamente, ele confessa a real intenção do diário de Lennon. “Antes de qualquer coisa é preciso esclarecer algo fundamental. John Lennon Souza da Silva nunca existiu. Ele é fruto da minha imaginação. Um personagem que eu inventei para contar um pouco da minha verdadeira história”.
Segundo ele, a verdade e a ficção sempre andaram lado a lado no na história contada no diário. “O que é verdade. A minha mãe trabalha num puteiro, o abuso sexual da minha irmã, a minha tia metida à besta, o local da venda de pamonhas. O resto da história é tudo ficção, como a minha cegueira que é citada no diário. Existem também coisas que foram inventadas, mas baseadas na minha vida real. Como por exemplo, ao invés do abusador da minha irmãzinha ser um vizinho safado, como está na história, na verdade o desgraçado que abusava dela era o meu pai. Aquele frentista que trabalha em Santa Isabel”, disse.
Perguntei por que em nenhum momento do diário ele cita a existência do pai. Pois, na história de John, cada um dos doze filhos possuía um pai diferente. “Porque ele num merecia ser citado em lugar algum. Aquele monstro não abusou só da minha irmãzinha não, mas de mim também. E tudo com o apoio e incentivo daquela que se dizia nossa mãe”.
Lucas contou que a história do vendedor de pamonhas surgiu a partir de uma paixão que ele tinha por um vizinho que era vendedor ambulante. “A criação do personagem vendedor de pamonhas foi uma homenagem ao Leandro, o grande amor da minha vida. A referência ao John Lennon é porque a nossa primeira noite de amor foi embalada ao som dos Beatles. O Leandro adorava as músicas deles, principalmente as que foram feitas pelo John Lennon”.
“O Leandro era um cara muito inteligente, politizado e virado também. Ele não era apenas um vendedor de pamonha, também lavava carros e dava aula de reforço para consegui uma grana. Inclusive estava se preparando para prestar vestibular para História naquele ano. Ele morreu dois dias depois que eu fugi de casa, na época eu ainda estava perambulando por Santa Isabel. O Leandro foi atropelado por um caminhoneiro bêbado, durante uma manhã em que trabalhava na estrada”, contou.
A respeito do episódio descrito no sexto dia do diário, sobre o assassinato de um pedófilo, Lucas conta que isso quase chegou a se concretizar, só que ao invés do vizinho caçador a vitima seria seu próprio pai. “Eu já não aguentava mais tanto sofrimento, por isso resolvi dar um basta nisso. Assim como na história, eu arrumei uma espingarda e tentei atirar nele, na justa hora em que ele se preparava para mais um abuso com a minha irmã. A sorte foi que o tiro pegou de raspão e desde aí, eu tive que fugir de casa, pois já estava impossível a convivência em família”.
Como teve que fugir apenas com a roupa do corpo John disse que acabou deixando o diário incompleto em casa e por esse motivo a história contada por John só prossegue até o oitavo dia. Antes de ir embora, me entregou uma foto dele com o Leandro e pediu para eu scanear. “Quero que você publique essa foto. Onde o Leandro estiver, tenho certeza que ele vai ficar feliz com isso” disse.
Abaixo o ultimo capítulo do diário de John Lennon

DIÁRIO DE LENNON (oitavo dia)


Para mim, o pior crime que existe é a pedofilia. Se eu fosse presidente do Brasil, criava uma lei para que todo pedófilo fosse morto aos pouquinhos dentro de um caldeirão de óleo fervendo. E mesmo assim, ainda seria pouco. Só quem já foi abusado sexualmente quando criança entende a minha revolta contra esses desgraçados.
Comecei o diário de hoje falando em pedofilia porque a Brenda, minha irmãzinha, ainda está sentindo na pele o trauma de ser torturada dessa forma brutal. Mas vamos deixar esse assunto ruim de lado porque isso me dá vontade de vomitar. E eu não quero estragar o meu dia.
Hoje eu também tenho um assunto muito legal para falar aqui. Quero falar de paixão. Nesse oitavo dia de registro, quero confessar que estou apaixonado. Não queria citar o nome da pessoa amada aqui para evitar confusão. A única coisa que posso dizer é que o amor da minha vida começa com a letra L e que me completa, no corpo e na alma literalmente.
Semana passada nós tivemos a nossa primeira noite de amor. Foi a coisa mais linda do mundo. Nossos corpos se entregaram ao som de uma das melhores bandas do mundo. Ou a melhor, como essa pessoa diz.
Confesso que tudo que queria agora era sair correndo, dizendo para todo mundo que estou loucamente apaixonado por essa pessoa. Mas, infelizmente não posso. Ainda não me sinto preparado para enfrentar o ódio da sociedade que condena um amor verdadeiro só porque esse amor foge aos padrões impostos por ela. Ah, mas o importante é que estou feliz. Amanhã nós marcamos de se encontrar de novo. E só de saber disso, minha perna fica bamba e o meu coração acelera...

terça-feira, 14 de setembro de 2010

O segredo de Lucas


Encontrar o Lucas foi mais fácil do que eu imaginava. Seguindo as orientações da mãe dele, confirmei a informação que ele aparece nas cenas do documentário experimental que produzi. O irmão do John Lennon mora atualmente na cidade de Bragança, município do nordeste do Pará. Lugar onde foi gravado todo o documentário. No filme ele aparece junto com um grupo de músicos locais durante um ensaio em homenagem à São Benedito, o padroeiro da cidade.
Assim que confirmei a informação, liguei para uma amiga que faz a assessoria desse grupo de músicos e descobri mais detalhes sobre o paradeiro do garoto. Lucas mora a mais de um ano em Bragança e é responsável pela segurança do prédio da associação de música da cidade. Mas ele é cego, como pode vigiar um imóvel? Perguntei. “Como assim cego? De onde você tirou essa história? A única deficiência do Lucas é a paralisia nas pernas”, respondeu minha amiga.
A resposta da assessora foi confirmada por ele. Lucas disse que começou a enxergar no dia em que Lennon morreu. “Eu não sei explicar como aconteceu, mas no mesmo dia da morte do meu irmão, eu acordei enxergando as coisas. Pra mim foi um susto, a reação que tive foi guardar isso só pra mim. Tinha medo de ser apenas uma alucinação. Eu estava me preparado pra contar pro Lennon só à noite, quando ele chegasse do trabalho. Mas quando eu ia falar, nós recebemos a notícia que ele tava morto”, contou.
Segundo ele, a fuga para Bragança foi devido a não aguentar mais apanhar tanto de sua mãe. “Apesar de em nenhum momento o Lennon falar isso no diário, eu era muito maltratado pela minha mãe. E sabia que sem a presença do meu irmão em casa, a coisa ia piorar. Agora, por favor, se foi ela que mandou o senhor me procurar, fala pra ela que não me achou tá bom. Eu não quero voltar pra casa. Não quero”, disse. Em seguida desligou o telefone na minha cara.
Abaixo a íntegra do sétimo capítulo do diário de John Lennon:

DIÁRIO DE LENNON (sétimo dia)

Não sei se é impressão minha, mas confesso que estou me sentindo mais inteligente depois que comecei a escrever este diário. E até já estou levando a sério a ideia de ser escritor. Inclusive até falei isso para uma repórter de televisão que esteve hoje de manhã lá na BR. Ela tava entrevistando os vendedores de pamonha e perguntando sobre o que eles pensam sobre o futuro do país. Afinal estamos em 2008, e é ano de eleição.
A resposta da maioria dos vendedores de lá foi que eles esperam vender o dobro de pamonhas no futuro e terem sua própria barraquinha de venda na estrada. Quando eu respondi para a repórter que no futuro eu queria ser escritor, todos meus colegas me deram uma vaia. “Deixa de besta, John. Onde já se viu escritor vendedor de pamonha. Isso é coisa de gente rica”, disse seu Juscelino, 60 anos, o “pamonheiro” mais velho lá do meu trabalho. “Escritor não é profissão pra homem. Onde já viu isso?”, disse Pelezinho, outro vendedor.
Tudo bem. Eu entendo a ironia e a ignorância deles, afinal a metade dos vendedores que trabalham comigo na estrada são analfabetos e a outra metade mal sabe escrever o nome. O problema foi a repórter, que ironizou a minha resposta e me perguntou novamente. “Tá, mas o que você quer ser mesmo no futuro. Como você se vê daqui a alguns anos?”. Eu quero ser escritor. Tem algum problema?
Ela queria que eu respondesse igualzinho aos meus companheiros de trabalho. É absurdo com às vezes as pessoas fazem perguntas afirmativas, esperando não uma resposta, mas a confirmação da pergunta. Sei que não é fácil se escritor num país onde a maioria da população não gosta de lê e se as políticas de incentivo à leitura são quase nulas. Mas mesmo assim, acredito que um dia serei um escritor.

terça-feira, 7 de setembro de 2010

As primeiras confissões


A publicação na íntegra do sexto dia do diário de John Lennon Souza da Silva, postada abaixo, contou com a autorização de sua família. As revelações feitas por ele foram confirmadas por todos da casa. Após uma série de esclarecimentos, principalmente por parte do padrasto de Lennon, fui autorizado a reproduzir por completo todo o diário do pequeno vendedor de pamonhas aqui no blog. Mas, com uma condição. Encontrar o paradeiro do pequeno Lucas. Uma saga que está apenas começando....


O DIÁRIO DE LENNON (sexto dia)

Neste sexto dia de registro, quero começar fazendo uma confissão. Eu já assassinei um homem. Quer dizer homem, não. Um desgraçado, monstro, filha da puta que abusou da minha irmãzinha de 8 anos. Como eu já tinha falado antes aqui, em casa mora eu, a minha mãe e os meus seis irmãos. E como minha mãe passa quase o dia todo no Bar da Loura, eu acabo muitas vezes, mesmo que ausente, assumindo o papel de pai lá em casa.
Foi graças a essa confiança que eles depositam em mim, que a Brenda me falou desse absurdo que acontecia com ela há mais de um ano. “Eu nunca tive coragem de falar pra mamãe, porque ele disse que se eu contasse ia matar toda a nossa família”, disse. Aquilo foi um soco no meu estômago, literalmente. O filho da puta que estava abusando da minha irmã morava do lado de casa e se fingia de “vizinho amigo”.
Tudo ali do meu lado e jamais havia desconfiado de nada. O desgraçado tinha a idade para ser meu avô e de vez em quando ia em casa levar umas “caças” que ele mesmo matava nos matos de Santa Isabel.
Não tive como deixar impune aquela situação. Na mesma hora em que soube dessa história fui a casa dele para acabar de vez com isso. Como ele sempre se fazia de “bom camarada”, não viu problema nenhum em me emprestar sua espingarda de caça, a mesma que ele tanto se orgulhava de já ter acabado com “mais de duzentos animais”.
A sangue frio, falei que ia usar a arma para caçar no outro dia de manhã cedinho. Pedi que ele me passasse as instruções básicas e pronto. Ele fez questão de carregar o armamento ali mesmo na minha frente. “É sua, meu jovem. Tenho certeza que vai saber usar”, foram as suas últimas palavras, assim que me entregou a espingarda. Certamente vou saber usar, sim. Na sua cara, velho filho da puta. Disparei ali mesmo, arrebentando seus miolos.
Assim que tive certeza que ele estava morto, dei um sumiço na espingarda, enterrando no quintal de casa. Como o desgraçado morava sozinho, não houve ninguém que intercedesse por ele, a policia ainda ficou rondando lá por perto de casa durante uma semana. Mas, como não conseguiram encontrar nenhuma prova do crime, tudo foi arquivado.

domingo, 29 de agosto de 2010

Em busca de John Lennon (parte III)


Depois de quase meia hora tentando convencer o frentista sobre a importância de conversar com a mãe do Lennon, o homem decidiu me levar na sua casa. Exigindo uma série de restrições, disse que eu não poderia fotografar sua esposa e muito menos publicar essa história. Para ter certeza de suas exigências, pediu ainda para eu abrir a minha mochila e mostrar se não tinha nenhum tipo de gravador ou câmera escondida.
Após toda a averiguação e confiante que eu não iria publicar nada sobre o caso, pediu ao gerente do posto para que o liberasse por alguns instantes, pois “precisava resolver um assunto muito sério”. Disse que em meia hora no máximo estaria de volta ao trabalho.
“Ele só me liberou porque hoje é domingo e geralmente o movimento é fraco nesse dia”, disse o frentista assim que entramos numa Kombi bege, ano 94, usada para serviços do posto de gasolina. No caminho para a casa dele nenhuma palavra. Todas as vezes que tentava saber mais sobre a morte do Lennon, saber o quê e como tudo aconteceu, ele me interrompia dizendo “a minha mulher vai te falar tudo”.
Após uns dez minutos de intenso silêncio dentro da Kombi, chegamos a uma chácara, localizada na BR-316. Assim que entro na casa do frentista, mais uma surpresa. A esposa dele e provável mãe do John Lennon é a mesma senhora que estava ao meu lado no ônibus onde toda essa história começou. “Eu sabia que você viria até aqui”, disse a mulher, tentando forçar um sorriso.
Antes de perguntar por que ela tinha armado tudo aquilo, ela pegou em minhas mãos e falou que eu era a única pessoa que podia ajudar a resolver aquela situação. Disse que o John era seu filho e que toda a história escrita no diário era verdade. “Eu me converti à Igreja Universal do Reino de Deus pouco antes do John ser assassinado na estrada. Ele foi morto por aquele motorista de caminhão que é citado no diário. Eu já tinha saído daquele antro de perdição do bar da Loura e a gente já tava pensando em voltar pro Maranhão, o lugar onde nasci, quando o meu John foi morto de forma covarde por aquele caminhoneiro sem alma. Não foi só o meu filho que morreu, eu também fui junto com ele”.
Segundo ela, John foi morto na véspera do Natal quando vendia pamonha na estrada. O assassino foi reconhecido pelos outros ambulantes da estrada, mas consegui fugir. “A intenção mesmo era só se vingar do meu Lennon, do meu menino de ouro”, disse a mãe com os olhos cheios de lágrimas.
Mesmo tentando segurar meu choro, não tive como esconder o quanto fiquei triste com essa história que acabara de ouvir. Afinal, apesar de não ter conhecido John Lennon pessoalmente eu era testemunha e cúmplice da história dele. E antes que perguntasse definitivamente porque ela tinha feito tudo aquilo e porque me escolheram para compartilhar essa história, ela respondeu.
“Assim que o Lennon morreu, o meu filho Lucas fugiu de casa. E segundo me falaram viram o meu filho num documentário que o senhor produziu sobre a Marujada de Bragança. Portanto, só o senhor pode me ajudar. Traga o meu Lucas de volta, por favor. Traga o meu Lucas de volta”.


Abaixo publico na integra o quinto capítulo do diário de John Lennon Souza da Silva.

O DIÁRIO DE LENNON (quinto dia)
A primeira vez a gente nunca esquece


O capitulo de hoje é dedicado ao meu irmão Lucas. Um cara que tenho profunda admiração. Um irmão que qualquer pessoa queria ter. Mesmo cego e deficiente físico, Lucas jamais reclamou da vida. Ao contrário, é ele é um exemplo de superação e está sempre me ensinando a viver.
Entre as inúmeras situações inesquecíveis que já vivemos juntos, vale à pena lembrar aqui da primeira vez que levei o meu irmão num puteiro. Depois de passar duas semanas dando dicas de como se comportar bem na cama, levei ele ao puteiro mais caro de Santa Isabel, que por ironia do destino fica no segundo andar de um prédio onde funciona uma igreja evangélica.
Devido a falta de acessibilidade para cadeirantes, tive que pedi ajuda para dois seguranças que trabalham no puteiro para consegui colocar o Lucas dentro do ‘estabelecimento dos prazeres”. Eu preferia mil vezes, que tudo acontecesse em casa, era só ligar para o puteiro e a mulher viria em casa, igualzinho aqueles serviços de entrega em domicilio, mas o Lucas disse que não. “Eu quero vivenciar o ambiente, aqui em casa não vai ter graça”, dizia ele.
Dentro do local, escolhi a dedo a mulher com quem meu irmão iria perder o cabaço. Mas claro, a decisão final era dele. “Primeiro você escolhe com os olhos e depois eu escolho com as mãos. Preciso sentir se ela é bonita mesmo. Afinal é com as mãos que eu vejo”, dizia. Após uns des minutos de indecisão entre uma loura de 20 anos e uma ruiva de 40, ele preferiu ficar com a segunda opção.
Uma coisa eu sabia, o meu irmão estava em boas mãos. Afinal conforme ela mesma nos disse eram quase 30 anos de experiência. Mas, mesmo ela dizendo que era uma das mais requisitadas para tirar o cabaço dos jovens de Santa Isabel e que meu irmão iria ter uma noite maravilhosa, eu fiz questão de acompanhar eles até a porta do quarto para passar as últimas instruções. Nada podia dar errado naquela noite.
Não podia. Mas deu. Lucas foi com tanta sede ao pote que a ruiva não aguentou e teve uma parada cardíaca lá mesmo no quarto e morreu. A confusão foi geral, o dono do puteiro e os seguranças queriam nos linchar na mesma hora. A sorte foi que a mulher do dono era uma ex-colega de trabalho da mamãe e nos conhecia. Ela disse que a culpa não era nossa e nos mandou embora no mesmo instante. Não sei como, mas eu consegui descer uma escada imensa sozinho segurando o Lucas sentado na cadeira de rodas. Foi o medo, só pode ter sido o medo.
No caminho para casa o Lucas não falou uma palavra. Aquele silêncio dele me incomodava bastante, mas eu precisava respeitar. Afinal, a noite tinha sido péssima para a gente. Assim que chegamos ao portão de casa, ele olha para mim com um cara de frustrado e diz com um tom de serenidade “Sabe o que foi o pior de tudo, Lennon”. Não, o que foi. “É que eu nem consegui gozar, acredita”. O riso foi geral. Não conseguimos parar de ri... Esse é o meu irmão!

domingo, 22 de agosto de 2010

Em busca de John Lennon (parte II)


Entre dezenas de revistas e livros expostos ao lado do balcão de atendimento da loja de conveniência, três livros chamaram a minha atenção. Visivelmente feitos de forma artesanal, os livros, cada qual com uma capa diferente, apresentavam o mesmo título. “O Diário da vida de John Lennon”. Era exatamente a mesma história que estava na agenda da Seduc, a única diferença é que agora tinha sido reproduzida numa máquina de escrever e grampeada com folhas de papel reciclado.
Os livros não traziam nenhuma informação a mais daquelas disponíveis na agenda. Tudo seguia a risca. Cada capítulo e subcapitulo do diário que estava em minhas mãos. O quebra-cabeça sobre o verdadeiro paradeiro do pequeno vendedor de pamonhas de Santa Isabel começava a ficar cada vez mais enigmático.
Perguntei ao balconista sobre a origem daqueles livros e ele disse que foram deixados na loja por uma senhora que visitava frequentemente o posto de gasolina. “Os livros estão aqui há um ano e até agora ninguém comprou. De vez em quando a mulher vem aqui para saber se algum já foi vendido”, disse o rapaz do balcão.
Pedi para ele me dar mais informações sobre essa tal mulher. Mas a priori, ele não parecia nenhum pouco disposto. Muito desconfiado, só começou a descrever as características dela depois de ter me perguntando pela terceira vez consecutiva se eu era policial. Disse que ela aparentava ter em média uns 45 anos, negra, um pouco gorda, baixa estatura, cabelos pintados por uma cor que lembrava castanho claro e costumava usar longas saias.
Com exceção das saias, todas as características descritas pelo rapaz do balcão eram as mesmas da mãe de John Lennon. Tal qual o pequeno vendedor escreveu no diário. Comecei a juntar as informações e cheguei a uma conclusão. Agora as coisas pareciam fazer sentindo. Só poderia ser mesmo a mãe do John. Mas onde ela mora? Como eu vou encontrá-la?
“O que você quer com a minha mulher?”. Disse um frentista do posto anexo que entrara na loja para tomar café e permaneceu ali ouvindo toda a minha conversa com o balconista. O homem de aproximadamente 50 anos, de cabelos grisalhos e com um dos dentes caninos de ouro falou que aqueles livros eram produzidos por sua mulher e que se eu fosse jornalista era melhor dar meia volta porque a mulher dele não iria se expor. “A minha esposa é uma mulher de família, evangélica e não gosta de está se mostrando. Ela só faz esses livros aí porque isso foi o ultimo pedido do filho dela antes de morrer”.
Antes de morrer? “Exatamente isso”, enfatizou o frentista. “O John Lennon morreu há mais de um ano”.
Abaixo publico na integra o quarto capítulo do diário de John Lennon Souza da Silva.



O DIÁRIO DE LENNON (quarto dia)
O dia da minha mãe


Quero dedicar o capitulo de hoje para a minha mãe. Dona Mariana Souza da Silva. Batalhadora mãe de 12 filhos e que hoje completa mais um ano de vida. Ah, sim antes de contar qualquer coisa, preciso esclarecer aqui uma informação que dei no primeiro dia em que comecei a escrever este diário. Minha mãe não está grávida. Aqueles enjôos que ela estava sentindo não eram sinais de mais uma gravidez. Ainda bem.
Tem duas coisas na minha mãe que eu nunca entendi. A primeira é que ela nunca usou saia e a segunda é que ela prefere correr o risco de engravidar mais uma vez do que se operar para não ter mais filho. Em minha opinião, para o trabalho que ela exerce deveria ser obrigatório fazer essa cirurgia das trompas. Não dá para confiar apenas em preservativos. Meus dois últimos irmãos foram frutos de camisinhas estouradas.
A respeito do uso de saia, desde pequeno eu ouço a seguinte máxima em casa “Saia é coisa de mulher submissa. Eu jamais vou usar saia. Porque eu posso ser puta, meu filho. Mas submissa eu não sou”, dizia minha mãe para quem quisesse ouvir. O seu grande orgulho sempre foi não ter um marido para dar satisfações, dizia que homem só era bom na cama e de boca fechada.
Acho que o fato de ser um cara que também não gosta de dar satisfações para ninguém foi a herança mais forte que recebi dela. Em outras questões somos completamente diferentes. Se eu fosse ela já tinha mandando a Loura “tomar no cú” há muito tempo e já teria saído daquela espelunca onde trabalha. Em relação à paciência, minha mãe é quase um monge budista perto de mim.
Não sou de briga e também detesto violência, mas tenho que admitir que paciência é uma coisa que não tenho. Se tenho eu ainda não encontrei. Hoje mesmo tive uma experiência nada agradável em relação a isso. Já era finalzinho da tarde e restavam apenas três pamonhas para vender quando um motorista de um caminhão para ao lado do ponto onde eu fico e compra todas as pamonhas. Ele come as três e depois diz que não vai me pagar porque não tem dinheiro trocado. Ah, aquilo me deixou puto. Eu não sou palhaço. Não fico desde as 6h da manhã naquela estrada para servir de palhaço para os outros.
Ele viu que eu tinha ficado puto com aquilo e na mesma hora abriu a porta da boleia do caminhão e pegou um revolver calibre 38. Disse para eu sair correndo dali se não eu ia morrer naquela mesma hora. Aí eu fiquei cego, não sei até agora como eu consegui enfrentar aquele desgraçado, mas eu enfrentei. Na mesma hora que ele apontou a arma para a minha cara, eu pulei em cima dele para tomar o revólver.
Graças a Deus. Ou sei lá quem, porque para falar a verdade eu não acredito muito em coisas divinas. Mas o certo é que graças a sorte, eu não morri ali mesmo. Assim que pulei para cima dele o revolver disparou e por pouco (Seja por Deus, ou pela sorte) a bala não pega na minha cara. Na mesma hora, todos os meus companheiros que trabalham comigo vendendo produtos na estrada viram aquela cena e também partiram para cima do caminhoneiro filha da puta. Que tenho certeza que a parti de hoje, nunca mais vai enganar nenhum pobre vendedor de beira de estrada.
Ah, sim, só para esclarecer, o desgraçado não morreu. Mas porque eu não quis. O pessoal queria acabar com ele ali mesmo. Eu disse que não. Sempre defendi que ninguém tem o direito de tirar a vida de ninguém, inclusive de caminhoneiros que não valem o que comem. A surra já estava boa o suficiente para ele ter aprendido a lição. Agora preciso ir, estou preparando um bolo junto com o Lucas para fazer uma surpresa quando a minha mãe chegar do trabalho. Afinal hoje é o dia dela.

terça-feira, 17 de agosto de 2010

Em busca de John Lennon


Depois de ler todo o diário escrito pelo pequeno vendedor de pamonhas de Santa Isabel-PA e passar a semana inteira angustiado não contive minha curiosidade. Queria conhecer de perto o dono daquela história surpreendente. Saber mais detalhe sobre uma autobiografia que por ironia do destino caiu em minhas mãos.
Disposto a voltar ao local onde toda essa história começou, arrumei minha mochila com um kit de sobrevivência básico como água, biscoito, maçã, caderno de anotações e máquina fotográfica. Era o que precisava para me ajudar na missão “em busca de John Lennon”.
Decidi pegar a estrada de madrugada. Queria chegar cedo ao local onde a maioria dos ambulantes de Santa Isabel se concentra na BR-316. Não sou de acordar cedo, além do mais no domingo, quem me conhece sabe. Mas a história do John Lennon isabelense me movia. Era a pauta que eu pedia a Deus.
Cheguei ao exato local em que pretendia pouco depois que o sol acabara de nascer. Os primeiros raios solares ainda estavam despertando e eu já estava ao lado da estratégica “lombada gigante” da BR. No lugar tinha o dobro de vendedores de pamonhas da vez passada, além de outros dez ambulantes vendendo camarão, água, tangerina e biscoito de polvilho.
Perguntei para todos, sem exceção, se eles conheciam um vendedor chamado John Lennon. A resposta foi unânime. Não. Ninguém nunca ouviu falar. Mostrei a agenda da Seduc, falei das características que tinha lido sobre ele. Indaguei se não conheciam nenhum barzinho chamado “Bar da Loura”, local onde segundo o diário, a mãe do John trabalhava. Mas a resposta foi a mesma. Não.
Ninguém, nenhum daqueles vendedores jamais ouviu falar num puteiro chamado ‘Bar da Loura’ e muito menos num garoto chamado John Lennon Souza da Silva. E o pior de tudo. Falaram que segundo a lei da estrada (ou seja, a lei que eles mesmos inventaram), nenhum vendedor de outra cidade pode vender ali naquele local. Esse relato me fez na mesma hora descartar a possibilidade do John ser morador de outra cidade. E agora? “A lei aqui é bem clara. Se vier algum vendedor de outra área pra cá que não seja de Santa Isabel. A gente bota pra correr... Ah, bota!”, enfatizou em voz alta um vendedor de camarão, que não parecia nada feliz com a minha presença ali.
Logo após a conversa com os ambulantes e ainda muito confuso com aquela situação toda, fui tomar café numa lojinha de conveniência anexa a um posto de gasolina, a poucos metros dali. Dentro da loja, fui novamente surpreendido. A história do John voltava a me atormentar...


Abaixo publico na integra o terceiro capítulo do diário de John Lennon Souza da Silva.


O DIÁRIO DE LENNON (terceiro dia)

Como disse anteriormente, não sei até quando vou escrever este diário. Mas já cheguei ao terceiro dia. E caso, pare de escrever agora, nesse momentinho, as pessoas já vão saber, pelo menos um pouquinho da minha história. Mas acho que não vou parar tão cedo, não. Apesar do cansaço de um dia inteiro de trabalho, me sinto bem escrevendo. É como se estivesse registrando para sempre a minha história num documento que ficará por muitos anos aqui.
E outra coisa. Como parei de estudar por conta do meu trabalho. Escrever me deixa um pouco mais inteligente, não sei como. Mas me deixa. Acho que também serve de treinamento para quando eu, quem sabe um dia, retornar à escola. Jamais pensei em abandonar os meus estudos, pelo contrário, mais precisei fazer por livre e espontânea pressão. Minha mãe adoeceu por quase três meses e como sou o filho mais velho que ainda mora com ela, tive que carregar esse fardo sozinho e sustentar toda a família. E sem a ajuda de ninguém.
Dos meus seis irmãos, cinco são crianças e ainda muito novinhos para trabalhar e outro que tem quase a minha idade é deficiente físico e audiovisual. E, portanto, não trabalha. Mas não que ele não queira. O Lucas é um amor de pessoa, de um coração e de uma dignidade maior do que esse planeta. Mas enquanto eu tiver forças para ficar o dia todo trabalhando ele não vai trabalhar. “Oh, mano, me deixa trabalhar. A mãe disse que dá pra eu vender cigarro a noite lá no Bar da Loura”, ele me fala. E claro, eu não sou louco para permitir.
Primeiro porque essa Loura, que ele fala, é a dona do barzinho que a minha trabalha. Na verdade um puteiro disfarçado de barzinho que funciona na beira da estrada. Pensa numa mulher desgraçada, desumana e filha da puta é essa Loura. A minha mãe ficou doente durante dois meses e uns dias e essa loura não teve a coragem sequer de fazer uma visita em casa. Sendo que minha mãe adoeceu trabalhando no bar, quando um outro filha da puta espancou minha mãe depois de ter trepado com ela lá mesmo no estabelecimento da Loura. E mais. A desgraçada dessa Loura falou para a minha mãe não prestar queixa na policia se não iam descobrir que o bar funciona de forma irregular, sem nenhum tipo de alvará.
Com tudo isso como é que eu posso deixar o meu irmão especial trabalhar lá naquele bar vendendo cigarro. Claro que não. Eu não sou doido. Só não denunciei ainda aquela espelunca para a polícia porque a minha mãe disse que não sabe trabalhar com outra coisa e se o bar da Loura for fechado ela (minha mãe) vai estar desempregada. “Eu não sou mais aquela garotinha que vivia viajando de puteiro em puteiro, não. Hoje se eu sair lá da Loura não vão mais me aceitar em lugar nenhum. Eu não tenho mais aquele corpo de vinte anos atrás quando comecei nessa vida”, diz minha mãe, toda vez quando eu falo que vou denunciar a espelunca.
Mas todos esses conflitos que enfrento e todos os outros que certamente enfrentarei não me desanimam. Já falei para todo mundo aqui de casa. Um dia eu volto a estudar e ainda vou ser alguém na vida. Entre os meus planos estão: tirar a minha mãe daquela vida, porque trocadilhos à parte, eu cansei de ser um “filho da puta”; comprar uma casa para a minha família; colocar a Loura na cadeia e claro ser um grande escritor. Mas sei que para isso preciso vender muita pamonha ainda. E agora vou dormir, amanhã escrevo novamente, se não estiver muito cansado.

quinta-feira, 12 de agosto de 2010

As primeiras leituras


A cada dia uma nova surpresa. Agora passo a me dar conta da responsabilidade que é ter esse diário em mãos. Não é uma mera descrição do cotidiano de um vendedor de pamonhas. É a descrição em detalhes da vida de um ser humano. De uma pessoa que não sei porque diabos jogou a sua agenda em cima de mim com a intenção de presentear um senhora que estava sentando ao meu lado. Porque tinha que ser eu? Porque eu não deixei aquela agenda lá mesmo no ônibus?
Abaixo publico na íntegra o segundo dia do diário escrito por John Lennon Souza da Silva.


O DIÁRIO DE LENNON (segundo dia)
Hoje é o segundo dia que estou escrevendo. E para falar a verdade não sei até quando vou escrever este diário. A cada dia que passa eu chego mais cansado em casa. Ficar em pé durante horas e horas debaixo de um sol escaldante na estrada acaba com qualquer um. Mas juro que vou tentar até onde posso. Até porque se tem uma qualidade em mim que eu admiro (talvez a única que tenho) é ser persistente. Não desisto tão fácil das coisas.
Um grande exemplo da minha persistência é que aprendi a ler sozinho. Aos seis anos de idade. Como a minha família sempre foi nômade, e o máximo que morávamos numa cidade era seis meses, nunca pude frequentar uma escola do começo ao fim igual aos garotos da minha idade. Só quando chegamos aqui em Santa Isabel é que definitivamente paramos a nossa migração. Ainda bem. Não aguentava mais essa vida de caixeiro viajante.
Mas enfim... Deixa eu falar agora da minha experiência autodidata com a leitura. Como disse anteriormente aprendi a ler sozinho com seis anos. Na época morava num puteiro na cidade de Imperatriz, no Maranhão. A minha única fonte “didática” de leitura eram revistas de fotonovelas pornográficas que a dona do puteiro comprava semanalmente para dar para suas funcionárias. Como a minha não sabia lê, ela apenas olhava as fotos e depois guardava as revistas debaixo do nosso colchão.
A minha curiosidade em desvendar aqueles códigos que ficavam em balãozinhos em cima da cabeça de pessoas nuas era tanta que acabei inventando um próprio método de aprendizado. Não me perguntem como, mas inventei. O engraçado é que ao invés de soletrar palavras como: casa, navio e bola como qualquer pessoa que está começando a ler de forma convencional, separando sílaba por sílaba, as primeiras palavras que soletrei foi buceta, pica, safada. Eu confesso que tenho vergonha de falar isso. Mas, é a pura verdade. Essas eram as palavras mais repetidas em todas as fotonovelas que lia na época.
Entrei na escola com dez anos de idade. Eu era o quase o “tiozinho” da turma, todos os meus colegas de classe tinham cinco anos, imaginem só. O que me salvou foram as frequentes leituras pornográficas. Como os professores perceberam que eu já sabia lê fluentemente, eu fui remanejado para três séries adiante. E já comecei a estudar valendo na segunda série. Hoje falo para minha mãe que eu sou um leitor assíduo graças àquelas revistas pornográficas.

terça-feira, 10 de agosto de 2010

Um vendedor de pamonhas chamado John Lennon


Nunca gostei de pamonha. Mas sempre que viajo para Bragança, minha terra natal, faço questão de comprar aquelas pamonhas que são vendidas na beira da estrada para dar para minha mãe. Na semana passada, na estrada, dentro de um ônibus, numa viagem de volta para Belém, fui acordado pelos gritos de cinco garotos que em uma só voz gritavam a antológica frase “olha a pamonha, olha a pamonha!”. Era a minha décima tentativa de sono que acabava de ir por água abaixo.
Estrategicamente eles se concentraram ao lado de uma “lombada gigante” próximo de um posto de gasolina, na BR 316. Como o ônibus precisou diminuir a velocidade para passar pelo local, dava para abrir e janela do veículo e comprar o produto na maior tranquilidade, tal qual um “drive thru” dessas redes de “fast food”. Eu confesso que fui um dos poucos passageiros que não comprei a guloseima de milho mais vendida na estrada. Eis aí o meu grande arrependimento.
Se tivesse comprado certamente teria olhado com mais calma no rosto de um dos garotos, mas minha sonolência pró-viagem não deixou. Aumentando os passos porque o ônibus já começava a seguir a velocidade de antes e empolgado por vender mais de uma dúzia do produto para uma senhora que estava ao lado da minha poltrona, um dos meninos tirou de sua mochila uma dessas agendas doadas pela Seduc (Secretária de Educação do Estado do Pará) e jogou no meu colo. “A senhora vai gostar da minha história, tia”, disse o garoto para a mulher ao meu lado.
Com a boca cheia de pamonha e não dando a mínima para o ato do pequeno vendedor, a única coisa que a mulher conseguiu pronunciar foi “Eu vou descer logo ali na frente”. E a agenda? Perguntei. Ainda com a boca cheia ela deu de ombros, se levantou e seguiu para descer do veículo. Ainda insistir sobre a agenda. E nada. Como um curioso nato e assumido, comecei a folhear a agenda e logo na primeira página fui surpreendido com a seguinte inscrição feita de caneta preta “O diário da vida de John Lenon”.Aí meu arrependimento aumentou de vez. Porque não comprei a pamonha? Porque não olhei no rosto daquele garoto. A história dele está agora comigo e eu nem o reconheço se caso o encontrar novamente por aí.
Abaixo, publico na íntegra o primeiro capitulo dessa história emocionante que acabara de conhecer.


O DIÁRIO DE LENNON (Primeiro dia)

Meu nome é John Lennon Souza da Silva. Nunca entendi porque a minha mãe me deu esse nome. Analfabeta e moradora de uma cidadezinha do interior do Maranhão, ela nunca foi fã dos Beatles ou coisa do tipo. Desconfio até hoje que esse nome foi uma invenção da minha tia Izalmira, uma desses parentes metida á besta que todo mundo tem. Mesmo sabendo que eu não acredito, minha mãe morre dizendo que o meu nome foi escolhido depois de um sonho que ela teve... Um sonho internacional, diga-se de passagem. Mas enfim, acho que o fato dela não se “bicar” com a tia Izalmira impede que ela jamais admita que a idéia do meu nome tenha surgido da mente insana da minha tia metida à besta.
Sou o sétimo filho de um total de 12 irmãos. Mas só conheço seis. Os outros estão espalhados por “esse mundão de meu Deus”, como minha mãe costuma dizer. Quando nasci o meu irmão mais velho já tinha deixado a nossa casa há muito tempo. Na verdade esse é o destino de todos que completam a maioridade aqui em casa. Daqui a dois anos vai ser eu. Confesso que ainda não estou preparado para morar em outro lugar, mas enfim... Querendo ou não querendo preciso cumprir minha sina. Afinal essa é a regra da nossa casa, segundo minha mãe. “Só espero que você seja diferente. Não seja igualzinho teus irmãos que foram embora e esqueceram da gente”, diz indignada minha mãe, que sempre carregou sozinha o fardo de sustentar os filhos.
Ah, sim... Ia esquecendo de falar uma coisa primordial (é a primeira vez que estou escrevendo esta palavra, li num livro e achei bonita) para entender a vida da minha família. Minha mãe é prostituta num barzinho de beira de estrada, na BR 316, próximo da cidade de Santa Isabel. Todos os filhos que ela já teve foram segundo ela mesma fala “acidentes de trabalho”. Mas apesar de nenhuma cria ser planejada, ela nunca abortou, abandonou nem entregou os filhos para ninguém. Tanto é que já foram doze e eu acho que vem mais um aí. Semana passada eu vi ela reclamando de enjôos...acho que aconteceu mais um “acidente de trabalho”.
O legal da nossa família é a diversidade de cores. Negros, pardo, louro de olhos azuis...tenho irmão de tudo que é tipo. Somos uma família tipicamente brasileira. E... Por enquanto é só, amanhã escrevo de novo, estou muito cansado agora, preciso dormir. Amanhã tenho que acordar cedo para vender pamonha na estrada... Até amanhã!

terça-feira, 13 de julho de 2010

A Arte de Mentir


Como todo escritor aspirante à romancista sempre fui um bom mentiroso. Daqueles que mentem tão bem que acabam acreditando piamente nas suas próprias (re)invenções da verdade. Desde que comecei a esboçar os primeiros rascunhos das minhas novelas, aos oito, nove anos de idade, criava com facilidade mundos, pessoas, problemas e finais felizes. Tanta criatividade, algumas com originalidade outras nem tanto, foi essencial para que eu adquirisse uma familiaridade com a mentira.
Confesso que sempre prometo que não vou mais mentir, mas meu inconsciente acha que isso é mentira. Talvez Freud explicasse. E antes que eu seja apedrejado por conservadores e ortodoxos frustrados que ficam indignados com que conta mentira, mesmo que depois se arrependa e diga a verdade, devo esclarecer uma coisa. Nunca mentir para passar por cima de alguém. Assim como também nunca inventei nada que colocasse em risco a minha ética, o meu caráter e a honestidade que carrego comigo. Em compensação, conheço gente que se diz “extremamente sincero” e é um poço de cinismo e filhadaputagem. Mentira é diferente de falsidade. Esta me causa nojo e embrulha o meu estômago.
Minto para deixar o dia mais belo, para arrancar o sorriso do amado ou amada, para relaxar enquanto retiro as pedras do meu caminho. Minto para a minha mãe que não me vê há meses e me liga logo depois que sou assaltado e me pergunta como foi o meu dia. Minto para aquela pessoa que sou apaixonado dizendo que ao invés de duas faz três semanas que eu não a vejo.

quinta-feira, 8 de julho de 2010

Terrinha de São Bené


No dia em que se comemora os 397 anos da cidade de Bragança-Pa apresento um pequeno registro do cotidiano das margens do rio Caeté. Principal rio da cidade e cumplice fiel da bragantinidade.

quarta-feira, 7 de julho de 2010

Bragança ganha Inventário Cultural e lança selo comemorativo


Um selo comemorativo à Marujada do Glorioso São Benedito de Bragança-Pa, um ritual de fé, dança e louvor que ocorre desde 1798 no município, será um dos presentes que a cidade irá receber amanhã no seu aniversário de 397 anos. Segundo Toni Soares, secretário municipal de cultura, o selo é uma ratificação da lei 7.330 de autoria da deputada Simone Morgado (PMDB), homologada em dezembro no ano passado e que tornou a Marujada um Patrimônio Cultural do Pará. “Essa lei resgata a importância cultural dessa manifestação bicentenária que é a Marujada, prevendo sua conservação e inclusão nos calendários histórico, cultural e turístico anual do Estado”, disse o secretário.
Além deste presente, Bragança também ganhará um Inventário Cultural com o registro das mais variadas formas de manifestações e costumes existentes na região. De acordo com a Secretaria de Cultura do município o inventário é o resultado de dois anos de pesquisa e faz uma catalogação da identidade cultural dos bragantinos. A realização do projeto é uma parceria da prefeitura de Bragança com a Fundação Hilário Ferreira e a Fundação Tancredo Neves, através da lei Semear.
O lançamento do Inventário e do selo ocorrerá amanhã, às 18:30h, no Teatro Museu da Marujada, em Bragança.

domingo, 6 de junho de 2010

Moradores de Bragança ajudam a construir documentário sobre a Marujada de São Benedito







A experiência inédita de construir um filme documentário sobre a Marujada de São Benedito de forma coletiva foi aprovada por dezenas de pessoas que estiveram no lançamento do documentário Benedito do Povo, no último sábado (05/06), no Museu da Marujada, em Bragança. A ideia criada por mim e pelos meus amigos Augusto Gambôa e Kelves Raniery, todos concluintes do curso de Jornalismo, obteve o aval de quem esteve presente no evento.
A ideia de exibir um documentário ainda em fase de finalização e pedir a opinião dos moradores de Bragança sobre qual a melhor maneira de mostrar os rituais pertencentes à Marujada de São Benedito, faz parte de um projeto do nosso Trabalho de Conclusão de Curso (TCC), que apresentaremos ainda nesse mês na faculdade.
Logo após a exibição do documentário, nós abrimos um espaço de debate para criticas e sugestões com o objetivo de, a partir daquele momento, criar um roteiro colaborativo, com a participação de todas as cerca de 170 pessoas que estavam no evento.
A reação dos espectadores do filme e protagonistas do ritual da Marujada nos deixaram muito gratificados. Não faltaram sugestões para a construção de um novo roteiro. “Pedir a nossa opinião antes de finalizar um documentário contando a nossa história nos deixa pra lá de satisfeitos. Isso prova o respeito que essa equipe de estudantes tem pela gente”, disse dona Raimunda Ribeiro, devota de São Benedito e filha do capitão da Marujada.
Com isso conseguimos alcançar o objetivo da nossa ida à Bragança, exibir o documentário ainda em fase de finalização e contar com a intervenção dos moradores da cidade sobre qual a melhor maneira de mostrar os rituais presentes na Marujada de São Benedito.
A partir de agora o documentário Benedito do Povo passa a fazer jus ao nome, pois daqui para frente conta com a participação dos verdadeiros produtores da Marujada. O resultado dessa experiência será um filme literalmente colaborativo lançando no final do ano.

quinta-feira, 27 de maio de 2010

Documentário Benedito do Povo



A devoção dos bragantinos pelo Glorioso São Benedito de Bragança-Pa e o simbolismo que gira em torno do bicentenário ritual da Marujada são os temas centrais do filme documentário Benedito do Povo, dirigido por mim e pelos meus amigos Kelves Raniery e Augusto Gambôa. O filme mostra os preparativos para a Festividade de São Benedito e uma série de depoimentos de pessoas que possuem uma relação muito próxima com o santo nas suas mais variadas faces.
Benedito do Povo será exibido dia 05 de junho, às 21h, no Teatro Museu da Marujada, em Bragança. O documentário é uma parceria da Megafone Filmes com a Kvídeo Produções, duas produtoras que trabalham com audiovisuais independentes em Belém. Segundo o Kelves, o filme não possui a pretensão de ser um registro completo de todo os olhares que compõe a Marujada de São Benedito e sim um recorte da realidade que cerca esta manifestação sobre as suas mais diferentes faces. O documentário nasceu do nosso TCC de Jornalismo que faz um relato sobre a cobertura da Marujada de Bragança pela grande mídia

segunda-feira, 10 de maio de 2010

O novo "Pai dos pobres"


















"Nunca na história desse país tivemos um presidente tão popular". Essa frase, ou melhor, paráfrase, é do prefeito de Tomé-Açu, Carlos Vinícios, anfitrião da festa de lançamento do Programa Nacional de Oléo de Palma, no último dia 06 de maio, que contou com a presença do presidente Luís Inácio Lula da Silva . Apesar de não concordar com a política lulista de governar, tenho que admitir que o argumento do prefeito é verdadeiro. O atual presidente da República é extremamente pop. E realmente "O pop não não poupa ninguém", nem mesmo o Papa, como diz a canção dos Engenheiros do Hawai. A popularidade do presidente Lula é algo inexplicável. Mesmo sendo o governo que mais beneficiou os banqueiros e que mais fechou rádios comunitárias, a popularidade dele permanece inabalável.

Registrei toda essa aclamação popular de perto quando estive em Tomé-Açu. Juro que a frase que mais ouvir foi "Eu vi o Lula, agora tô satisfeito", ditas logo após um longo sorriso...Caravanas das mais diversas partes do Estado. Famílias inteiras fazendo filas quilométricas desde às 5h da manhã na frente do Parque de Exposições do município apenas "pra ver o homem"...

Os aplausos e gritos de "viva o Lula", assim que o presidente desceu do helicóptero, e a esperança nos olhos de muita gente, em pé, sem nenhum tipo de proteção solar, expostas ao calor escaldante do meio dia compuseram um espetáculo a La Getúlio. Mais um episódio que deixava claro quem assume agora o papel do novo "pai dos pobres" no Brasil.

segunda-feira, 19 de abril de 2010

MST realiza ato por 14 anos de impunidade








"Justiça". Essa é a resposta de um sobrevivente do Massacre de Eldorados dos Carajás quando perguntando sobre o que ele espera que seja feito 14 anos depois do pior episódio de lutas por reforma agrária do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem-Terra (MST) no Pará. Passado quase uma década e meia, nenhum responsável ainda foi punido. Na época 19 trabalhadores rurais foram assassinados e outras dezenas ficaram feridos durante um confronto com a Policia Militar. "A luta armada só ocorreu porque a PM tentou conter de forma violenta um protesto que fazíamos contra a demora do processo de desapropriação da fazenda Macaxeira, no município de Eldorado de Carajás", relata Ulisses Manaça, diretor estadual do MST e membro da coordenação nacional do movimento.
Para lembrar a memória dos 19 mortos do massacre de Eldorado de Carajás, membros do MST realizaram no último sábado (17/05), na praça da Leitura em São Brás, uma celebração ecumênica promovida em parceria com o Comitê Intereligioso do Pará. "Tudo o que queremos é justiça. É Fundamental o papel da Igreja e outras entidades civis organizadas como aliadas dessa luta por uma reforma agrária de verdade e que atenda de fato os anseios da nossa população", afirma a irmã Marga Rothe, missionária do Comitê.
A demora por justiça e a ausência de políticas públicas que defendam a vida dos trabalhadores rurais do país tornam constantes episódios como o de Eldorado de Carajás. De acordo com a Comissão Pastoral da Terra (CPT), entre 1985 e 2009, foram assassinados 1.546 trabalhadores rurais no Brasil. Somente em 2009, 25 trabalhadores do campo foram mortos por latifundiários. E desse total de conflitos, apenas 85 foram julgadas até hoje, sendo condenados 71 executores dos crimes e absolvidos 49.
O ato realizado do último dia 17 em Belém, fez parte de uma série de atividades da Jornada Nacional de Lutas por Reforma Agrária, promovida pelo MST, que possui como um dos objetivos promover debates sobre a política agrária no país e lutar pela descriminalização do movimento.

terça-feira, 13 de abril de 2010

Relatos de um capitão


Na manifestação da Marujada de São Benedito, um ritual de dança ritmo, louvor e devoção que ocorre há mais de 200 anos na cidade de Bragança, nordeste do Pará, encontrei um exemplo de vitalidade que vale a pena se registrado aqui. Seu Teodoro Ribeiro Fernandes, capitão da Marujada ( cargo vitalício exercido por marujos mais velhos que são considerados bons dançarinos) nos conta como começou a sua história neste ritual.

Sentando em um banco de madeira, debaixo de uma barraca, no fundo do quintal de uma casa, no subúrbio de Bragança, seu Teodoro Fernandes Ribeiro, 100 anos, conta sua história ao mesmo tempo que degusta um prato com caranguejos, limão e farinha d’água. As mãos trêmulas denunciam o estado enfermo em que ele se encontra. Com a voz cansada pelo tempo, ele vai lembrando os momentos marcantes de sua trajetória como capitão da Marujada.

Seu Teodoro começou a ser marujo por volta de 1956. A entrada dele na Irmandade da Marujada foi para pagar uma promessa que fez para ficar curado de um ferimento na perna provocado por um tiro de espingarda. O acidente ocorreu numa emboscada no meio da mata, na região dos campos de Bragança. Ele não sabe quem atirou e nem o motivo daquele atentado. Sempre se considerou um homem pacífico, e afirma que nunca teve inimizades. O ferimento provocado pelo tiro fez com que seu Teodoro parasse de andar e ficasse internado durante três meses na Santa Casa de Misericórdia, em Belém. Após seu retorno para Bragança, ele prometeu a São Benedito que se fosse curado e voltasse a andar iria sair todos os anos de marujo.

Sem nenhuma modéstia, ele diz o quanto dançava bem todos os ritmos da Marujada. Xote, retumbão, mazurca, chorado, valsa, contradança. O fato de ter sido um excelente “pé de valsa”, foi o que segundo ele, determinou a sua escolha de capitão pelos membros da Irmandade. Mas, o cansaço nas pernas provocado pela idade fez com ele parasse de dançar. Desde 2006, seu Teodoro não dança mais. “As doenças da velhice foi chegando e toda aquela vitalidade que eu tinha foi se acabando”, conta. Agora a sua roupa de marujo só é usada uma vez ao ano, dia 26 de dezembro. Ele faz questão de estar vestido a caráter para ver a passagem da marujada durante a procissão em homenagem à São Benedito.


sexta-feira, 12 de março de 2010

Me perdoa, São Bené!

Marujada do Glorioso São Benedito em Bragança-PA
Prestes a entregar minha monografia do TCC, que trata de um estudo sobre a cobertura telejornalística da Festividade do Glorioso São Bendito de Bragança, lembrei de uma situação comico-trágico curiosa. Vale a pena dividir isso com vocês:

...Desde moleque sou testemunha de inúmeras promessas da minha mãe e da minha vó para São Benedito, padroeiro da cidade de Bragança. Cresci ouvindo que “São Benedito era um santo milagroso”. Depois de presenciar tanta intimidade com o “pretinho” (nome como o santo é chamado carinhosamente pelos bragantinos)  na minha casa, resolvi arriscar . Afinal não tinha nada a perder.

Aos onze anos fiz minha primeira promessa. Prometi ao santo que se eu ficasse curado de uma dor no joelho que vinha sentindo a mais de três meses, compraria uma caixa com velas e acenderia no dia da procissão, dia 26 de dezembro. Ao se aproximar o tão esperado dia e sem sentir mais nenhuma dor, comprei as velas e guardei na minha gaveta para ninguém saber dessa história.

O assunto era apenas entre o santo e eu, nem minha mãe sabia da tal promessa. Sigilo total. Aos onze anos me achava adulto suficiente para resolver isso sozinho. Chegado o dia da procissão, com a caixa de velas no bolso e pronto para pagar minha promessa, me dirigir para a parte de trás da igreja de São Benedito, onde existe uma espécie de mesa de ferro destinada para acender as velas em homenagem ao santo. Tudo teria saído muito bem se eu tivesse pedido ajuda para um adulto. Mesmo me achando suficiente preparado para exercer minha função naquele momento, fui barrado pelos organizadores da festa. Achei um absurdo a reação daquelas pessoas. Ainda que eu corresse o risco de me queimar, pois as chamas das velas chegavam a atingir quase um metro, me achava pronto para encarar aquela situação.

A possibilidade de ocorrer uma queimadura era grande e extremamente viável. Hoje entendo perfeitamente porque não deixaram um menino gordinho de dentes salientes acender sozinho uma caixa de velas atrás da igreja. Passado o momento de frustração, voltei para o arraial para procurar minha mãe e voltar para casa. Achava inadmissível ter de pagar a promessa outro dia. E se o santo não aceitasse mais? Como ficaria minha reputação? Será que eu merecia um castigo por não ter cumprindo a risca minha promessa?.. Enfim, não faltaram indagações na minha cabeça. Mas de uma coisa eu tinha certeza, se tivesse avisado meus pais sobre a promessa tudo seria diferente. Eu fui o único proibido de acender as velas, se tivesse acompanhado de um adulto a história seria outra. Fazer o quê? Agora só restava esperar outro dia, de preferência um dia sem aquele movimento intenso, voltar ao local e pagar minha promessa. Foi isso que fiz...me perdoa, São Bené!